Ota 1×0 Tico e Teco.

Conto por Tiago Russel
5 de abril de 2003

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Ilustração: Taise Kodama

Algumas pessoas possuem apenas dois neurônios: o Tico e o Teco. Bom, além destes dois, descobri que também tenho o Ota. Mesmo assim, não me sinto uma pessoa mais evoluída. Ao contrário, é mais como se ele estivesse ali para recriar os Três Patetas.

De qualquer maneira, estávamos nós quatro ? O Corpo, o Tico, o Teco e o Ota ? num dilema: o que fazer no sábado a noite.

O Corpo geralmente é o mais calado. Praticamente mudo, empacado. Quando não quer fazer alguma coisa, simplesmente se nega. Haja a discussão que houver. Já os outros três não calam a boca um só segundo. Em especial o Teco, sempre travado.

Vocês eu não sei, mas eu voto na rave.” Fala o Ota, tentando assumir a liderança.

Mais uma rave”, exclama o Tico. “Não sei não, todas aquelas luzes, todas aquelas drogas…”

Drogas… bommmmm.”

Calma Teco, é só falar em drogas que tu já fica todo excitado.” Ota completa com ar de desdém. “Vamos lá só pra curtir um som e relaxar. E, de mais a mais, O Corpo nem vai precisar gastar dinheiro. Vai ter água liberada…”

Rave com água liberada? E eu não posso ficar excitado?” Grita o Teco.

Pára de berrar, seu histérico,” recrimina o Tico. “Não vê que nesta cabeça vazia dá até eco? Deste jeito, a rave vai ser aqui dentro… e eu tô querendo conhecer umas minas.”

Tu sempre quer conhecer umas minas. A diferença é que antes a pessoa inibia, lembra Ota?”

Pronto, juntou a fome com a vontade de comer. De qualquer maneira, a gente tem que ir até lá para devolver os convites que deixaram com O Corpo.” Responde Ota, num lampejo de serenidade.

Neste meio tempo, o celular toca. O Corpo é convocado para uma concentração. Para alegria do Teco, muitas balinhas prometeram aparecer.

Onde é que O Corpo está nos levando?” Pergunta Ota.

Espero que tenha mulher”, exclama o Tico.

Depois que o imbecil do O Corpo decidiu parar de beber, o único bar que me interessa fica na esquina do Zelig…” Pensa alto Teco.

Teco, não viaja. Eu, O Corpo e o Tico não vamos mais voltar no John?s…”

Chegaram num bar, da categoria qualquer. Lá, Teco provoca mais uma de suas discussões.

"Olha só, eles estão falando em rave. Rave sem E não dá! Sem falar que um pouquinho de E faz bem para a libido, relaxa os músculos… fica mais fácil de conhecer umas meninas, não acha Tico?" Insinua ele, tentando manipular os outros como sempre.

"Meninas? Mulheres? Claro, acho sim… eu voto no E." Tico bota o pau na mesa e dá seu veredicto.

Parecem duas vovós tricotando!” Fala Ota. “Prestem atenção na conversa. Acabaram de dizer pro O Corpo que não é bem assim uma rave…”

Como não é bem assim uma rave? E a água liberada é pro caso de alguém esquecer de tomar banho?” Perguntam Tico e Teco em coro.

Fiquem quietos e escutem. Ó, O Corpo não gostou nada desta história… ele até já tá querendo ir embora…”

Que ir embora o quê!” Exclama irado o Teco. “Ninguém sai daqui sem as minhas balinhas. Nenhum O Corpo bundão vai estragar minha noite.”

E depois o otário sou eu!” Exclama Ota. “Vocês ficam aí gastando sinapses e nem percebem que O Corpo só saiu de casa para fugir de casa. Esqueceram aquele caso de morte por E? Pois é, ele não. E da pessoa, hein seus babacas!”

Tico, vamos nos unir. Nós dois juntos controlamos O Corpo.” Fala Teco com um brilho nos filamentos. “Me ajuda a amordaçar o Ota…”

Nisso, o celular toca mais uma vez. Do aparelho sai uma voz dizendo que a festa está vazia, mas que existem “três mulheres para cada homem”. Na verdade, era mais que uma voz: era o som de alguém implorando ajuda. As mulheres estavam indo embora porque só haviam mulheres. O Tico enlouqueceu. O Teco colaborou. Apenas o Ota sabia que aquilo não estava certo. Onde já se viu uma rave que não é bem uma rave? Não era isso que O Corpo queria. Mas ele tinha que entregar os convites, mesmo que na hora H decidisse não entrar na festa.

Chegaram. E, antes mesmo de sair do carro, O Corpo já estava decidido a não entrar. Mesmo assim, se aproximou da festa. Chegando lá, nem o Tico nem o Teco acharam motivos para convence-lo. Em cinco minutos entrou, entregou os convites e saiu, levando um par de neurônios desconsolados, e sem argumentos.

Mentir ele não mentiu”, consolava-se Teco. “Tinha mesmo três mulheres para cada homem…”

Claro seu imbecil… tinha meia dúzia de homens!” Zomba Tico, indignado.

Como se isso fosse fazer alguma diferença”, diz Ota. “Vocês não entendem que O Corpo não quer saber de nenhum de vocês hoje? Vão carpir! Deixem ele ir pra casa, passar num McDonalds qualquer e dormir.”

