Conto por Leonardo Augusto
3 de março de 2004
Maria Clara enxugou num gesto lânguido e monótono a última lágrima da noite, mas não conseguiria dormir antes de longas horas depois. Falava consigo mesma ora nervosa e ressentida, ora confusa e trêmula, ora brusca e repreensiva, nunca calma nem lúcida. Lúcida, meu Deus, ela sempre se achara tão lúcida e racional, tão firme na terra e agora não se lhe achava o chão.
Rolava pela cama enorme, vazia do formidável volume de seu marido Rubens, que dormia o sono dos justos num leito de CTI. O resto da enorme casa era assombrada por vestígios de seus antigos moradores: o mais velho morava na Romênia, aonde fora como jornalista e encontrara numa camponesa motivo para nunca voltar; a do meio fazia faculdade de veterinária em Minas, nunca ligava; o caçula morava com o avô em Ubatuba, foi pra surfar, ou realmente para flanar sob a complacência do octogenário. E ela entregue a si própria na mansão campestre dos Minchetti. O ser humano mais próximo era a mulher do caseiro, numa casinha a quinhentos metros dali. Sua inquietude a impelia a buscar lá algum conforto, um fogo aconchegante e uma xícara de chá.
Não estava disposta, ao menos em princípio, a revelar seu dilema interior. Não dissera palavra nunca a ninguém, não mudaria de idéia. Lembrava, enquanto caminhava a alameda de acácias de que aquela boa alma cuidava com tanto esmero, do exato conteúdo do pedido que seu esposo lhe fizera há alguns anos quando foi diagnosticada leucemia. Era algo terrível, que lhe gelava a espinha quando vinha à mente: sim, eutanásia, foi o que Rubens lhe pedira. Não queria sofrer nem saber que os outros sofriam à toa. Não havia cura, o que ficaria depois provado com os testes de compatibilidade de medula óssea. Nenhum dos três filhos nem sua irmã poderiam-lhe salvar a vida. Rubens também fora sempre cético e nenhuma questão moral o incomodava, apenas a legal, forense, mas esta já havia sido cuidada. O melhor advogado de todos já havia elaborado uma declaração que supostamente era amparada por um direito constitucional inalienável: o direito à vida. Se é um direito, não pode ser uma obrigação. Maria Clara nem queria pensar nisso, rezou pelos resultados dos testes, mas em vão.
Segundos antes de tocar a sineta de Valdirene, sua comensal, atingiu-lhe em cheio a amargura de perceber que depois de vinte e cinco anos com aquela criatura amável, sempre tão carinhoso e atencioso, bonachão e bem humorado ? ele gostava de apresentá-la como ”meu espólio de guerra de uma batalha de confetes”. Sempre tão fiel, fidelíssimo, nunca se atrasara ou chegara bêbado, era um homem doméstico, ficava sempre com seus livros e sua caixa de ferramentas. E hoje o melhor que ela, que tantas já havia aprontado em sua crise dos trinta e na dos quarenta também, podia fazer por seu marido era assassiná-lo.
Atendeu à porta um rosto sonolento de um moleque rechonchudo cuja fisionomia despertou em Maria Clara um desconforto difícil de localizar. Ela em sua perturbação não se apercebera de que eram duas e meia da manhã. O gordinho conseguiu murmurar que sua mãe já vinha, estava se “vistino”. Valdirene apareceu pouco depois assustada, pensando que seu patrão partira para uma melhor, mas foi tranqüilizada por Clara, que, embrulhada num edredom branco e pálida como a lua, parecia um fantasma. Valdirene atiçou a lenha da lareira, pôs a água no fogo a pedido de sua visita intempestiva. Logo entendeu que sua ama só queria um ombro amigo, e era-lhe um prazer ajudar. Bons minutos de conversa melhoraram a disposição de Maria Clara. Val convenceu-lhe de que o ?seo? Rubens ia melhorar ? mesmo que ela soubesse a chaga incurável ? e que tudo ia melhorar com os meninos voltando ? vieram depois que o pai piorou, chegavam no dia seguinte. Com esse conforto e uma boa camomila, Clara pôde enfim dormir.
Titulo: O Drama Minchetti
Autor: Leonardo Augusto
Gênero: Conto
Data de publicação: 3 de março de 2004
Resumo: Primeira Parte
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