Conto por Alexandre Piccolo
13 de outubro de 2003
O relato que lhes deixo pode parecer inverossímil mas é a mais pura verdade, acreditem. Pode haver história semelhante, mas não acontecimentos iguais, ainda que uns sejam literários e outros reais. Nestes dias modernos, cheios de ciência e suas concludentes explicações, parece ainda estranho (senão melindroso) surgirem narrações de acontecimentos insólitos ou inexplicáveis em nossos arredores tão racionalizados. No entanto, mesmo depois de "inventada" a estatística, ainda não sabemos qual face do dado vai cair pra cima. E o dado ainda pode cair de quina e ficar suspenso sem sabermos como ou por quê.
Enfim, meu relato é simplesmente documental. Pretende gravar em palavras o inexplicável que vivi dias atrás - e que ainda me aflige -, mesmo que as palavras não comportem o mistério deste universo.
Bem, como alguns sabem, gosto de culinária. Grosseiramente resumindo, algo além do ovo frito, miojo e café. E além de treinar variadas receitas prontas, facilmente encontradas nos rótulos de quase tudo impresso por aí, me fascina combinar ingredientes e temperos em busca de novos cheiros e sabores. E como um alquimista decadente, ainda busco tranformar em ouro uma salada de pimentão e pepino, ou fazer de um mexido de farinha com ovos um simples bolo, que além de puro passatempo, me arregala os olhos às novas experimentações. E, desta vez, uma experiência me saiu mais caro que a encomenda. Mas, antes da receita, tudo começou com uma descoberta inusitada.
Numa segunda-feira pela manhã, ao limpar a estante de livros, encontrei uma fenda na tampa ao fundo do armário. E, na fenda, um amontoado de papel velho, algo que nem posso chamar de livro, pois as páginas estavam quase todas soltas e muito carcomidas. Dois detalhes deste ocorrido ainda me deixam atônito: nunca havia reparado neste buraco no armário nem em seu conteúdo em casa - vale ressaltar, minha mansão tem mais de setenta anos, mais de dezessete cômodos e foi fundada sobre uma antiga senzala, quando a estrutura da velha cozinha foi parcialmente reaproveitada - e talvez daí tenha vindo a descoberta arqueológica do tal livro; a segunda minúcia, que me faz refletir ainda mais sobre os caminhos inescrutáveis do passado, é por quê me meti a ler (e seguir) os malditos escritos deste insondável papel…
Sem maiores divagações, depois de desempoeirado, revirado, lido e interpretado, o veredicto era: tinha em mãos uma receita. Algo como um modo de preparo de uma bebida mágica, como um chá ou um elixir misterioso, de poderes sobrenaturais, como pude depois melhor comprovar. Como tudo aquilo me era novo, a curiosidade me fascinou sem dificuldade e do dialeto africano que, com alguns dicionários e enciclopédias, consegui parcamente traduzir, passei à difícil aquisição das iguarias atípicas. Ingredientes e modos de preparo e degustação vinham muito bem detalhados; logo, tomar a misteriosa poção era simples fim em tão intrincado e obscuro meio.
Importante até então foi seguir à risca os mínimos detalhes do receituário. Juntei todos as substâncias da mistura e aguardei o momento exato para a realização do elixir. Cinco raízes verdes de mandioca colhidas em lua cheia, água de seis cocos verdes de coqueiro litorâneo, páprica triturada com pilão de ferro, açúcar de beterraba envelhecida e uma coleção de outros ingredientes raros temperavam a poção. Até pimenta do reino da Índia mandei importar. Tarefa cara e custosa que, além de dinheiro e suor, me tomou tempo, espaço e estômago preciosos. O preparo tinha hora e local definidos.
Como num ritual de pura magia, num sábado de Aleluia às onze da noite, depois de já dispensado todos os empregados da casa, estava eu, com colher de pau na mão e uma panelinha de ferro numa fogueira nos fundos do quintal, começando a preparar a miraculosa poção. Antes do preparo, uma exortação em latim: "DI ME SERUANT", e ainda não sei se foram os deuses que me esqueceram ou se traí algum passo indispensável do chá divino. A caldeira quente recebia os ingredientes um a um, como mandava o script. Próximo da meia-noite o caldo grosso e incandescente fervia, quase em ebulição, exalando um odor forte, mistura de luz e espuma. Não houve explosão, como poderiam ironicamente sugerir os incrédulos. Exatamente à virada da meia-noite servi o chá em meia cumbuca de coco, de onde retirei a água da poção, como pedia o ritual. E tomei tudo rápido, às grandes goladas, queimando a língua, a boca e a goela. Por fim arremecei longe o recipiente e caí por terra, me contorcendo.
