Conto por Mário Neto
18 de fevereiro de 2003
A vida de Acácio não andava nada bem. O casamento estava em pedaços. A esposa achava que ele era condescendente com tudo e com todos. Sua carreira era uma mentira. Trabalhava como um condenado para receber um salário de miséria e sempre avisado de que qualquer pretensão futura era perda de tempo. Era motivo de piadas no grupo de amigos, tanto pela sua situação com a esposa quanto no trabalho. Acácio, triste e inconsolável, concluía que algo precisava ser feito.
Numa noite de prolongada insônia e de profundas divagações, teve uma idéia que de início considerou fabulosa. Anotou numa pequena tira de papel as seguintes palavras: "preciso de um adulador".
Pela manhã, depois de acordado, releu a tirinha de papel e quis rir. "Só pode ser mesmo uma piada. Sou mesmo uma piada, um louco!", foi o que pensou. Mesmo assim, guardou o papel sobre a gaveta do criado-mudo. Quem sabe não seria útil.
E foi. Dois dias depois que teve essa idéia estranha, depois de passar por mais insultos de sua esposa, do chefe e dos amigos, Acácio deixou de lado o que chamava de "senso do ridículo" e ligou para um jornal. Mandou publicar um anúncio que dizia o seguinte:
"Vaga para Adulador Profissional. Preciso de pessoa honesta, inteligente e de boa aparência para cargo de adulador profissional. Bons conhecimentos de teatro e línguas são essenciais. Início imediato. Paga-se bem".
Apesar da novidade da vaga, imaginando que poucos fossem responder a tal anúncio, recebeu diversas ligações. Teve que agendar toda uma noite - pois de dia tinha que trabalhar, ou ser humilhado, como ele dizia - para entrevistar os candidatos. Apareceu tudo quanto é tipo de pessoa: um com especialização em artes corporais, outro com domínio em línguistica aplicada, e mais outro com mestrado em história social pela Universidade de Polonsky e doutorado em história da educação pela Universidade de Praga.
Mas nenhum deles foi escolhido. O escolhido, ou a escolhida, apesar das suas exigências no anúncio, era uma linda loira de voz macia, cabelos cacheados e dourados e uma pele de seda. Formação? Manicure. A razão? Muito simples. Assim que o viu, ela lhe fez um longo elogio sobre a gravata; gravata que ele mesmo considerava de extremo mal gosto. Ela falou ainda do rosto maduro que ele tinha, da voz firme, dos gestos eloquentes, da maneira sublime em que ele tomava o cafézinho com o dedo empinado, de como ele ficava charmoso com o bigode "sujinho de molho" e das sobrancelhas de gênio. Ele não teve dúvida. Era a pessoa perfeita para o cargo.
Acácio passou algumas recomendações simples. Que ela dissesse a ele sempre que possível que era bom, inteligente, bonito, simpático, charmoso, galante, conquistador, garanhão, astuto, sagaz, dono da situação e etc. Que dissesse tudo isso a qualquer momento, mas que ninguém mais ouvisse. Nada de fazer inveja aos outros. Só o que ele queria era ouvir todos esses elogios em segredo. Ele pediu ainda para que ela agisse da forma mais real possível. Que ela fizesse o máximo para que ele não percebesse que aquilo era forjado, mas sim que era uma admiração profunda e natural. Que ela o enganasse da melhor forma possível, que usasse de todas as técnicas de representação e encenação que conhecesse para que ele não desconfiasse - ou lembrasse - de seu próprio plano. Quanto a isso ela respondeu:
- Senhor Acácio, isso não será necessário de forma alguma. Admirei-o assim que o vi.
E ele teve a certeza de que ela era mesmo perfeita para o que havia proposto.
Assim se passou. Acácio chegava ao trabalho e ela dizia "o senhor está envolvente com esse terno escuro". Ele se sentava e ela dizia "que movimento elegante". Ele pedia uma certa ficha ou pedaço de papel e ela dizia "desse jeito eu não aguento, Senhor Acácio, sua voz me deixa perdida". Ele pedia um café e ela lembrava: "um café não, Senhor Acácio, aquele seu dedinho mexe comigo…"
Nos primeiros dias Acácio constantemente se lembrava de que as palavras da Arlete, sua nova funcionária, tinham ar falso, de que ela era contratada e fazia aquilo porque ele havia pedido. Mas com o tempo, com a insistência e a maneira perfeita com que Arlete o elogiava, sempre em momentos oportunos e de maneira suave e gentil, Acácio passou a desconfiar que o que ela dizia era mesmo verdade.
Precisou de pouco tempo para melhorar muito sua autoestima e a render mais. A esposa e os amigos pararam com os insultos e perceberam que ali surgia um grande homem. Assustaram-se com a auto confiança daquele novo homem. Da esposa, por exemplo, ele não quis nem saber. Separaram-se, mesmo com os gritos de "fica comigo" e "te amo" que a mulher dizia de cabelos em pé. Os amigos também mandou pastar, eram um "bando de sanguessugas".
Decidiu também deixar seu atual cargo e abrir um negócio próprio. Sentia sua alma repleta de energia para avançar no empreendedorismo. A missão da nova empresa? Prover aos clientes vantagens em todos os segmentos através do treinamento e contratação de aduladores profissionais. Os profissinais eram treinados em teatro, dança, oratória, marketing, psicologia, sociologia e algumas noções de administração de empresas.
Não é preciso dizer que sua empresa faturou milhões e que ele apareceu entre os executivos do ano. E a Arlete, que era sócia da empresa, continuava dizendo:
- Senhor Acácio, seu olhar é tão astuto como o de uma águia.
Acácio morreu, deixando Arlete como viúva. Morreu acreditando nela. E a Arlete, sem mais conseguir distinguir o que era ou não verdade no que dizia, enviuvou-se acreditando que vivera com um Deus em forma de homem.
Titulo: O adulador profissional
Autor: Mário Neto
Gênero: Conto
Data de publicação: 18 de fevereiro de 2003
Resumo: Conto sobre o poder de um adulador.
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Desde quando eu li este seu texto, Mário, eu sempre achei que ele é o maior clássico do site. E olha que este é um sr. elogio diante de pérolas como “A casa do Borges” do Piccolo, “Ota X Tico e Teco”, do Russell, “Notas sobre o torrão de acúcar e o café”, do Socha e “Minha primeira Copa do Mundo”, do Sampa, entre muitos outros textos injustamente não citados…