O filho da mãe

Conto por Mário Neto
14 de agosto de 2003

Foram assistir o jogo na casa do Marquito. Estavam lá o Nélio, o Moreira e o Afonso, e mais ninguém. "Pelo amor de Deus, nada de mulheres", havia implorado o Marquito. Não tinha boas lembranças do último jogo, quando a esposa do Nélio quis perguntar o que estava acontecendo bem no momento em que o Palmeiras havia tomado um gol.

- Santa paciência, né, Fátima?

- Ué, não foi gol? Gol não é bom?

- Ai Jesus!

Prepararam-se como puderam. O congelador repleto de cerveja. Tiraram inclusive o frango congelado para caber mais. "Tudo pelo Palestra, pela Máquina Verde, pelo Verdão, pelo Porco", dizia o Afonso com os olhos de quem já havia tomado umas duas latinhas. "Duas latinhas pra mim não é nada".

Escolheram a casa do Marquito porque tinha uma TV daquelas grandes. O som também era de dar inveja, e antes mesmo de começar o jogo deixaram o volume bem alto para que pudessem se sentir no meio da torcida. Assim ouviram os gritos e uivos, ao zunido ensurdecedor que vinha da arquibancada. Encheram o peito de nervosismo e emoção, como se estivessem assistindo ao jogo dentro do estádio, lá embaralhados com o povo.

"Calma, gente, alguém tem que perder", gritou o Moreira preocupado. O Moreira era daquele tipo de torcedor mais calmo e reflexivo. Daquele que assiste a um jogo de futebol como se estivesse assistindo a uma partida de xadrez, analisando cada lance, querendo ver com calma o replay de cada jogada, pedindo silêncio para ouvir os comentaristas. Seu modo contido chegava a incomodar o Marquito, o mais barulhento.

"Torcer não combina com calma, ô Moreira! Tu é muito frio!", respondeu o Marquito. "Aqui em casa o negócio é fazer barulho, é torcer de forma decente", e aumentou o volume da TV. "E sem essa de calma. Se é para perder, vamos perder torcendo, pô!". E o Moreira ficou em silêncio, como sempre ficava em todo e qualquer jogo.

***

Logo a partida começou e os quatro se postaram em volta da TV, cada um no seu estilo. O Moreira, de tão tranqüilo, estava sentado com as costas coladas no encosto do sofá. "Como é que o Moreira consegue ficar assim?", indagava o Afonso em sua sexta latinha. O Afonso, que era tímido e só soltava seu grito de torcedor fanático após muitos goles de cerveja, estava sentado praticamente na frente da TV, para contornar a falta do óculos que havia esquecido.

- Vai, vai… uh!

E o chute do atacante palestrino passou raspando o travessão.

O Nélio, que era supersticioso, fazia figa em todos os dedos da mão e ficava pensando que seu principal amuleto, a esposa, não estava ali para lhe ajudar. A insistência do Marquito fora tamanha que não teve outra opção que não deixá-la em casa. "Ah… se o Palmeiras perde!" E olhava para o Marquito, que em pé, os cabelos subindo e descendo com seus pulos, gritava e bradava palavras ininteligíveis e palavrões.

- Maldito jogo truncado! Maldito Corínthians!

E de fato o jogo estava truncado. A bola não saía do meio de campo, e com direito a caneladas, faltas por trás e passadinhas de mão na cabeça do adversário para aumentar a irritação. "O Palmeiras não está usando o lado direito", argumentava o Moreira com base em suas observações atentas do jogo.

- Usa o lado direito, pô!

E o meia tocou para o lateral direto, que se enroscou com a bola e a deixou sair.

"Essas suas dicas infalíveis, hein, Moreira?", observou Marquito com certo deboche. E o Moreira, pela primeira vez, sentiu um desejo instantâneo e imediato de ver uma vitória do Corínthians. Mas não demorou para se arrepender e dar três batidas na mesa, pensando no sacrilégio que havia cometido.

***

O primeiro tempo acabou com o placar zerado. E como o primeiro tempo, o segundo também foi feio. Os dois técnicos, conservadores e medrosos, armaram violentas retrancas usando todas as armas: cadeados, cofres e volantes. Volantes grandes, fortes e pegadores.

"Jogo tático", comentava o Moreira com panca de intelectual. "Jogo estudado. Quem der uma bobeirinha que seja, perde".

"Tudo indica que o Palmeiras vai perder mesmo", pensava intranqüilo o Nélio. E indagou-se: "O que será que a Fátima está fazendo agora?"

O Afonso, com a boca mole, perguntava-se: "Onde tem mais cerveja?" Tudo o que passava em sua mente era que se a vitória fosse do Palmeiras, ele se daria de presente ainda mais cerveja. "Treze latinhas pra mim não é nada".

E o Marquito, que continuava de pé com suas calças largas, xingava: "Que merda de jogo!"

***

Como todo jogo truncado e disputado, como toda partida de decisão de campeonato, não poderia faltar um lance polêmico. E não bastasse a polêmica natural que gira em torno de um lance duvidoso, ele tinha que ocorrer bem no finalzinho, nos últimos minutos de acréscimo do segundo tempo. Tudo para complicar a vida já escabrosa de um juiz de futebol.

