O armário chinês

Conto por Alexandre Piccolo
22 de fevereiro de 2003

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© apiccolo

- Cara, preciso mudar de vida.

- Não esquenta, rapaz. Logo logo aparece algo novo, insólito…

E Renato desconversava mais uma vez o velho papo de Luís Marcelo sobre largar a pós em cinema na USP, deixar a Patrícia, sair da casa dos pais e cair na gandaia, festar, viajar, curtir a vida. Sempre a mesma ladainha. E o garçon voltava com o sorriso solícito:

- Mais dois chop… (uns goles)

- Desta vez é sério, vou procurar o tal Persky. Dizem que ele veio pra cá há pouco tempo, mudou do Brooklyn direto prum predinho bacana no Jardins.

- O cara não morreu? E aquela história da explosão?

- Não sei o que aconteceu ao certo, só indo lá e conferindo.

- E você não vai fazer isso, vai? Esse cara, se ainda tá vivo, é louco. Vai por mim, entrou até em conto do Woody Allen?!

- Sei, sei… mas desta vez é serio, alguma coisa tem que mudar. Um amigo me deu o telefone do sujeito, vou ligar e conferir.

- Rapaz, você precisa é parar de ver filme chapado, isso tá te fazendo mal, aparece cada idéia…

E a conversa seguiu como sempre, mas desta vez com Luís Marcelo decidido: amanhã ligaria pro tal Persky, o misterioso.

Assim foi. Ligou, pegou o endereço, achou o prédio, passou pelo porteiro carrancudo, subiu num elevador velho e barulhento e tocou a campainha. “Putz, ainda vou me arrepender disso”, lhe bateu um frio na espinha. Atendeu o tal Persky. Olhinho meio puxado, bigodinho ralo, cabelo sujo e um rabinho meio rastafari - algo de Brasil já aparecia além do cordão no pescoço e as pulseiras do Senhor do Bonfim. “Estranho, Persky lá é nome de gente”.

Apresentações e dúvidas resolvidas, o sorriso maroto enfim apareceu na cara do sujeito, que devia beirar os 50, quando Luís explicou o caso: a monotonia, a rotina, a mesma vida: algo tinha que mudar.

- Você conhece a história do Dr. Kugelmass? - indagou Persky - ele foi mexer com a tal Emma Bovary, rapaz, aquilo deu um rolo… E enfatizou: esse Kugelmass quase me matou.

- Sim, eu li a respeito.

- E você vai querer entrar onde?

- Ainda não sei direito… Quero mais vida… Quero transar com a Luana Piovani numa praia de Florianópolis ao pôr do sol… quero mudar, quero mais romance, música, amor, beleza em minha vida!

- (parece que já ouvi essa história, pensou…) Quer um chá ou um café?

- Não, obrigado.

Depois o louco sou eu, quer tanta coisa e não quer um chá”, Persky divagava consigo em direção à cozinha, “por fim todos querem o mesmo”, e voltou bebericando um copão de chá gelado. Luís, na sala, já apreensivo:

- Vamos ao que interessa: esse negócio funciona mesmo?

- Você já vai ver. Eu ainda fiz umas mudanças no armário, coloquei um vídeo e dvd dentro, agora funciona com livro e filme. Só um segundo.

Persky entrou no quarto e saiu de lá arrastando o famoso armário para sala. Era uma espécie de armário chinês, sobre rodinhas rangentes, com a laca descascando e todo empoeirado, guardado debaixo de um lençol amarelado.

- Persky, não estou acreditando. Você deve ser maluco, como eu vou entrar neste trambolho e aparecer dentro dum…

- Calma, rapaz. Você vai ver por você mesmo… Ah, você já deve saber, são vinte dólares.

- Ok… Hoje fechou em dois e noventa e…

- Não, não, cortou Persky, tem que ser em doletas mesmo.

- Ah… ? Luís Marcelo fingiu cara de espanto mas já sacou as verdinhas da carteira, estava preparado.

- Então, decidiu o que vai ser?

- Ainda não sei, hmm… algo rápido, mas intenso, que vale a pena…

- Que tal ir atrás da Nastácia Filíppovna, do Dostoiévski?

