Conto por Mário Neto
23 de outubro de 2003
Não era dos mais inteligentes. Não era mas também nem ligava. Queria fazer seu trabalho bem feito, ter sua casa própria e ser feliz. Não queria ter os melhores empregos, bastava um que desse conta das suas necessidades. A casa também queria simples, desde que houvesse lugar pra todos da família.
Sua esposa não era das mais bonitas. Não tinha um corpo escultural ou um rosto angelical. Não se conheceram por acaso ou através de encontros inesperados, eram apenas vizinhos. O amor que sentiam também não era platônico, nem arrebatador e muito menos pra toda a vida, mas quebrava o galho. Já o sexo não era de todo ruim, mas estava bem distante das explosões e fogos de artifício de que ouvia sempre falar. Não traiu nem foi traído.
Os amigos não eram nem do peito nem da onça. Nem bons, nem maus. Jogavam conversa fora nos botecos em fins de semana. Não era elogiado, mas também não era desrespeitado.
Com o tempo teve filhos. Não eram bonitos, assim como o pai. Começaram a andar na idade que teriam que andar, deixaram de mamar quando teriam que deixar, entraram na escola quando teriam que entrar. Suas notas não eram das melhores. Não eram bons com música, dança, letras ou números. Não fizeram sucesso como dupla sertaneja ou se tornaram jogadores de futebol, atores, executivos ou promissores cientistas. Quando cresceram, a relação com o pai não era das melhores.
Envelheceu. Não era dos mais ativos, não sentia vontade de trabalhar ou viajar. Sua saúde não era de ferro e seus filhos também não se preocupavam. Não fazia exames de colesterol ou dietas de redução de gordura. Ficou viúvo e preferiu continuar assim.
Morreu. Seu caixão não era dos mais sofisticados. Poucas pessoas foram ao seu enterro e o túmulo não tinha enfeites e era raramente visitado. Esqueceram do nome do homem na lápide. Na verdade não sabiam o nome do homem. Esqueceram do homem.
Mário de Souza Neto não é executivo de sucesso, não tem sequer uma empresa e é apenas um reles zagueiro de peladas.
Titulo: O esquecido
Autor: Mário Neto
Gênero: Conto
Data de publicação: 23 de outubro de 2003
Resumo: Não era dos mais inteligentes. Não era mas também nem ligava.
Estupendo, Mário! Texto pra figurar entre os melhores do acervo. Sem grandes reflexões (a leitura de cada um fica por conta disso), seu texto não afirma nem nega, mas sugere, no desvio de tantas negações, a simplicidade esquecida (se não a mediocridade?!) da vida de cada um de nós. Gostei muito.
Vida anônima, Mário. Assim como bilhões. Só não podemos esquecer que nenhuma canção é maior que uma vida. Garanto que este homem que vc descreveu tb deu boas risadas, sentiu tristeza, chorou e continuou. São momentos que estão escondidos atrás das suas ótimas linhas. E ainda bem que estão lá.
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E será que pode-se esperar muito mais da vida do que isto? Eu acho que eu não. Excelente, Mário!