O quê? É 1h30 da manhã! Desde que o Idi te largou, tu ficou mais idiota ainda! Ele vai sair e curtir uma balinha nem que eu o obrigue!” Zangado, Teco faz ecoar novamente o imenso salão.

O Idi não me largou… tu que queimou ele.”

E como eu ia saber que aquele bichinha era alérgico a THC? Hã?”

Escuta só”, interrompe Tico. “Vai rolar uma rave particular de um tal de Seu Boneco…”

Nisso, o Teco dispara uma descarga elétrica mais parecida com um orgasmo.

Seu Boneco”, diz ele. “O cara é meu ídolo.“

Seu Boneco? Que coisa mais gay! Fala sério… o cara é traficante.” Fala Ota.

Ei, traficante não”, defende Teco. “Ele é uma pessoa que se preocupa com os níveis de glicose no sangue das pessoas. Pense nele como um doceiro…”

Tudo o que eu quero saber é se vai ter mulher nesta festa… e não me olha assim Teco! O Ota não vai querer ir, e eu sou teu único aliado.”

Não quero mesmo! Vocês dois são farinha do mesmo saco. Por mais que O Corpo queira curtir uma rave, eu duvido que ele… ei, o quê O Corpo está fazendo?”

Distraídos, nenhum deles notou que O Corpo estava conversando com um leão-de-chácara. E não acreditaram quando viram que estavam na porta de um festa fechada organizada por um traficante, ou doceiro, como Teco preferia chamar.

- Nome?

- Zeca.

Zeca? Quem é Zeca?”, pergunta Ota.

O que O Corpo está pensando, alguém pode me dizer?”, sussurrava Tico.

Balinhas, balinhas, 8½ ou Tio Patinhas… pulsa com a música O Corpo! Tum-ti-tum-ti-tum… balinhas…”, comemorava Teco.

A outra pessoa insiste: - Sobrenome?

O Corpo fica mudo. Imóvel como uma pedra. Tico, Teco e Ota prendem a respiração. Não têm a mínima idéia do que O Corpo está querendo fazer. Ota quebra o silêncio:

Pára! Onde diabos tu vai nos meter? Quer entrar aí, numa festa de traficante, correndo o risco de ser preso? Tá esquecendo a pessoa? Que tu espera encontrar ai dentro?”

Tico se ofende: - “Seu preconceituoso… a pessoa morreu, caput, finito. A noite é curta e a vara é grossa! Deixa o cara se divertir em paz. Entra aí O Corpo, vai que a mulherada resolve enlouquecer… tipo filme de festa na casa do Pablo Escobar… elas de topless… camiseta molhada… olelê.”

- “Baleiro!” exclama Teco tentando agir subliminarmente sem se dar conta que um neurônio já é naturalmente subliminar. “Fala ”Zeca Baleiro” e entra na festa. Tum-ti-tum-tum-ti-tum!”

- “Que Baleiro o quê!” Interrompe Ota. “Não escuta estes dois. Se os caras acharem que tu é outro trafi vão querer te apagar… e pior, como tu sabe que não é uma armadilha da polícia? E se atrás desta porta tiver um camburão? Lembra do McDonalds? Hoje é dia de promoção especial, Mc Alemanha… não é DJ, mas com certeza tu vai me agradecer amanhã.”

- “Pára seu Idiota!” Exclama Teco. “Tu vem sempre estragar o barato… mesmo com a pessoa tu deixou O Corpo na mão. Lembra O Corpo? Tudo o que ele te fez esquecer? As decisões erradas que ele te fez tomar. Não escuta ele e entra aí, vai! A música é boa, as pessoas interessantes… não, onde você vai? Seu bundão, não vira as costas pra mim agora!”

Silêncio no carro. Paro no McDonalds e não sei porque troquei o velho N°1 por um Mc Alemanha. Cansado, só me lembro de chegar em casa, tirar a roupa e dormir. Dormir, rezar e sonhar. Rezar e pedir pra não sonhar mais com pessoa nenhuma. Mas é inútil. Mais uma vez, o Ota venceu.


Titulo: Ota 1×0 Tico e Teco.

Autor: Tiago Russel

Gênero: Conto

Data de publicação: 5 de abril de 2003

Resumo:

3 neurônios e um corpo em uma noite que ninguém faz muita questão de lembrar.

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5 Comentários

  1. damnd oda periferia disse:

    qual o sonho do teco?

  2. Marco Giannelli disse:

    Já li vários textos desse parente distante do Bertrand e os achei a todos muito bons. Esse também tem uma “balada”muito interessante e o que mais chama atenção em seus textos, embora ainda simplórios em alguns aspectos, é que ele possui um forte índice de autoria e originalidade. Vale a pena investir na área.

  3. Bel disse:

    Apesar de ter trechos engraçados o texto me passou certa melancolia. Principalmente no que se refere ao conflito interno do comportamento humano. Lembra aquela estória, comum nos desenhos animados, na qual aparece um anjo e um diabo interferindo em nossas decisões. Nesse caso vi o anjo representado pelo ota e o Tico e Teco se passando por diabinhos bem insistentes.Mandou bem!

  4. Francis Newton disse:

    Boa balada, texto hilário.

  5. PH disse:

    Muito engraçado este conto, Tiago! Valeu por postá-lo!

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Quem é Tiago Russel?

Escrevo como válvula de escape. Antes que a vida me escape.

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