- Não, muito louca, muito complicada. Eu nem ia saber falar o nome dela direito e eu nem gosto de literatura russa.

- Hmm… um caso rápido? Que tal Catherine Deneuve na Bela da Tarde?

- Não, muito vaga. Além disso ela já trai o marido, quero algo mais quente, desafiador…

- Sharon Stone no Instinto Selvagem? Ela só anda sem calcinha, você põe o Michael Douglas pra escanteio, traça a amiga…

- Não, perigoso demais. Vai que a amiga lésbica resolve me matar, aí eu danço. É esse!

Luís Marcelo sorriu quando viu Matrix na estante. Entregou-lhe decido, ao que Persky retrucou:

- Rapaz, esse é perigoso, você pode ficar preso e não voltar…

- É esse mesmo! Tó aqui!

- Certo, por sua conta e risco. Pra sair é só assobiar que eu tiro você de lá.

Luís Marcelo pagou os vinte dólares e entrou no armário. Persky apertou o play, fechou as portas de par em par, deu três batidinhas na lateral do armário e, quando abriu de novo as portas, Luís Marcelo tinha desaparecido.

Exatamente neste mesmo instante, ele apareceu numa rua escura diante de uma cabine telefônica. Estava dentro do filme. “Não acredito!”. A sua frente, uma mulher atende ao telefone e, cabum!, um caminhão destrói qualquer vestígio humano ou telefônico por ali. “Impossível! Inacreditável! Eu, dentro do filme. Deixa só a moçada da turma ficar sabendo…”

Luís Marcelo queria impressionar, fazer bonito, afinal aquele era seu filme. “Agora é só encontrar a Trinity, ela vai estar naquela festa…” - dito e feito. A rave explodia quando Luís Marcelo encontrou no meio da multidão Carrie-Anne Moss, toda de couro preto e óculos escuros, conversando com Keanu Reeves, dizendo que a Matrix estava em todo o lugar. “Oi, meu nome é Luís Marcelo…” ao que ela tentou fingir que não ouviu pra despistar. Neo, ainda meio inseguro, não se intrometeu, olhou com aquela cara de "quem é esse sujeito". Luís a puxou pelo braço e insistiu “não foge, garota, vamos conversar” e ela retrucou de cara fechada, “quem é você pra me interromper assim” - na versão dublada de Persky, Trinity tinha uma voz estranha. Luís Marcelo não esperou um segundo: lascou-lhe um beijo a força mesmo. Ela resistiu um pouco e logo se safou, “cara louco…” - e ele, sorridente, comemorava, "ninguém vai acreditar…". Naquela hora milhares de fãs do filme se perguntavam o que aquele moreno de cabelo escorrido castanho fazia ali roubando um beijo da Carrie-Anne Moss na frente do Neo. Os críticos acharam insólito, mas justificavam que a modernidade dos filmes cult tudo permitia.

Ainda eufórico mas já sintonizado com o mundo lá fora, Luís Marcelo se lembrou do encontro que marcara com Patrícia. Ia chegar atrasado.

Assobiou e gritou, “ok, pode me tirar”. Ouviu-se um barulho como um “pop” e Luís Marcelo estava de volta ao apartamento de Persky no Jardins.

- Curtiu?!, pergutava Persky sorridente.

- Sim, mas agora não dá pra contar. Vou chegar atrasado no shopping e Patrícia vai me encher o saco. Depois eu volto e continuo.

- Ok, quando você quiser. É só trazer os vinte dólares.

E Luís Marcelo saiu como um doido. Encontrou Patrícia, ela já emburrada, ele ainda agitado, na praça de alimentação lotada do shopping Eldorado, com a apresentação de um desses artistas populares que importunava o silêncio, a paciência e a refeição de quem por ali transitava. Patrícia desconfiou:

- Você está estranho…

- É que vim correndo, tive que passar na faculdade pra pegar um filme que eu vou assistir hoje à noite. Preciso fazer um trabalho sobre Sérgio Leoni e ainda não vi nada.

- De novo, Luís! A gente vai ficar sem namorar pra você ver filme chapado e ficar fazendo trabalho…, Patrícia vociferava resmungando.