Aqui, então, começam os acontecimentos insólitos de minha aventura, e reforço a verossimilhança em meu relato. Ao princípio só senti o calor na garganta e estômagos queimados, ambos ardiam a cada golfada de ar. Pouco me mexia, encolhido no chão. Creio que adormeci por alguns segundos. Quando comecei a me mover, percebi que o chão sacodia. Empurrei o solo para me erguer, com a mão esquerda como apoio, e este simples movimento ondulou o chão ao meu redor. Levantei-me calmamente, para menos sentir o turbilhão de efeitos delirantes que tentava me balançar e sacudir. Quando consegui ficar equilibrado e ereto, de pé, resolvi comprovar a solidez do chão que me sustentava. Então pulei, não muito alto, para testá-lo. E, como se o chão fosse uma superfície mole, feita de gelatina, ele tremeu e ondulou harmonicamente, como o cair de uma gota numa poça d'água parada. Desequilibrei-me e nadei em delírio. Revirei-me incontavelmente num plano que se liquefazia. De costas, o céu parecia encenar, em nuvens negras e esvoaçantes, a tragédia humana em atos contínuos, embaralhados e fugazes. Não sei por quanto tempo admirei este espetáculo de estrelas e nuvens, mas seu ritmo cada vez mais acelerado tonteou minha atenção e me embrulhou o estomago. Foi quando me revirei novamente para tentar me reerguer. Aí descobri o insofismável.
Apoiei o braço esticado e neste simples esticar não consegui mais vê-lo. Procurei minha mão apoiada ao chão, mas lá ela não estava. Chaqualhei-a no ar e não a via. Sentia-a mas não a via, não conseguia vê-la. Vi as paredes, a horta e o canteiro de flores ao meu redor, mas não via meus braços e minhas mãos. Procurei minhas pernas e nada. Vi o chão através de meus membros, minhas roupas suspensas no ar, todas cheias de um vazio de mim. Não conseguia mais me enxergar. Desmaiei e dormi.
Quando reacordei ainda era noite, mas a claridade do sol parecia já se aproximar. Ainda atônito e ofegante, fui direto ao espelho. Não me vi e por pouco não enlouqueci. Olhei através de mim e, atrás, só vi a porta do banheiro semi cerrada. Senti uma lágrima correr-me no rosto mas não a vi no espelho. Era já tarde para voltar atrás. Esmurrei o espelho e quebrei-o. Minha mão doía, certamente sangrava, mas não havia sangue para constatar minha dor. Ali deixei de existir, ao menos em aparência.
Não lhes conto os detalhes pragmáticos da continuação desta história - a arrumação dos apetrechos da feitiçaria, meu completo despir para continuar "vivo e existindo" em minha casa, a carta forjada que deixei aos empregados e amigos próximos, simulando uma viagem sem prazo de volta - pois isso lhes enfadaria e são detalhes que não pertencem ao relato deste documento. Há quem diga que já se inventou caso parecido, que já se narrou algo semelhante. Reitero: isto é documento, realidade; aquilo - história fantástica. Documentar o simples acontecido (que não é nada simples) é o propósito único e maior deste empreendimento. E, sem o mérito de um grande desfecho, finalizo apenas com a tristeza de observar as teclas se abaixando, uma a uma, para narrar meu último acontecimento relevante em vida, enquanto não descubro a cura desta insuportável inexistência, que suporto já há meses e dias.
Titulo: Páprica e um pouco de latim…
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 13 de outubro de 2003
Resumo: uma receita nada convencional
É… Acho q preciso ir a Campinas de novo, esses delírios estão cada vez mais perto de se tornarem literatura… Bjs, Marilda
Alê,gostei da história, tem um quê de Edgar Allan Poe -com páprica e muita elegância.
Que louco velho!!!Muito bom!Não teria uma continuação….
Dizer o quê?? Como disse o PH: Fantástico! Parabéns!
Fantástico! Aliás, fantástico não. Eis aí um documentário realista e científico. Fantástico na forma e não no conteúdo, pois este é fidedigno. Trechos como “De costas, o céu parecia encenar, em nuvens negras e esvoaçantes, a tragédia humana em atos contínuos, embaralhados e fugazes”, comprovam a realidade do fato. Fantástico!
Excelente. A frase que resume a possibilidade de uma história como essas: “No entanto, mesmo depois de “inventada” a estatística, ainda não sabemos qual face do dado vai cair pra cima. E o dado ainda pode cair de quina e ficar suspenso sem sabermos como ou por quê.” Parabéns!
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blargh! que lixo