Conto por Alexandre Piccolo
1 de março de 2004

De volta para casa, vinha de carro fazendo a curva bem aberta para direita quando um caminhão de lixo e três lixeiros trabalhando na rua me fecharam passagem. Era tarde, mais de meia noite e meia. Movimento de rotina, era o que parecia, azar o meu topar com os tais lixeiros uma hora dessas. Também, lixeiros, foi a repugnância desgostosa que tive no momento. Sem zelo. Lixeiros. Também, era a profissão dos caras, como a de todo mundo, afinal, trabalho, dignidade, tudo o mesmo, intangível, e eu me aproximando, ressabiado olhando em minha fantasia o mundo de que tanto me distanciava por dentro do vidro fechado, ar limpo e condicionado, hermeticamente seguro nesta “cápsula automobilística”.
Devagar parei. Fecharam a passagem, só tinha que esperar. Saco. Que saco. Tinha que esperar, parado, caminhão parado, fazendo barulho e moendo lixo. Perdi a contemplação daquela cena num piscar d'olhos e, no meio do caminho, com o queixo no anteparo da porta, sinto uma sombra vaguear a meu lado. Um susto. Uma arma encostada, de repente, faz soar seco o cano de ferro no vidro. É pra abaixar, suo frio, um grito, “baixa logo”, mão no câmbio, tremulo, “baixa logo, porra”, travo, aflito, acelero, “vamu porra”, tremo todo, mijo por dentro, fechadura, o volante, suor ? shprah! - o tiro. Na cabeça.
Um sujeito abre a porta, me empurra de lado, solta o cinto e me puxa ao ombro. Forte. Fedendo. Tombo no chão, cara estourada entre a calçada suja e a rua molhada, ao meio duma poça. Discutem aos gritos se deixam meu cadáver ali mesmo ou me socam ao lixo do caminhão. Minh'alma tudo vislumbra, eu ali mudo, estatelado. Eu - que passara ali tantas vezes, vira essa esquina tantas vezes, aquela árvore, a quitanda, a placa, o buteco da frente - agora, beijo a guia jogado ao asfalto de paralelepípedo, já morto, sem sentido. Tudo não dura segundo. Os assassinos partem, somem, desaparecem do mapa. O incidente dá manchete, notícia, burburim, no papel e nas redondezas. Por fim, o tempo põe fim a toda história.
E por fim, passagem. Eu completava a curva, bem aberta, desta vez tendo que passar de fininho entre o vão estreito do caminhão e a calçada. Devagar, manobrava lento o carro por entre aquele espaço suspeito, passava nervoso, de olho aberto, ressabiado. Pertinho daqueles lixeiros, ambos cautelosos, comungávamos o instante em olhos tão pertos e distantes. Eu, assustado, contemplava o painel do veículo e seu parabrisa delirando a cena do mundo sujo lá de fora. Também, lixeiros. Então rápido, de marcha forte e lenta, acelerava, para fugir daqui. Rumo pra casa, abrir o portão eletrônico, estacionar, subir e esconder de mim mesmo as paranóias da cidade noturna.
Titulo: Paranóia Urbana 1
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 1 de março de 2004
Resumo: Eu? Paranóico? Bobagem…
Alê, perfeito o texto, a descrição da paranóia… jóias urbanas cotidianas, mas q nem percebemos, só qdo alguém relata tão bem… Um beijo, Marilda
Demais Alex! Traduziu bem a paranóia urbana de todas as esquinas…
Um soco no estômago!!! Texto forte, daqueles que prendem até o final e ao final nos deixa uma sensação de ‘que mundo é esse, meu Deus!!!’
é niguem está seguro esses dias… melhor carregar um trezoitão sempre no porta-luvas!
Bom dia, Alexandre!Muito real esse texto… é literalmente o que acontece, não só nas grandes metrópoles, mas em qualquer cidade um pouco urbanizada, maltratada pelas “berrantes” diferenças sociais, a revolta que o sistema causa aos que se situam à margem do mesmo. Infelizmente a sociedade em que vivemos.
Excelente. O movimento das palavras no momento do assalto, alternando verbos e substantivos, rápidos, secos, mostram bem o desespero. Marcou também na minha leitura a questão da sujeira… do mundo sujo lá de fora, cheio de máculas, descuidado, largado, diferente das cápsulas “aconchegantes”, um carro com banco de couro e ar condicionado, uma casa com lâmpadas amareladas e cadeados nos portões. Enfim, parabéns!
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Bixo, parabens! Bom pra caralho, cheguei a perguntar para o PH se vc tinha sido assaltado…