Conto por Alexandre Piccolo
27 de abril de 2004
Dizem que sorte no amor, azar no jogo. Havia acabado de ganhar uma grana numa mesa de poker e tinha fudido uma virgenzinha três dias atrás. Para mim, alguma coisa andava errada no mundo. E de todas as armadilhas que a vida podia aprontar, sorte era a última com que eu podia contar.
Ninguém gostou da minha saída da mesa. No final da rodada estavam era mordendo a lembrança da chegada, eu e o Tião trazendo cachaça, limão e preparando “caipirinha” pra pirar com o terceiro baseado que cirulava. Falaram umas bobeiras, trocaram a grana e jogo na mesa. Sempre tinha um otário que dava carta errado, fazia cara de bunda ou mostrava sem querer um sete ou um oito no fundo do baralho, preocupado pra ver se ninguém tinha sacado. O Chapéu fazia cara de quem não via nada, pingava e se aquietava, louco pra arrancar o toco de alguém. Dava pra perceber, o cuzão babando e chamando ovelhinhas: “vou só de um barão”, soltava cinqüenta como quem não quer nada e olhos no teto, cara de sério. Palhaço. Pra cima de mim não, eu sei quando tem carta.
Desgraça, isso era jogo prum filho da puta como eu mesmo. Tinha saído noite adentro, sendento por jogo e sacanagem, ansioso pela velha novidade. Uma tal de Érica apareceu. Droga, troquei dama por dama. Desgraçado. Só preciso esquecer essa bosta. Um gole. Grants desgraçado, vai aplacar minha cabeça, quero ver só a grana na saída dessa bosta…
A rodada toda só falaram em puta, em comprar mais bebida, em fumar um. Alguém apertava o quinto baseado, todo mundo já alucinado, um contava uma piada nova que o outro tinha ouvido e alguém derramava bebida no forro da mesa. Era o Tião que embaralhava. O Marcelo cortou um queijo curado, jogou um azeite com ervas finas por cima e pôs gelo no Baron de Lantier quente que encontrou na adega do pai ou do irmão, não sei direito. Sei que bebi e comi como um porco, só faltou peidar, mas era melhor evitar, era abuso demais. Rodada vai e vem e saíam as cartas. Mais cartas. Se perseguisse um ás de espada ou uma dama de copas era batata, fugiam, deslizavam, corriam de mim. Se as desdenhasse, vinham como formiga no açúcar puxar meu saco. E eu nem aí pra isso. Dane-se a fortuna do baralho. Era só fazer uma cara de mineiro e pronto: vinham moedas que se juntavam como estrelas, delineando curva assimétricas por intersecção de tangentes perfeitas, aos grupos uniformes de cinco circunferências, por cujos centros se delineava um pentágono regular. Por que pensava aquilo não sei. Sei que vinham cartas, praticava o poker burocático - como alguém bem disse - todos riam, e em boas vezes virava um rei para completar o par. De ouro! Quando lembrava da foda, um espetáculo, que vida…
Pior é que não tinha nada que ter ido, oficialmente não sei por quê saí de casa essa noite. Era sempre a mesma coisa, bebida, cartas, papo-furado, futebol na tv, já tinha me enchido daquilo. E no fundo era um alívio sair de casa, arejar o inerme palerma, lendo o dia todo, procurando a esmo o que fazer, fingindo se empregar em algo útil. Debalde. Trancafiava-me em casa horas, dias. Nem o lixo punha pra fora. Pia de merda, vida de merda. A televisão deixara de ser companhia, era já agressora, me xingava a solidão e a ignorância. Por entre tantos nadas, jogar baralho era bom, restaurava as forças inúteis da estatística e da probabilidade, do convívio social e do sangue pulsante que forçava estagnar. Uma parada cardíaca, fulminante, era isso que merecia. Covardia pura, faltava me peito, culhões. Fugia do telefone, dos recados, até dos emails inesperados e dos súbitos encontros nestes tais comunicadores pela internet. Ridículo, digitar a pergunta na tela e aguardar um sorteio marcado, embaralhado, exatamente como uma carta, duas cartas, três cartas numa nova mão, uma altenativa única das múltiplas escolhas instantâneas. Sete de paus. Ridículo, tô fora.
Saí do jogo animado, feliz. Tinha já esquecido as apurrinhações. Putaria? Não, fora de mim. Não corria atrás de mais ninguém, nem mesmo de mim, durmo até meio dia e foda-se. Era o que diria a qualquer um, vocês todos que se fodam. Em minha vida mandava eu, decidi. Controle do alarme na mão, plip-plip, chave na ignição, dei partida. Rodeei a esquina para manobrar e segui devagar na saída do condomínio. Um toque na luz alta, o porteiro abria o portão. Parti. Pé no acelerador, uma descida esburacada, preta desgraçada, piranha, uma descida. A ponte ao final, sempre perigosa, próxima do cruzamento onde nada se vê. Me perdi. Parti meu carro a 77km/h, quando um louco ultrapassou correndo a pista contrária. Contrário a mim. Tempo não houve, vazei o pára-brisa, voou caco no chão. Era o chão com sangue e vidro que, ironicamente, não queria encontrar naquela noite.
Titulo: O suicida que não queria se matar
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 27 de abril de 2004
Resumo: Não corria atrás de mais ninguém, nem mesmo de mim…
Terrível, impressionante… Acho que foi boa a surpresa do texto tão bem preparado…
Oi Alê,nossa que emoção… Amei o texto. Aproveito pra desejar: felizaniversário… Bjos, Marilda
cralho alê que queima filme, hein? vai ter polícia na nossa porta a qualquer momento… ficou massa. abraço!
Curioso como o texto nos remete ao cotidiano e à solidão apesar da presença de interação social. Ótima mostra de como a vida é algumas vezes hoje em dia. Parabéns!
estilão diferente. sujo e ordinário. bom exercício!
Ótimo texto. Uma riqueza de detalhes e de contestações dificil de se encontrar hoje em dia. Linguagem chula, da rua, que bate fundo naquele que lê, transportando o mesmo pra dentro da ação. Vida pura, pulsante. Ou não, como o final da história nos faz perceber. Parabéns.
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Cara! Me vi numa noite de poker?!Qualquer semelhança seria também mera coincidência?!Abraço