Conto por Paulo Henrique
15 de setembro de 2003

Conhecia todos os restaurantes da cidade. Todos os restaurantes, não. Só os mais simples, daqueles que vendiam prato feito. Não procurava este tipo de estabecimento por necessidade financeira. Não era pobre, nem rico. Era capricho mesmo.
- São as melhores comidas, os mais higiênicos e os mais sinceros - argumentava.
Quando levou a família de sua noiva no bar da Lingüiça, ainda pôde unir o útil ao agradável, tecendo um galante elogio à sogra:
- Não disse que este sanduíche era delicioso? Só não ganha do lanche que a senhora prepara.
A noiva, diga-se de passagem, era um anjo de delicadeza, mas que acompanhava fácil o noivo nestas aventuras gastronômicas. Um dos pontos mais românticos do casal era o Bar do Bigode, "desde 1937, atendendo o povo desta cidade". Dizem que era o melhor joelho de porco do mundo.
Na hora do bate-papo com os amigos, gostava de tomar uma cerveja, assistindo ao futebol, sábado a tarde, no bar Preste Atenção. Churrasquinho a toda hora, com cerveja gelada. Nada melhor que botar a conversa em dia, em um lugar sem frescuras e formalidades. Assim como os espetinhos variavam de coração de frango à contra-filé, os assuntos iam de 2a. divisão do paulistão a Vitor Hugo.
Assim nosso herói ia nesta jornada, ora no Bar da Coxinha, ora no restaurante Nosso Cantinho. Quando viajava, gostava de almoçar os pê-efes de beira de estrada, com arroz, feijão, bife e batata-frita. E quando tinha ovo, melhor. Evitava rodízios e self-services. Dizia que era "comida expressa, não dava para saborear".
Sua preferência era tão forte que chegou a elaborar um projeto de mestrado na sua universidade, para escrever uma teoria de médio alcance sobre a influência dos pratos feitos na cultura brasileira. Mas desistiu de tudo.
Um belo dia, no meio de toda a correria no seu trabalho (sim, apesar dos gostos peculiares, ele trabalhava normalmente), ele passou muito mal, quase morreu. Teve um pirepaque que deixou todo mundo assustado. O médico disse que eram sintomas de stress, mas aos conhecidos ele insistia que não:
- é, rapaz, não deveria ter comido aquele champignon no shopping center, muito artificial para o meu gosto. É batata: agora tô aqui…
Apesar de não ter sido diagnosticado nenhum tipo de infecção alimentar, ele desencanou de tudo. Largou o emprego, pegou a noiva - que a esta altura já era esposa, as crianças, e sumiu do mapa. Estavam cansados de cidade grande.
Hoje, só os parentes e os amigos mais próximos têm notícias da família. Dizem que estão muito bem. Se mudaram para uma cidade no interior de Santa Catarina, pertinho do litoral. Ele às vezes publica algumas crônicas em uns jornais da região e ela montou um escritório, onde toca projetos para a prefeitura. Mas não abrem mão do principal negócio da família: um restaurante de prato feitos, na entrada da cidade. Comi lá uma vez, é uma delícia. Tá fazendo um sucesso danado.
Titulo: Pê-efe
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Conto
Data de publicação: 15 de setembro de 2003
Resumo: O seguro morreu de velho.
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Esta história ficou muito boa… parece o futuro casal PH e Ma… fazia um tempo que não tinha tempo para ler algo agradavel, estava muito envolvido com a greve dos correios, e alias ainda estou na correria.