- Esta é a última vez, prometo. E quanto mais cedo eu começar, mais cedo eu termino.

Luís Marcelo desconversou rapidinho qualquer intenção de discutir o relacionamento, deixou Patrícia na mansão dos pais dela em Perdizes, passou voando em casa pra pegar uma nota de vinte e correr pro apartamento de Persky. Tinha que reencontrar Trinity, urgente.

- De novo? tão rápido? - indagava Persky sempre sorrindo.

- Sim, quero beijá-la de novo. Mesmo que seja a força, não interessa.

Pagou e reapareceu dentro de um carrão, no banco de trás junto de Trinity, com outras duas pessoas à frente. "Você de novo, que você está fazendo aqui?!", indagava Carrie-Anne Moss brava e surpresa. Luís respondeu com toda a lábia, como em outras horas infames, "vim ver você, vim só atrás de você". E ela, inexorável, "não me atrapalhe, vamos pegar o Neo e levá-lo para Morpheus". Fizeram isso, Luís colaborou. Mas também se assustou com aquela meleca que saiu do umbigo de Neo - também não é toda hora que isso acontece - e aproveitou pra apertar a mão e abraçar Trinity no meio do susto. Ela o empurrou e se debateu pra não ser mais agarrada, "que cara mala". Quando abriram a porta e colocaram Neo em dúvida, Luís Marcelo quase o convenceu a sair. Mas Trinity segurou-lhe a mão e pediu que ficasse quieto, ia acabar estragando tudo. Aí Luís gostou. Sorriu e ficou paciente, "já já dou outro beijo".

Chegaram ao tal Morpheus. O sujeito era bem maior ao vivo do que na tela. Papo vai, papo vem - "e eles falando que não têm muito tempo". Finalmente o negão oferece os tais comprimidos a Neo. Luís não se segurou: "escolhe o outro!". Todo mundo ali olhou de cara feia, ele fez ar de "foi mal, galera" e com um risinho abaixou a cabeça. E não é que Neo resolveu mesmo trocar de comprimido!

Nessa hora uma enorme explosão no quarto de Persky incendiou tudo por ali e pôs o prédio inteiro abaixo. Nada de Persky, sequer Luís Marcelo. Uma catástrofe enorme. Um pandemônio geral se instaurou no Jardins, não sabiam de onde veio aquele atentado. Simplesmente inexplicável. E a pílula está acima de qualquer suspeita.

A pílula, bem, esta dizem que foi realmente trocada, mas ninguém tem mais a versão original e intacta pra conferir. E o filme, bem, o filme continua o mesmo, mesmo depois da troca da pílula, afinal, trocou-se o remédio e não a receita. E dias depois do atentado - que alarmou São Paulo por alguns…, digamos, minutos - dizem que já surgiu uma continuação para este primeiro episódio, que acaba como todos sabem. Só os amigos de Luís Marcelo é que estavam orgulhosos do feito do amigo desaparecido, e ansiosos pra saber se ele estaria na tão aguardada continuação.


Titulo: O armário chinês

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 22 de fevereiro de 2003

Resumo:

um estudante de cinema, um armário chinês misterioso, Matrix e…

6 Comentários

  1. Sabrina Fontenele disse:

    Alexandre,dei boas gargalhadas do seu texto… fantástico!

  2. Herbie disse:

    Cara, inebriante.Mas eu com certeza colocaria algum outro filme, tipo, Tomb Raider, sei lah..:)

  3. Aline disse:

    Oi Alê, olha que eu nem assisti o Matrix 1 e espero nem ver as pílulas da nova versão… Mas que viagem a sua! Adorei e queria entrar num armário desses qualquer hora. Beijo.

  4. Marilda Piccolo disse:

    Alê,Ainda bem q estou indo aí… Fiquei preocupada com sua noção de realidade. Tirando a preocupação de lado, o texto ficou demais. Vc já leu “O Restaurante no fim do Universo”? Se não, deveria, principalmente se pretende continuar na linha ficção…Um Beijo, Tia Marilda

  5. PH disse:

    Que pílula vc tomou para ter esta viagem? a vermelha ou a azul? Muito engraçada!

  6. Mário disse:

    Hahaha. Hilário. Boa Piccolo!

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