Conto por Mário Neto
6 de novembro de 2003
- Você tem até sábado para fazer o que mandei!
- Não vou fazer.
- Você não tem opção!
- Tenho, sou livre! Minha opção é ser livre!
- A única liberdade que você tem é a de aceitar o que eu digo!
- …
- Não vai dizer nada?
- …
- Corto as verbas! Ou faz o que eu digo ou imponho um embargo econômico!
- Sou livre. Você não manda em mim! É um tirano!
- Não sou um tirano. Apenas sou mais desenvolvido e você depende economicamente de mim!
- Então corte as verbas! Vamos, corte!
- Não prefere fazer o que mandei?
- Não, prefiro que corte as verbas.
- Foi você quem pediu. Verbas cortadas.
- Pronto, resolvido?
- Sim, em parte. Mas ainda quero que faça o que mandei até sábado.
- Ué, mas você já não cortou as verbas?
- Não importa. Você tem a liberdade de aceitar o que eu digo!
- Que droga, viu! Eu estava contando com a mesada desse mês…
O terreno é estreito e limitado. Poucos espaços para manobra se comparados ao tamanho das tropas. Os inimigos dispostos em lados opostos. A oeste o lado azul; a leste o lado vermelho.
Há um espaço vazio entre eles onde ainda há possibilidades de ocupação. Os objetivos dessa batalha, como sempre, não são claros.
Os movimentos são lentos e confusos. Os generais têm pouca visibilidade sobre o terreno. Precisam utilizar a intuição para movimentar cada pequena parte do corpo de ataque.
Ao sul o lado azul avança com um pequeno movimento de sua base. O lado vermelho responde, próximo ao centro-sul, com um movimento ágil da esquadra flexível de leste para oeste.
Usando sensores de calor, o general do lado azul detecta o avanço furioso da esquadra do lado vermelho e, logo em seguida, imprime um avanço completo da tropa na direção leste.
Há uma aproximação tensa. Os sensores de ambos os lados informam sobre o perigo da proximidade. Há um manto denso cobrindo o campo de batalha.
Os avanços se tornam curtos e rápidos. Um envia sua equipe de reconhecimento; o outro avança com sua central de inteligência, tomando o norte. Um avança sua central de distribuição de recursos; o outro responde com o movimento das equipes de ataque.
Num momento indescritível da história humana, as duas centrais de inteligência se encontram frente a frente. Há um respirar denso dos lados azul e vermelho. Os sensores todos tensos na leitura de qualquer sinal de movimento. Até que:
- Osmar, quer fazer o favor de ir mais para o lado! Eu falei que essa cama era pequena! E tire esse lençol! Jesus, está calor!
- Ai, meu Deus, eu mereço!
E o lado vermelho vence mais uma vez.
- Imbecil, gritou o sargento com a face vermelha, não é assim que se faz! Será que ainda não deu tempo de aprender?
Tirou o rifle da mão do soldado e, ágil como sempre, recarregou a arma com destreza e um certo ar de dignidade e orgulho. Depois jogou o rifle na mão do jovem garoto e gritou:
- Tu é muito mole! Tá com saudade da mamãe, garoto?
Os outros soldados riram. Ele ficou cabisbaixo.
O batalhão estava junto a um ano e meio. Um ano e meio fora de casa. Um ano e meio dormindo sujos, barbudos e brutos. Um ano e meio em guerra com o país vizinho.
Ele já havia matado alguns, mas não teve tempo de pensar sobre isso. Até o momento não sentia remorso, apenas um sentimento de dúvida. Por que ele havia matado aqueles homens mesmo?
Perguntar e pensar não era importante, dizia a ele o sargento. É o que a vida ensina. Os que pensam, morrem! São uns fracos! O importante é saber atirar. E nem isso o soldado havia aprendido direito.
Com o rifle carregado na mão ele examinou o campo de batalha. Olhou para o sargento, que estava atrás de uma moita com outros companheiros. Ouviu tiros. Homens correndo. Uma explosão. Avistou novamente o sargento, agora sozinho, escondido num arbusto.
Ouviu ele gritar pedindo ajuda. Encheu-se de coragem e correu na direção dele. Destravou o rifle e, com os olhos arregalados, esbravejou:
- Eu sei atirar!
Atirou na cabeça do sargento. Depois, com um grito de raiva, partiu para cima do inimigo com o rifle em punho. Foi baleado no peito e nos ombros. Morreu em seguida.
Mário de Souza Neto foi dispensado do serviço militar e, portanto, não é um homem "disciplinado".
Titulo: Pequenas guerras
Autor: Mário Neto
Gênero: Conto
Data de publicação: 6 de novembro de 2003
Resumo: Três curtas histórias sobre batalhas cotidianas.
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Ótima sacada! Os três textos são muito bem elaborados e seus desfechos são bem inesperados.