Paletó

Conto por Alexandre Piccolo
6 de julho de 2004

O Sr. Fernandes voltou do banheiro para sua cadeira no final da festa, mas mulher e filha já não estavam mais ali esperando. A mesa era mesmo aquela mas cadê o paletó na cadeira? Será que a mulher já levou?

Encontrou Soraia e Selma. Nada do paletó. Avisam aos responsáveis e estes e os últimos restantes no salão fazem uma geral. Nada do paletó.

Só um outro paletó azul marinho e vazio, que não era o do Sr. Fernandes. No bolso, só uma carteira de motorista: Irineu Sampaio Marinho de Souza.



Encontrei Irineu de manhã já de ressaca e cara-feia, entrando na portaria rumo ao elevador. E daí provalmente prum sono tranqüilo e restaurador. Na subida do elevador:

_ Que foi Irineu, que cara é essa?

_ Ah, cuzão do delegado? meu paletó?

_ Que delegado? Que paletó?

Paletó com ele não havia, só calça e camisa meio amarrotadas, fim de festa.

_ Sujeitinho safado, nem te conto?

_ Ué, de onde você tá vindo?

_ Da delegacia, da balada, da festa? Pior é que saí de terno, paletó e gravata e tô voltando sem nada, palhaçada? ? indignado.

Delegacia? Festa? Que paletó?

_ Ué, que história é essa? Que aconteceu com seu paletó?

_ A história é grande, rapaz, passei a madrugada na delegacia, nem te conto? ? e num fôlego resignado, começou ? Saí ontem à noite pra festa de casamento do irmão da prima da Firmina. Já viu?! daquelas festas engomadas, toda chique e emperequetada. Não deu outra: ela de vestido, eu de terno e a gente foi. Chegô lá, pra variá, brigamo, né?!, e eu fui tomá umas pra esfriá a cabeça. Aí, naquele calor, tirei o paletó e a gravata, lugar quente, rapaz?!, apertado. Tomei um pouqinho, fui dançá umas música, aquele calorão, já viu né?! festa engomada, uma mulherada, cheia das bebida… ? e os olhos vagos na lembrança recente.

_ Tá, e aí?

_ Aí, uma hora voltei para mesa, e procurei a Firmina, e ela já tinha ido. Tava frio, aí eu peguei o paletó e vim embora. Só que quando saí de lá, no meio do caminho, uma blitz! Foda, um tantão de policial parando tod'os carro na pista. Pediram os documentos, e eu dei o que tava no paletó. Mas quando eu saí pra festa, tava só com as chaves no bolso da calça e o documento no paletó. Aí foi uma confusão, me chamaram de Sr. Fernandes Não-sei-do-que, mas eu não sou sr. Fernandes, sou Irineu!, porque eu dei uma uma carteira de couro que tinha no bolso do paletó, entreguei tudo pro guarda. Ele olhou, achou estranho, pediu pra descer e acompanhar até o delegado, já viu né, um saco!?!

Começa um sorriso curioso:

_ Putz, e aí?

_ Aí qu?eu saquei, lá com o delegado, qu?eu tinha trocado de paletó! Eu falei pra ele, mas o cuzão do delegado não acreditava em mim:

“_ Bêbado, não é, Sr. Fernandes?

“_ Não, seu delegado, eu sou o Irineu! Irineu de Souza! Tô vindo da vesta, da festa, troquei meu paletó quando eu saí de lá, só isso?

“_ Ah, só isso?

“_ É, só isso!

Um silêncio.

Aí ele bateu a mão forte na mesa e veio com um:

“_ sem só isso, seu safado! O senhor tá bem enrolado, isso sim?

“_ Mas seu delegado, é só a gente voltar na festa, bem ali e destrocar esse paletó, eu pegar o meu e o dono pegar o dele? esse daqui?

“_ e o Sr. Fernandes vai pegar o quê mais nessa festa? uns dois ou três golinhos também?

“_ Não, seu delgado, vou pegar meu paletó! Eu só troquei de paletó!

“_ Uma ova seu, safado! E não grite! O senhor, seu Fernandes, tá bêbado e vai em cana!

"_ Eu sou Irineu, não sou seu Fernandes! - ia explicar pro delegado tudinho…

O elevador parou no nono. Ele descia ali, eu subia até o décimo terceiro. Pra resumir:

_ Putz, e aí? Como é que você saiu de lá.

_ Sorte minha é que esse seu Fernandes é cheio da grana. Na carteira dele tinha quinhentas pratas ? e uma nota de cem dólares, imagina?! ah se eu tivesse visto… Eles pegaram tudo, tudinho. E Queriam até que eu fosse no caixa eletrônico, sacar mais, mas acho que quando eu insisti que eu não era seu Fernandes, que não sabia a senha, e que um bacana que tem quinhentas pratas e cem dólares na carteira não ia andar de monza 89 igual eu ? acho que aí eles acreditaram. Mas ficaram com tudo, até com a carteira de couro e o paletó.

Eu já sorria pra começar uns risos. Ele fechou a porta resmungando qu?eu só ria porque não era comigo e que o paletó, esse era?


Titulo: Paletó

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 6 de julho de 2004

Resumo:

Terno, além de adjetivo, pode ser um traje masculino, composto de paletó, calças e, ocasionalmente…

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2 Comentários

  1. Marilda Piccolo disse:

    Oi Alê, Gostei da história do paletó… Dá até pra conrinuar… Achei a cara do Veríssimo. Bjs, Marilda

  2. PH disse:

    ahahaha! boa, Alex. História moderno-universal, muito bem contada: episódio que se repete em casamentos e formaturas. Só faltou contar que o tal Irineu achou um rolo de filme no bolso e, quando foi revelá-lo, não conhecia ninguém das fotos… ahaha! Boa prosa mesmo!

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