Conto por Alexandre Piccolo
1 de agosto de 2003

Ouvi dizer que o avô do meu pai era um sujeito de impulsos. E além de impulsivo, tinha um quê mandão, meio explosivo, coisas de imigrante italiano há pouco no Brasil. Filho e neto confirmam que, apesar da braveza e do lado rude, ele tinha lá sua doçura, seu jeito carinhoso de tratar seus queridos - além do macarrônico sotaque italiano. Depois de algumas incursões pelo estado, mudou-se com a família para o oeste de São Paulo e fixou residência em Marília, onde há até uma rua com seu nome - e de onde contam estas memórias.
Boa lembrança destes idos tempos era a segurança, não só na vizinhança como em toda a cidade. Poucos municípios guardam esta tranqüilidade interiorana (se é que ainda existem), o hábito de se conhecer os vizinhos, dormir de portas e janelas abertas, sem perigos de assaltos ou ladrões. E era costume na casa do "seu" Antônio - este é o nome do pai do meu avô - não trancar a porta nem o portão da frente de casa. Nem porta alguma. Era só chegar e entrar, sem precisar levar chave pra lá e pra cá.
Bem, ouvi também que uma casa onde ele certa vez morou era igualzinha à casa do vizinho. Fachada igual, portão igual, mesma garagem, mesmo quintal, mesma cozinha, tudo igualzinha. E, de tão parecidas as casas, com o hábito da porta destrancada, a confusão um belo dia foi instaurada, inevitável - além de hilária.
Certo dia "seu" Antônio foi pra casa mais cedo, talvez depois de algumas biritas, desatento e com pressa. Ao embicar o jipe na rampa da garagem, viu mesas e cadeiras dispostas onde estacionava o carro, como se uma pequena festa já tivesse terminado. Não entendeu nada. De cabeça meio quente, atropelou a quinquilharia toda, sem segunda reflexão. Atrapalhava-lhe o caminho e despertou-lhe a dúvida: "o que é qu'isso tá fazendo aqui? Deve ser coisa da mulher…"
Desceu do carro chutando a tralha atropelada e foi correndo à porta. Trancada. Algo de estranho pairava no ar. De impulso e sem o costume, bateu com força à porta. Nada. Bateu novamente. Depois de alguns segundos de silêncio, uma voz de mulher perguntou: "quem é?"
Foi aí que a certeza atropelou a dúvida: estava sendo traído. Incontido e indignado, gritava aos montes, "como quem é!?, mulher! Você em casa com outro, de porta trancada, e ainda me pergunta quem é!?". Começava a confusão. Bradava, batia e chutava a porta enfurecido. O escarcéu que "seu" Antônio aprontou foi tamanho que chamou atenção dos vizinhos. Mas o vizinho era sua própria casa. Só ele não percebera. No meio do reboliço sua esposa apareceu no muro, chamando baixinho: "Antônio!, ô Antônio!"
Olhou de lado e não entendeu mais nada. Demorou uns minutos pra se dar conta. Tirou o jipe da garagem do vizinho e deixou as explicações para a mulher. Não era homem de ficar se explicando…
Titulo: Porta trancada
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 1 de agosto de 2003
Resumo: um dos causos que ouvi por aí
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Alê, essa (e outras histórias familiares) povoam minha vida como se fossem células vivas, como pele e fígado. Muito importante q essas peças fundamentais façam parte da vida dos Piccolo, pois pouco ou nada mudou, no entanto a sensação é de q tudo mudou. Q pena! Parabéns. Marilda