Conto por Claudia Lins
27 de fevereiro de 2004
O ídolo
Ninguém entendeu quando ao final do filme Beatriz permaneceu por incontáveis minutos petrificada diante da telona. “Lágrimas de uma saudade inexplicável”, teria traduzido a legenda, se aquela cena congelada fosse imagem de alguma foto, dessas tipo flagrantes, impressas em reportagens de comportamento.
Mesmo assim permaneceu paralisada. Sozinha na cadeira do cinema contemplando as letras miúdas dos créditos que desapareciam lentamente enquanto as luzes se acendiam e a multidão ia batendo em retirada.
Procurou um cigarro no fundo da bolsa. Seu “amuleto” para os momentos de ansiedade ou topor. Sabia que era proibido fumar ali. Também não pretendia acendê-lo. Trazia-o consigo fazia tanto tempo, o filtro já começando a esfarelar indicando que o “amuleto” precisava ser trocado por outro. Faria isso mais tarde. Por hora queria sentir o contato do cigarro entre os dedos. Uma espécie de “inibidor de estresse” até que toda aquela adrenalina baixasse.
Rever o ídolo da juventude depois de tanto tempo causou um impacto e tanto. Um misto de felicidade e outras boas sensações que ainda não sabia descrever. Nos últimos 15 anos, suas vidas tinham seguido rumos tão diferentes… E não havia nada de novo em deparar-se com ele do outro lado da imensa tela. Beatriz sempre soube que o caminho dele era de sucesso. Acompanhava sua trajetória pelos jornais, o assistiu em pequenas participações na TV. Seu talento era inconfundível. E o fato de ter explodido como protagonista de um longa-metragem que era praticamente uma obra prima só reforçava suas convicções a respeito do jovem ator.
Não era por ele aquelas lágrimas, era de si mesma que sentia saudades. De um tempo de espontaneidade e sonhos que a vida de funcionária pública concursada lhe roubara.
Lembrando o dia sufocante que tivera, Beatriz reviu a pilha de contas para pagar, recordou o limite do cartão de crédito sempre estourado e as brigas com o ex-marido para aumentar a pensão das meninas. Uma vida bastante diferente da que provavelmente levava o amigo ator de sucesso.
Por isso sentia-se fisgada por uma onda de nostalgia, apesar do filme dele ser uma comédia rasgada que levou multidões ao delírio.
- A senhora não pode ficar aqui, dona! Vamos fechar daqui a pouco.
O lanterninha parecia dedicido a expulsá-la da sala de projeção. Também pudera, já passavam das 23h e aquela era a última sessão da noite.
- Saio já, moço! Estou terminando de passar minha vida a limpo.
- Mas o meu ônibus saí a meia noite e é o último, depois só às 2h da madrugada. Não dá pra senhora passar a vida a limpo a caminho de casa?
E de que adiantaria discutir com o funcionário do cinema, que certamente estava exausto e não via a hora de chegar em casa depois de um dia cheio de trabalho?
A caminho do estacionamento ainda pensava na Beatriz de 20 anos. Entregue aos ensaios que varavam a noite, concentrada nas leituras de texto de Maria Clara Machado…
E como se uma porta ou atalho para conexões cerebrais tivesse sido aberta, aspirou o ar da noite e sentiu o cheiro do tablado de madeira pisoteado por pés descalços. Ouviu o som da respiração da platéia e pode lembrar de rostos de amigos saídos das oficinas de formação de atores. Reviu gente que nem mesmo sabia por onde andava…
Num estalo, como se o reencontro no cinema assim o permitisse, reviu o jovem ator convidando-a para formar uma dupla no palco. Por alguns segundos sentiu a ansiedade daquela espera, quando grupos e duplas se olhavam e se escolhiam. Um sorriso leve e lá estava ele.
Existia uma sintonia velada entre os dois. Fora do palco quase não se falavam. Sob o tablado, pareciam feitos para contracenar. E ele nunca soube o quanto Beatriz o admirava. Ele e seus cabelos de anjo, a barba displicente, a pele de mármore, os olhos tão verdes… A respiração ofegante nos exercícios de dinâmica, o perfume agradável que misturava tons cítricos a notas levemente amadeiradas…
Não se atreveria apaixonar-se pelo jovem ídolo. “Zona Sul e subúrbio raramente se misturam”, bem sabia. Por isso transformou a sintonia em admiração. E o tempo, que já se revelava impiedoso com Beatriz, parecia não ter passado para ele.
De repente lembrou-se do vaticínio da mãe de uma amiga de faculdade, médium-vidente e taróloga. “- Você tem dois caminhos a seguir. E um deles te conduzirá a verdadeira vocação”. Sabia agora ter feito a escolha errada, mas ainda assim, era seu caminho.
Em casa beijou as filhas velando-lhes o sono. E desejou intimamente que elas fizessem a escolha certa. Mais tarde adormeceu um sono leve, como se flutuasse diante de uma platéia em êxtase, conduzida no palco pelos braços de um jovem ator.
Titulo: O ídolo
Autor: Claudia Lins
Gênero: Conto
Data de publicação: 27 de fevereiro de 2004
Resumo: Diante da telona do cinema, passado e presente se confundem num piscar de olhos …
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Saudades de mim mesma … hoje eu consegui ler a tradução em sua frase. Belo conto!