Conto por Leonardo Augusto
16 de março de 2004
No início da noite, os médicos permitiram uma última visita ao leito do enfermo, que já se sentava na cama e conversava com dificuldade. Rubens olhava os filhos com um ar abatido e se ressentia por não os poder ver formados e encaminhados, ainda que já fossem jovens adultos, e embora não fosse culpa sua deixá-los. Repetiu os conselhos de sempre e foi interrompido por ambos, que alegavam que ele não deveria se esforçar. Respirou fundo com muita dor e pediu para ter um momento a sós com sua mulher. Chorou ao ver Maíra lhe acenar da porta já semicerrada, temia não mais vê-la. Nunca mais.
Maria Clara se sentou à beira da cama, devastada mas feliz por aquele momento de intimidade. Beijou a fronte de Rubens e correu a mão por sua careca lisa onde outrora fulguravam lindos cabelos castanho-claros, e sorriu amargamente. Nem se lembrava há quanto tempo não tinha um momento a sós com Rubens. Ela não tinha o que dizer, e fitava-o calada quando ele balbuciou: “Esqueça… o que eu pedi”. Sua face se iluminou com o brilho de um alívio imediato, ao menos da angústia específica que a idéia de eutanásia lhe despertava. Rubens emudeceu de novo, como que se recompondo antes de um esforço enorme que devia fazer, evitou os olhos de Clara algum tempo antes de encará-la e entornar de uma vez o espesso e fétido líquido que turvava sua consciência.
“Lucas é meu filho” foi a frase simples e direta que levou nove anos para proferir. Maria Clara desfaleceu de súbito e voltou a si com o impacto contra o chão frio do CTI. Tentava se agarrar a algum dos sentimentos que turbilhonavam em sua cabeça. O primeiro que quis se fixar foi o da decepção. Viu nitidamente uma cena, na tela de sua mente, de um castelo de cartas ruindo em câmera lenta. Seu marido fidelíssimo então havia se rebaixado a se deitar com uma serviçal, a mesma que lhe acolhera na véspera, Valdirene. Depois veio naturalmente a dor do orgulho ferido: que mulher se sente bem ao saber que não era suficiente para seu homem? A raiva veio logo em seguida e uma olhada de soslaio para Rubens e toda a tralha que o mantinha lhe lembrou o pedido absurdo dele, e teve vontade de executá-lo mesmo depois de ele voltar atrás. O que lhe trouxe uma culpa atroz e um novo abalo sísmico nervoso que quase a volta a derrubar. Respirou e caminhou em círculos, indiferente à agonia muda de seu cônjuge moribundo.
Tomou uma cadeira e repousou um pouco antes de escolher a melhor emoção que tinha à mão e proferir numa voz meio resignada, meio ríspida e meio cúmplice, mas muito sincera:
“Então ainda há esperança…”
Titulo: O Drama Minchetti
Autor: Leonardo Augusto
Gênero: Conto
Data de publicação: 16 de março de 2004
Resumo: Parte final
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Enfim a parte final (mas não o fim) dum verdadeiro “drama” no sentido moderno da palavra. “Então ainda há esperança…”