Perfume

Conto por Claudia Lins
29 de março de 2004

Perfume

Ele sentiu o cheiro do envelope e teve saudades.Vontade de abraçá-la e ficar assim por horas. Queria tocar-lhe o cabelo, sentir a pele, o toque. A carta amarelada devia estar guardada naquele livro de poesias há uns nove, dez anos talvez.

Não era bom em gravar datas ou números. Nunca fora. Seu forte era memorizar aromas, os cheiros. Bastava sentir a fragância uma vez e tudo voltava-lhe a mente com a mesma nitidez do primeiro contato.

Regra parecida valia para momentos, fases e lugares. Quase sempre a identificação de um cheiro ativava recordações que conduziam a pessoas e sentimentos.

Era assim todas as vezes que o erva-doce em fusão com a água fervente invadia a cozinha nas noites de insônia. O ar impregnado pelo chá calmante fazendo-o recordar-se das noites compartilhadas com uma mãe décadas mais jovem, vivendo a crise da meia idade, a beira de um divórcio iminente.

Mergulhando naquele mesmo aroma, podia salivar ao reviver o sabor do grão da erva sendo mastigado. Arrancada da terra, nos jardins do sítio da avó, nas férias da pré-adolescência. Mais estimulante eram as sensações provocadas pelos aromas das frutas, sempre testemunhas de fases deliciosas da vida. As mangas de espécies variadas lembrando a fartura de anos felizes compartilhados por uma família numerosa. O abacaxi doce de dar água na boca, como os natais alegres, vividos na companhia de irmãos e primos, transformados em meros compromissos na agenda depois da separação dos pais.

A amora escorrendo entre os dentes brancos com seu gosto exótico e perfume inconfundível. Tão estimulante quanto a sensação do primeiro beijo, dado na última fila do cinema, na primeira sessão de Ghost. Lábios que mal sabiam qual ritual seguir.

O cheiro da terra úmida e do capim verde, molhados pela chuva, traziam com o vento lembranças e emoções da primeira viagem que fez sozinho. A lavanda da namorada daquele verão na Bahia, quando se apaixonou para valer. Mais tarde, a descoberta da pele da mulher desejada, o cheiro do sexo. O éter dos corredores de hospital, quando nasceu o primeiro filho. E o odor insuportável do ácido glicólico das noites em que a mulher passava horas em frente ao espelho, quase nem se dando conta de sua presença.

Tantos aromas para recordar, mas aquele preso à velha carta, parecia o único para sempre misturado a suas entranhas. Como quando os dois se aproximaram pela primeira vez e ela de modo displicente debruçou sobre os cotovelos apoiados na mesa para prestar atenção ao que era dito. A sensação daquela doce fragância invadindo-lhe os sentidos jamais seria superada. Depois dali, os sorrisos, toques, as lágrimas e promessas, tudo mais ganharia dimensões imensuráveis.

De todo modo aquele cheiro já era parte de sua vida. Estava impregnado em sua memória como cada traço do rosto dela, cada palavra daquela carta, cada momento que viveram. Assim como os planos que nem chegaram a confessar, as mensagens imaginárias destruídas antes mesmo de serem lidas. Códigos cifrados de tudo quanto não tendo sido dito ou exorcizado, teimava pairar protegido, num espaço onde o tempo e a razão jamais ditaram regras.

- Não quero que isso acabe nunca. - Ousou desejar certa vez. E estava sendo sincero.

O olhar preso ao dela como se assim pudessem ficar ligados para sempre. Hipnotizado por aquele jeito secreto de comunicação que mantinham.

Olhares que diziam tantas coisas, quando o silêncio de certo modo fazia-se imperativo. Silêncio quebrado por palavras, que um vez escritas e lançadas ao próprio destino, permaneciam apenas na imaginação dele. Provavelmente na dela também.

Antes de recolocar o livro na estante, memorizou horas, dias, sons, frases, lágrimas, risos, justificativas, silêncios e medos. Ia ficar com aquele cheiro para sempre preso a si. Porque memorizá-lo, respirar esforçando-se para senti-lo novamente, era como voltar para aquele espaço secreto onde razão e tempo nada comandavam. Era despir-se dos próprios “ses” e “porquês”, ousando desafiar probabilidades para estar com ela no lugar descrito na carta de despedida. Era chegar ao Nirvana


Titulo: Perfume

Autor: Claudia Lins

Gênero: Conto

Data de publicação: 29 de março de 2004

Resumo:

Quantas sensações guardam nossas lembranças…

1 Comentário

  1. Zé Colméia disse:

    Nirvana??????????????

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Quem é Claudia Lins?

É jornalista, carioca alagoana, seduzida pelo cheiro do sargaço (alga que é a cara de Maceió), e pelo verde-azul dessas praias maravilhosas, por aqui descobrindo um mundo de possibilidades e desafios. Antes de todas as paixões, apenas uma: escrever, escrever e escrever.

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