Conto por Raymundo Silveira
6 de agosto de 2004

- Pois não, senhor!
- Pois não, não, Pois sim! Pois não só se você não tem intenção de me atender.
- Pois sim, senhor. O que deseja?
- Desejo ganhar o prêmio maior da Sena, mas o que quero, por enquanto, é apenas a mesma coisa que eu comi naquele dia.
- Desculpe, amigo, como posso saber o que o senhor “comeu naquele dia?”
- Não pode saber porque isto aqui é um país de incompetentes. Aqui ninguém é capaz de nada. Esta nação já nasceu falida e desde o tempo das Capitanias Hereditárias…
- O que está havendo, Elisa?
- Este senhor deseja…Digo, quer pedir algo para comer e eu não posso saber o que é!
- Pois não, senhor, o que deseja?
- Já disse, desejo ganhar a Sena acumulada, mas por enquanto só quero aquilo que eu comi naquele dia.
- Senhor, será que se lhe mostrarmos o cardápio…
- Se eu quisesse porra de cardápio já teria pedido. Mas eu não quero cardápio; só quero comer aquilo que eu comi naquele dia.
- Amigo, infelizmente eu não o conheço, não sei em que dia esteve aqui, nem muito menos o que comeu e…
- Não sabe porque desde Pedro Álvares Cabral aqui nesta terra ninguém sabe de nada. Na própria carta que Coimbra escreveu ao Rei Dom Manuel…
- Hei, garçom. Eu acho que posso ajudar. Lembro perfeitamente do dia em que ele esteve aqui e sei o que foi que ele comeu e bebeu.
- Por favor, amigo…
- Ele comeu miúdos de crocodilo do Nilo ensopado em molho pardo feito com sangue de girafa, ra ra ra…
- Vejam só, este rapaz, um simples cliente igual a mim, sabe perfeitamente o que comi naquele dia, só os incompetentes que trabalham aqui…
- Mas, senhor, aqui nunca se serviu este prato.
- E ainda é insolente. Eu digo que comi, há uma testemunha disto, e só quem não sabe é a garçonete e o gerente da casa. Exijo que me peçam desculpas antes que eu vá ao DECON, que é outra porcaria, mas pelo menos deixarei lá registrado o meu protesto.
- Então, desculpe, senhor!
- “Desculpe”, uma ova. Tudo aqui neste país se resolve com pedidos de desculpas. Escolhem sempre a maneira mais cômoda. Quando Napoleão invadiu Portugal ninguém reagiu; não precisava. Simplesmente mudaram a capital para esta terra de imbecis. Agora, como não sabem ou não têm aquilo que comi naquele dia, acham que resolvem tudo com um simples pedido de desculpas. Mas isto não vai ficar assim. Vou entrar na justiça – que é outra merda – com um pedido de indenização por danos morais e…
- O que está havendo aqui, Luís?
- Este cliente está criando a maior confusão, senhor…
- Confusão o quê, seu incompetente! Estou apenas querendo almoçar.
- O que o senhor deseja para almoçar, senhor?
- Não desejo nada, mesmo porque não estou grávido. EU QUERO comer aquilo que eu comi naquele dia.
- Tudo bem, amigo. Aguarde um instante.
- Oh, Mariano. Pega aquelas sobras de feijoada do sábado, esquenta e me traz.
- Pronto, caro cliente. Aqui está o seu prato.
- Hum, é isto mesmo. Nesta terra sempre foi assim. As coisas só se resolvem quando se parte para a ignorância. Na Guerra do Paraguai….
Titulo: Pois Não, Senhor!
Autor: Raymundo Silveira
Gênero: Conto
Data de publicação: 6 de agosto de 2004
Resumo: O Cliente exigia comer o mesmo prato que comeu “naquele dia” e…
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É o retrato de alguns brasileiros. Principalmente já entrados em anos. Rabujentos, imprevisíveis, como um tio meu.A ironia do absurdo é um bom recursoMuito bom!