O bolo

Conto por Eduardo Socha
30 de maio de 2003

Que era noite mal-dormida naquele bulício de cidade grande que, meu Deus, os carros não descansavam as ruas nem depois das três da manhã. Hilda se levantou meio engastada das pílulas que Dr. Bommedico lhe receitara pra controlar a insônia. Pois estes carros malditos venciam os comprimidos. Deixou o marido e seu Ronco ali na cama ? já não existe afinal operação pra curar Ronco ?!?! ? e foi pra sala, ver o que se via no cabo àquela hora. Reprise de seriado, planeta animal, documentário da copa de 66, chuvisco, filme do tom hanks, noticiário em hebraico, leilão de bezerro, gato félix, atentado na síria, Zap, Zap, Zap, botão desligar. Visitou a cozinha. Perscrutou o quarto do menino, ele dormia o sono plácido e invejável das crianças. Hilda quase verteu lágrima, tão puro era o sono do guri. De passo leve, retornou ao quarto, viu o marido e seu Ronco esparramados na cama, em súbita conquista de território, quase em forma de X o safado, e não tinha dado nem quarto de hora. Hilda se sentou na borda do colchão, empurrou o marido que lhe devolveu fungada pelo Ronco e foi aos poucos se deslocando como víbora letárgica até o canto garantido pelo santo sacramento. Bem que tentou ligar o abajour e ler alguma coisa. Mas o sono, a pílula, os carros, o sono, o bezerro, o sono…. Aí acordou às seis e meia, e o marido ali engomado sem Ronco, ajeitando diante do espelho a gravata listrada, sublimes listras das melhores casas de Milão. “Hilda, passo às oito e a gente vai”. Ela respondeu hmm hmm porque ainda grogue, talvez das pílulas do Dr. Bommedico, não articulava palavra.

Em seguida, Hilda partiu e trabalhou. Voltou às sete. Deu instruções à babá. Deu oito horas, passou o marido. Os dois foram.

E como chovia na cidade buliçosa àquela hora de agosto. Ao marido não agradavam muito os recitais. Suportar duas horas de violino com piano lhe demandava esforço hercúleo, her-cú-le-o, dizia pra Hilda que, coitada, tinha de ouvir o hercúleo silabado. Mas afinal, fazia parte da programação do pessoal de marketing, não tinha escapatória; depois há o coquetel, a diretoria deve comparecer, sempre bom fazer agrado na chefia, aquela coisa. Hilda, ao contrário, se interessava pelos recitais, se envolvia de fato no gozo camerístico, ela que abandonou o piano ainda moça. E olha que as escolhas dos músicos eram bem boas. Ponto pro marketing. Traziam talentos do leste europeu, baratos e competentes que eram. Desta vez, um tal de Birezavsky, ao piano, acompanhava um búlgaro de nome impronunciável, ao violino. No programa, a sonata em fá menor de Prokofiev, entre outros. Hilda conhecia a sonata “de nome” apenas. O marido trocava risadas com alguns colegas, nem leu o programa. Com Hilda a seu lado, adentravam lentamente o anfiteatro suntuoso. Agradavelmente se acomodaram. Birezavsky e o búlgaro entram. Aplausos, Tosse, Tosse, Silêncio, Tosse. Birezavsky encara friamente o violinista… ataca o primeiro fá, soturno e preciso, dó, fá…

Que som arrancou do violino aquele búlgaro de nome impronunciável. Dava pra dizer que Hilda petrificou, enquanto a alma batia-lhe na cabeça e um tremor candente lhe cerrava as vistas. Acabaram o allegrissimo e aplausos e aplausos e bis e aplausos. Hilda sempre ia aos recitais e nunca tinha escutado aquela maldição de Prokofiev. Que era um furor, umas labaredas sonoras queimando as vísceras de Hilda, hercúleo do diabo. Mais tarde haveria o coquetel, é certo. Tratou portanto de se recompor. E conseguiu, pois com destreza jogava às demais senhoras o surrado small-talk preparado pra ocasiões do tipo. Mas quem notasse Hilda de perto, perceberia uma sutil fixação na geometria da taça abaulada de vinho branco que firme ela retia. Com a ponta das unhas bem asseveradas por manicures risonhas, percorria a superfície externa do copo, investigando todos os contornos do objeto frio, deliciando-se na forma elíptica do vaso, na finura engraçada da haste, na certeza irritante da base, e inventava novas rotas de exploração copo acima e abaixo. Era quase fim de coquetel, “Hilda, segura meu casaco, vou dar uma última palavra ali com o Horácio e já vamos”, Hilda forjando expressão de “tá bom”. Agora, casaco na mão, aguardava o marido.

No carro, os dois falando sobre a noite chuvosa de agosto. Chegaram cansados. Hilda tomou o comprimido, viva o Dr. Bommedico, dormiu.

Manhã seguinte, sábado, Hilda se lembrou de Marisa, amiga longínqua, tempos do colegial, as duas formaram certa vez um grupo chamado “patota-sururu”, que arranjava briga com os rapazes do colégio marista só pra diversão. Hilda apenas se lembrou dela, nada mais, não sabia o porquê. Nem quis telefonar, bem da verdade, nem tinha o telefone dela. Amargou-lhe aquela comicidade tão distante da “patota-sururu”, hoje ela, com criança no quarto, her-cú-le-o e tudo mais. O vil saudosismo, coitada. Gastou o dia com o marido e o menino no shopping e na tv, Zap, Zap, leu sete páginas, não mais, de romance russo. No crepúsculo daquele agosto, saiu de casa sozinha, à pé mesmo, sem o carro, pois que ela agora se metia a besta de querer flanar pelo bairro sujo de marginais abruptos a lhe arrebentar as fuças a qualquer momento. Foi caminhando devagar pela rua buliçosa, com um estranhamento pesado no útero, é certo, sentimento ruim, e estacou na confeitaria uns cinco quarteirões pra cima, pra comer uma fatia do Bolo cilíndrico e sedutor, que se destacava pomposo na vitrine. Enquanto comia o Bolo na mesinha de plástico com toalhinha de rendas, a imagem de Marisa subiu-lhe às idéias. Discretamente, deixou escapar um sorriso pelo canto da boca, e se perguntava por onde é que anda nossa vice-diretora da “patota-sururu”. Não demorou pra que a Marisa se sentasse à mesa, “agora não interessa, Hilda, estou bem longe”. Hilda bem que tentou dizer alguma bobagem pra ela. Mas resignada e ausente, Hilda só se limitava a mover os restos do Bolo com o garfo de plástico. Após refletir bastante, largou a Marisa, bem ali na mesa, nunca mais a viu.

Voltou apressada pra casa, porque aos sábados ela preparava a janta do menino.


Titulo: O bolo

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Conto

Data de publicação: 30 de maio de 2003

Resumo:

(primeira versão para conto)

,

1 Comentário

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Parece haver um corte repentino na cadência narrativa, do aparecimento de uma nova personagem (Marisa) à quebra da antiga relação. Até então, Hilda se constrói muito bem. Projeto para um texto mais longo?

Deixe seu Comentário

Spam Protection by WP-SpamFree

Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

Bad Behavior has blocked 23 access attempts in the last 7 days.