Conto por Fabiana Tonin
11 de outubro de 2005
Numa bela tarde do século XXI, vamos encontrar Victor Hugo estendido em seu quarto, num bairro nobre de uma cidade do interior do estado. Ele está entediado (como todo bom garoto da sua idade), pois tem pai desembargador, mãe médica, tios bem-colocados na sociedade, nenhum irmão, um pastor alemão no quintal, um quarto confortável e cheio de tudo, e um cérebro, digamos, pouco ocupado. O adágio popular vai dizer que cabeça vazia é oficina do diabo, mas, para Victor Hugo, viver num mundo de shopping, cinema, clube, futebol (eventual, claro), internet, escola particular, comida boa, roupas de grife é, decididamente, insuportável (afinal, ele é um ser humano, como todo menino de sua idade e, por isso, merece mais). Enfim, se retornarmos ao desesperador quadro, veremos o rapaz suspirando (os pés na cama, de tênis), olhando entediado para uma embalagem de batata-frita que se sobressai à bagunça do quarto (detalhe: há na embalagem ainda duas ou três batatinhas). Mas o mundo é cruel e Victor Hugo decide tomar uma atitude radical: conectar-se à internet, ao orkut, em especial e ser, finalmente, responsável por algo.
Assim, num esforço quase sobre-humano, ele liga o computador e acessa o site. Mas isso é pouco. Que mais fazer? Percorrendo seu profile, lembra-se que pertence a algumas comunidades, mas, nenhuma realmente útil, nenhuma realmente importante. E daí lhe vem o lampejo genial: criar uma comunidade. Mas, precisa ser algo inteligente, senão, como ficará conhecido no colégio e no clube? Tudo bem que já haja a fama de vagabundo oficial, cínico-mor entre os colegas ? especialista de escarnecer com tudo e todos, tendo como preferência as autoridades: mãe, pai, professores. Entretanto, era preciso revolucionar. Primeiramente, tinha que ser uma comunidade para odiar ? qual a graça de falar bem ou elogiar qualquer um??? Pensou em várias: Eu odeio meu nome; Eu odeio minha vida de playboy; mas , então, descobriu, várias já existiam, outras eram absolutamente sem graça, sem noção . E , eureka (não exatamente com essas palavras), ele descobriu. Era genial! “Eu odeio as bolhinhas do guaraná Jolly no copo de requeijão com estampa de He-Man que meu tio deu no Natal”. Incrível!!!Finalmente, mostrava ao mundo um quinhão de sua genialidade (observação: ele não pensou nesses termos, “quinhão” para ele deveria parecer algo como pinhão…).
Enfim, responsável pela mais nova (e absolutamente inútil) comunidade do orkut, Victor Hugo se pôs a convidar os amigos internautas (que em seu profile já passavam dos novecentos ? o que era um problema grave ? logo precisaria abrir outra conta…) para integrarem sua comunidade e discutirem questões inquietantes como: por que as bolhinhas do guaraná irritavam mais que a da coca-cola; por que o copo de requeijão favorecia a irritação; se outras pessoas se irritavam com outras bolhinhas. Enfim, em menos de uma semana, a comunidade e a vida de nosso jovem se encheram: já eram mais de 150 adesões à comunidade e questões incríveis borbulhavam (com o perdão do trocadilho) ? por que tios sempre dão copos de presente ou outros presentes inúteis? Por que um copo do He-Man, se isso já era out? Que outros copos as pessoas usavam para tomar guaraná? Victor Hugo se sentiu, enfim, grandioso, o centro das atenções e uma grande cabeça pensante.
E tudo ia bem, em uma semana, as questões se multiplicavam, a comunidade crescia, até que, certo dia, Victor Hugo recebeu um recado em seu scrapbook: sua comunidade havia sido clonada. Alguém mais esperto pusera na rede a comunidade: “Eu odeio bolhinhas de tônica no copo de plástico da Mônica que ganhei quando tinha um ano”. Ele ficou arrasado.Como podia alguém ousar copiar tão descaradamente sua idéia? Convencido a acabar com a concorrência desleal, Victor Hugo tirou os pés da cama, pô-los em cima do monte de roupa suja de seu quarto e se pôs a descobrir a identidade do farsante. Era Felipe Augusto, um cara do terceiro ano do colégio. Pudera, era um trouxa, um idiota, aquele grandalhão metido a pegar as menininhas fresquinhas do primeiro colegial. Victor Hugo, então, convocou todos seus amigos via net e decide acabar com a glória de Felipe Augusto. Ajudado por vários amigos hackers, ele bombardeia o computador, a caixa de e-mail do falsário com vírus e programas para detonar tudo. Além é claro, de falsificar a senha do inimigo, entrar em seu orkut, desativar a comunidade pirata que copiara descaradamente a sua. Não contente, cria outra em nome do babaca: “Sou Felipe Augusto, logo, sou idiota”.
Enfim, aliviado, com a certeza de sua honra lavada, Victor Hugo volta à comunidade e fica feliz ao perceber que muitos já notaram a farsa e a repudiaram, isso é que era fidelidade. Então, cansado depois de responder ao tópico do fórum que questionava se as bolhinhas do guaraná duravam mais no copo de requeijão que no copo de alumínio(coisa meio antiquada, mas interessante), Victor Hugo decide sair, tomar um bom banho e ir buscar a namorada (que também tinha meio grama de cérebro, como ele, e que naquele dia queria saber por que , afinal, o guaraná fazia bolhinhas, pois ainda não tinha entendido muitos dos tópicos do fórum). Assim, depois de muito fazer, de tomar seu banho, Victor Hugo sai, mundo afora, desfilando toda inteligência, beleza, sutileza e consciência política e humana que sua vida miserável, pela força, pela luta, o fizera desenvolver.Agora, tinha uma razão para viver, suas realizações alimentavam sua vontade de fazer mais nada no dia seguinte e, quem sabe, por muito, muito tempo…
Titulo: O último dia de um desocupado
Autor: Fabiana Tonin
Gênero: Conto
Data de publicação: 11 de outubro de 2005
Resumo: A triste jornada de mais um incrível desocupado…
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Fabi, um conto bastante atual, une a amizade fora de casa(escola) com o mundo dos amigos virtuais(orkut) gostei muito do texto, vou ler os outros também.
Sabe quem está falando? Seu aluno Murilo do 2º B (o Anjo da peça Juízo) hehehe…