"Não foi pênalti! Não foi pênalti!", gritava o Marquito desesperado, como se estivesse sendo assaltado em plena luz do dia, num sol escaldante e em frente a uma delegacia de polícia. "Pelo amor de Deus, foi fora da área, pô!"

O juiz, que devia estar com o coração a mil, acompanhou o lance de perto, mas com a vista atrapalhada por outro jogador que também disputava a jogada. Com a vista bloqueada pelo jogador, não pôde acompanhar o drible desde seu início. Assim, após o jogador do Corínthians ir ao chão na entrada da área e a torcida entrar em rebuliço, o árbitro parou o lance e, na dúvida, marcou o que lhe parecia mais óbvio: que a falta tivesse acontecido dentro da área.

"É um canalha, é um canalha!", gritava o Marquito. "É mesmo um belo filho da mãe!"

O Nélio, alisando os cabelos com ar preocupado, pensava que o resultado não podia ser outro. "Sem a Fátima, querem o que?". E o Afonso, completamente bêbado, estava estirado no chão e dormia, sem nem ouvir o que se passava.

A TV mostrou o lance duas ou três vezes, por três câmeras diferentes. Em todas ficou claro quão fora da área a falta havia sido. Mostrou depois o estádio vindo abaixo. Do lado esquerdo, atrás do gol, a torcida do Corínthians comemorava confiante pela chance do gol. Nas laterais, os torcedores do Palmeiras elogiavam o juiz, sua mãe e o resto da família.

O Moreira apenas fez com a cabeça um sinal negativo enquanto via o lance pela TV. Suspirou e rezou para que o Corinthians errasse o pênalti.

***

Depois de toda a algazarra, depois de ter expulsado dois jogadores do Palmeiras e de ter apartado a briga violenta que se deu no campo, o juiz autorizou a batida do pênalti. E o Corínthians fez seu gol.

Logo que o jogo recomeçou o árbitro deu o embate por encerrado. Imediatamente foi cercado por repórteres e seguranças. Os jogares do Palmeiras queriam pegá-lo de qualquer jeito e também, assim como a torcida, gritavam "filho da mãe". O juiz, após chuvas de pedras, canivetes e palavras obscenas, conseguiu entrar no vestiário, onde ficou até a manhã do dia seguinte.

***

Já conformado, o Moreira, encostado no sofá e com os olhos ligeiramente alterados pela derrota, suspirou:

- É… assim é o futebol.

O Nélio olhou para ele estranhando:

- Mas foi fora da área? Você não viu, não?

O Moreira respirou fundo e argüiu:

- Essa é a graça do futebol. O juiz é parte do jogo, como os jogadores.

O Nélio fez cara de quem não estava entendendo. Pediu explicação.

- Oras, ele também erra, também acerta, também pode definir o resultado. É o que faz o futebol ser imprevisível.

O Marquito, ainda alterado com a derrota e com o erro do juiz, não pôde deixar de entrar na discussão:

- Imprevisível e injusto, você quis dizer.

O Nélio concordou com a cabeça. O Moreira também concordou:

- Mas é o preço a se pagar por termos um homem aplicando regras.

Um tanto nervoso, o Marquito não pôde deixar de retrucar:

- Não vejo qualquer sentido nisso. Se é possível reduzir a chance de que novos erros sejam cometidos, por que continuar insistindo neles?

E concluiu:

- A emoção deveria estar no jogo, no toque de bola, no drible dos jogadores, não no juiz.

Nesse momento o Nélio fez um "xi" e sentiu que o clima estava esquentando. Decidiu deixar um último comentário, antes de ir para sua casa com a bandeirola do Palmeiras enrolada debaixo do braço:

- Eu quero ver minha mulher.

E foi embora.

Quando bateu a porta deixou para trás o silêncio, que só foi desaparecer quando a TV mostrou a festa da torcida corintiana e dos fogos de artifício que pipocavam no céu em explosões de provocação.

Moreira, vendo a condição lamentável do Afonso, que estava esparramado no chão gritando "viva o Palestra", retomou a consciência e sorriu, balançando a cabeça.

- É só futebol.

Olhou para o Marquito, que estava sentado com a cabeça entre as mãos e o joelho. Foi até ele para consolá-lo:

- O problema, meu amigo, é que perdemos. E leite derramado não se chora.

E choraram a derrota do alviverde.

Mário de Souza Neto é palmeirense e faz tempo que não chora leite derramado.


Titulo: O filho da mãe

Autor: Mário Neto

Gênero: Conto

Data de publicação: 14 de agosto de 2003

Resumo:

Palmeiras e Corínthians: o que o futebol não faz com os homens.

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3 Comentários

  1. Herbie disse:

    Muito Legal!!!Deu até vontade de assistir um joguinho. Regado a muita cerveja, é claro!

  2. PH disse:

    Golaço Mário! ótimas tiradas e sensacional conclusão. é o futebol, não tem jeito. se não fosse tão injusto, imprevisível e sujeito à inúmeras variáveis (incluíndo o juiz, os jogadores, a torcida e a cerveja), não seria tão arrebatador assim…

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Excelente o conto, Mário. Texto leve e fluente, personagens e situações corriqueiras, ambos particularizados com perspicácia em seu texto. Parabéns.

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Um (eterno) aprendiz.

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