Conto por Alexandre Piccolo
9 de fevereiro de 2004

Num desses dias de sempre, perambulando pelos corredores e sagüões do aeroporto, reencontro um antigo (des)conhecido, de colégio ou faculdade, não me lembro, que via de quando em vez em outros corredores. Melhor dizendo, ele me reencontra:
- ô, Alexandre, tá lembrado de mim? (um executivo engravatado me interpela com um apalpar no ombro enquanto leio a orelha dum livro na banca)
- (viro, desconfiado) nooossa, rapaz! (surpreso, reconheci as feições do rosto, como é que é mesmo o nome dele?) quanto tempo… (um sorriso de reencontro inesperado, como é que é mesmo o nome dele?) cê tá mudado, hein…
- você é que tá mudado…, de barba…, mais forte… (faz um gesto com os braços que me acanha, acho que ele quis dizer mais gordo)
(um meio abraço, ambos só sorrisos)
- e aí, como é que cê tá?
- tudo bem, tudo bem… E você? (que saco! como é mesmo o nome dele?)
- tudo bem, graças a Deus…
(ainda sorrisos. Um contemplativo intervalo em silêncio… Quebro)
- e aí, trabalhando onde?
- Na …, … (uma resposta curta, precisa, decidida. Por motivos de força maior, serei obrigado a omitir o nome da multinacional em que meu interlocutor trabalha, bem como seu cargo e departamento). E você?
- Zanzando, por aí…, como sempre… (meio bobo, por que é que eu fui falar disso?). Virei autônomo. (dúbio, impreciso e meio gaguejado, com um sorrisinho vagabundo pra disfarçar)
Meu olhar cai rápido no chão e volta ao mostruário de revistas. Novo silêncio, constrangedor ? não exatamente como em Pulp Fiction, mas me lembrou. Ele percebe e tenta mudar de assunto:
- já tá casado? (sorrindo interessado, pra afastar o breve desânimo momentâneo) Cê tava noivo, né?! (olhos mais abertos, sobrancelhas levantadas, inquisidor)
- nada…, enrolei…, terminei… (não triste mas um olhar já encabulado, vago, perdido. Para sair, a réplica) E você, casou?
Um breve parêntese: tudo isso é muito rápido, instantâneo. Difícil precisar os acontecimentos, os segundos e as sutilezas que os adornam. No entanto, imperceptivelmente reagimos às finas nuances que decoram os diálogos cotidianos ? inesperados ou não. E sem mais divagações. Pelo que me lembro, o sujeito namorava uma gostosa…
- é, casei, ano passado… (uma curta pausa, com um leve suspirar satisfeito) Temos uma menininha… (já tirava a carteira do bolso pra sacar uma foto de um bebezinho, desses iguais a todos ? não sei exatamente por quê, mas a foto me lembrou um trecho peculiar de “uma galinha”, da Clarice)
- gracinha (hmm… falso sorriso involuntário, devolvendo a foto). Legal (hmmm… melhor me ir)
De novo meu olhar volta ao chão. Será que vou pra debaixo da terra? Sou mesmo um pobre-diabo… Suspiro, me recomponho e preparo a despedida:
- é isso aí, rapaz, bom te ver. (saudoso aperto de mão, já é hora)
- bom te ver, Alexandre. Tudo de bom. (e um sorriso sincero, é o que percebo ou imagino)
- Tudo de bom. Felicidades. (agora mais sorridente, que exagero, sempre exagero nestas despedidas breves)
Viramos as costas (presente ou passado?), ele continuou na banca de revistas, eu me fui. Será que ele percebeu que eu não lembrei o nome dele? Será? Pior é que isso eu nunca vou saber. Também, já passou. A cena ? o encontro ? durou segundos, se muito sessenta. Cada uma que me acontece, esses encontros herméticos que seguem o mesmo protocolo, no fundo ninguém sabe nada de ninguém. Mas a vida é essa. Parece até que em poucos segundos temos de resumir toda uma vida e dar um veredicto: sou ou não feliz. Nasci, cresci, casei, procriei, morri. Será possível? Ah, se tivesse falado no conto e comparado com a filha, hmmm…, ele ia ficar puto. Por que que eu vivo pensando nessas bobagens? Deve ser porque li há pouco o dito cujo mas, enfim, parece até que isso é um livro, um texto. Ele também nem deve ter lido… Igual aquela história do Veríssimo em que o sujeito conversa por horas com um (des)conhecido e nem lembra o nome do fulano. Como é mesmo o nome dele?
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A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
Titulo: Parênteses no aeroporto
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 9 de fevereiro de 2004
Resumo: Encontrar alguém é sempre insólito. No aeroporto e com alguns parênteses…
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Excelente. Pra quê dizer mais?