Para Não Dizer que Eu Nunca Falei de Você

Conto por Tiago Russel
28 de fevereiro de 2003

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Ilustração: Taise Kodama

Eu acho que chega um momento na vida de todo mundo que ele pulsa mais forte. E eu acredito mesmo ser capaz de escrever alguma coisa identificável com o que os outros, com o que você já viveu. Não tenho a petulância de achar que tudo vai bater exatamente tim-tim por tim-tim. É um processo muito pessoal, muito de cada um. Chegou minha vez. E não há como escapar.

Esta é a primeira característica de um exemplar de verdade: não há como escapar. Não há como fechar os olhos, fingir que não viu para ele passar ao largo. Aquela besteira de flecha existe e você é o alvo. Sorte ou azar o seu. Porque ele não faz prisioneiros. Chega para matar, ou morrer.

Sua intensidade é a mesma nos dois casos. Com a mesma força que arde enquanto é chama, consome quando vai embora. Não é a toa que ele é tudo o que há de mais importante na sua vida. Até porque, todas as pequenas coisas são o que há de mais importante na sua vida.

Quem nunca sentiu sua força no final de um dia pesado de trabalho? Quem nunca escutou "vai passar, e desmancha logo essa cara feia enquanto eu faço um cafuné"? O nome disso? Onipresença. Ele está ali, junto de você onde quer que você for, mesmo quando ele próprio já se foi.

Seu conteúdo adquire qualquer forma. Muitos pensam que ele se restringe a um único formato, que, convenhamos, se parece mais com uma bundinha arrebitada de cabeça para baixo, em nuances que vão do vinho ao vermelho seda. Mas ele pode ser simplesmente os dedos longos brincando com os seus cabelos, o bebê fazendo manha antes de acordar, ou o sorriso de um momento de bobismo que é só de vocês. Sim, não existem porções individuais. Mas ele pode se tornar uma, preferindo neste caso não ser reconhecido.

O seu gosto desafia qualquer paladar. Não há como descreve-lo. Não há nada igual. Eu teria que juntar muitas palavras para tentar chegar a milhas de distância da realidade. Ele é o corpo que estremece na sua boca, enquanto sua língua busca, cega, memorizar seu sabor. É o momento de suspiro onde você perde a referência do que está ao seu redor. Milésimos de um segundo sem fim. É o contado da pele amaciando o vento gelado do inverno. Uma jaqueta surrada de couro estendida na grama num sol de primavera. É aprender a compartilhar sem ter medo de perder. É se perder, sem ter o mínimo interesse em voltar a se achar. É não ter certeza de nada, e ao mesmo tempo saber direitinho com quem você vai ficar. É um olhar tenso, um esvoaçar de cabelos, um cruzar de pernas, um clique. É saber se doar, sem querer receber nada em troca. É querer receber tudo em troca de mais um pouquinho dele mesmo. É confuso e indeciso. É o mais humano que se pode chegar da perfeição, ou do desespero.

Não existe lugar. Não existe apenas em contos de fadas. Não é mais um filme de Hollywood. É um mundo de nós dois, simples como abaixar a tampa da patente, cheio de manias como chegar mais cedo para pegar o melhor lugar do cinema, e implicante como uma mangueirada de água fria.

Não são duas almas gêmeas que se encontram. São duas metades de uma mesma alma que se juntam para sempre. Para sempre parece até um pouco forte, mas menos do que isso ele não aceita ser. É a simplicidade de uma resposta sem pergunta, sendo sempre a mesma resposta para todas as perguntas.

Ele não acaba, adormece. Adormece no fundo de quem o esquece, de quem não o alimenta mais. Ele morre se você não sorri. Emburrece se você não fala. Se afoga com o seu medo. Porque o medo é a única doença, e ele é a única cura.

Adora loucuras. Do tipo de se imaginar velhinho ao seu lado. Adora chorar. Como manteiga derretida. Seja de um simples cartão ou de um complexo arrependimento. Ele também dói muito. Mais ainda quando você tem certeza de onde ele está, mas não tem permissão para o tocar.

Como ter certeza do que não tem lugar, forma, cor ou sabor? Quando é simples e verdadeiro. Quando a razão foge para baixo da cama. Quando você não quer mais sair da cama. Quando você não se importa apenas em ter. Precisa viver. Quando todo o seu vocabulário se esgota, repetindo as mesmas coisas. Quando todo o resto que você já viveu serve apenas como teste de intensidade. Mas, principalmente, depois de rever cada segundo e não suportar um só minuto sem o seu todo.

Ele exige sacrifícios. E o mais difícil deles é saber amadurecer. O amor é ficar velho com o seu amor sempre ao seu lado sem perceber que o tempo de vocês já passou.


Titulo: Para Não Dizer que Eu Nunca Falei de Você

Autor: Tiago Russel

Gênero: Conto

Data de publicação: 28 de fevereiro de 2003

Resumo:

Você já sentiu isso. Ou ainda vai sentir.

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Quem é Tiago Russel?

Escrevo como válvula de escape. Antes que a vida me escape.

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