Que dia!

Conto por Leonardo Augusto
28 de maio de 2003

Só percebi quando já estava no trabalho. Olhei para baixo, sentindo um calor inexplicável, e percebi que por debaixo de minha camisa branca havia algo escuro e volumoso: meu corpo estava coberto de pêlos. Isso seria aceitável se eu os já tivesse, mas acordei de manhã tão liso como sempre fora. Na verdade, nunca tivera pêlos, a não ser é claro na região pubiana e no rosto, incipientes como os de um pré-adolescente, apesar de já ter entrado na casa dos trinta. De início achei estranho, mas tentei ignorar. Dali a pouco um colega comentou: eu estava coberto em suor e meus braços estavam peludos.

Respondi que era impressão dele e arranjei logo um pretexto para sair. No banheiro da firma, tirei a camisa e comprovei que estava mais hirsuto que um orangotango. Aí sim me permiti ficar assustado. Fui embora para casa, deixando trabalho por fazer e meu paletó com minhas chaves de casa dentro. De modo que até que minha esposa, Aline, chegasse, fiquei na varanda, atônito, ora chorando, ora rindo, vendo meus pêlos crescerem ainda mais, e em meia hora progrediram meio centímetro.

O que me primeiro passou pela cabeça foi ver um médico. Afinal de contas, tudo tinha de ter uma explicação, e a medicina era a quem eu sempre recorria. Quando minha mulher chegou, eu estava ao telefone celular, tentando entrar em contato com o Dr. Machado. Tão logo me viu se assustou e desceu de volta os degraus da escada gritando e só se acalmou quando reconheceu minha voz ? e perguntava, meu querido, meu querido, o que houve?

Quisera eu, é claro, poder explicar. Disse que no meio do serviço estava assim e que meus pêlos não paravam de crescer e que o Dr. Machado não atendia, e falava com uma voz de criança assustada. Aline não se conteve e desatou a rir feito louca, e eu não lhe podia tirar a razão, mas lembrei que ela teria que fazer amor com um símio aquela noite e ela não achou engraçado.

Olhei no relógio, eram mais de seis, pensei: talvez no camelô da esquina alguém tenha uma máquina de barbear, ou de tosquiar, no caso; e me senti uma ovelha: imaginei alguém usando um suéter de pêlo humano ? meu pêlo ? e o ridículo se juntava ao trágico e já não sabia mais como reagir. Saí feito louco, sem explicar nada a Aline.

As barracas de vendedores ambulantes já estavam sendo desmontadas, e procurava vislumbrar uma com eletro-eletrônicos, que sempre aparecem quando não se está precisando, mas em vão, não via nada. Parei para perguntar à moça do pastel, e ela me disse que conhecia sim o cara que vendia o maldito aparelho, mas ele já fora embora, havia uns dez minutos. Tentei de novo o número do Dr. Machado, que atendeu na maior tranqüilidade.

Sim, já soube de sua condição, meu caro, não se assuste.

Como assim? Como já sabe, como não se assuste?

Sua esposa me ligou e expôs o caso, hirsutismo eventual espontâneo, não é de todo raro.

Raro? O senhor já viu alguém com cachos no peito? Como aqueles dos rabinos? Doutor, eu acordei quase imberbe e me tornei uma aberração em poucas horas!

Claro, claro, me diga, você tem consumido muita proteína?

Como assim? Bem, sim, esta semana eu fui à churrascaria, na última também…

Está vendo, está explicado.

Explicado uma pinóia, quantas pessoas vão à churrascaria sem se tornarem o elo perdido? O que eu quero saber é o que eu posso fazer para reverter esta condição ridícula. O senhor pode me atender afinal?

Bem, vejamos, posso abrir um horário amanhã no fim da tarde.

E até lá o que eu faço? Estou com trabalho atrasado e não posso faltar…

Eu lhe envio um atestado médico pelo fax. Fique tranqüilo.

Era de fato o que me restava, ficar tranqüilo. Mas o calor de uma primavera, combinado com tal cobertura capilar, me sufocava e me impedia de dormir. Minha distração maior era aparar meus pêlos a cada hora e tentar estimar em quanto tempo se encheria a caixa da TV, que peguei para dispensá-los. Pouco antes de isso acontecer, acabei pegando no sono ? por volta das seis da manhã.

De repente estava no meio de um sonho muito real. Num bosque agradável, ouvia pássaros cantarem, águas sibilantes de uma cachoeira próxima, até algumas borboletas completavam o cenário bucólico. Nem me passou pela cabeça conferir meu estado capilar, mas me sentia normal, e sabia estar totalmente nu. Dali a pouco apareceu a protagonista da trama: uma bela jovem, também nua, de corpo muito desejável e longos cabelos muito negros ? mas sem pêlos pubianos. Ela sorria tímida mas convidativa, e se afastava de mim, ora se escondendo atrás de uma árvore, ora revelando-se em todo seu viço. Chegamos a uma formação rochosa que oferecia abrigo, à frente da qual ela estancou. Decidido, lacei-a com um braço e dominei seus lábios com os meus, enquanto a conduzia para a caverna. Não sei se tropecei ou se fui empurrado, mas me vi no chão, com ela por cima conduzindo um ato sexual sôfrego e bestial. Foi quando senti seus pêlos, que há pouco não os tinha, contra minha pele, e rapidamente eles cresciam e dali a pouco toda sua figura foi substituída por uma enorme massa de pêlos…

Acordei sobressaltado, ofegante, e só depois de poucos segundos reparei que voltara ao normal; sim, meu corpo voltara ao que era e um enorme sorriso me tomou o rosto, depois se transformou em desbragado riso de contentamento. Levantei e fui até o banheiro saborear meu novo ? ou velho ? visual, olhando-me no espelho de cima a baixo, chegando até a sapecar uma beijoca no frio vidro que me devolvia minha expressão extática, bobo como uma criança.

Foi assim que minha mulher me encontrou, quando trazia meu almoço, e veio compartilhar de minha alegria, me beijando e acariciando como há tempos não fazia, desesperada e apaixonadamente. Aonde isso conduziria estava óbvio, e então a lembrança do sonho me trouxe um calafrio súbito. Mas era um medo tolo, é claro, e me entreguei aos afagos de Aline, devolvendo-os em dobro. Estávamos na cama em poucos minutos, e depois de muitos outros lá continuávamos, quando a campainha do telefone disparou a tocar. Obviamente ignoramos o chamado, mas como a secretária eletrônica atendia às ligações após o quarto toque, não escapamos de ouvir a voz do Dr. Machado:

Eu sei que você não saiu, atenda! Bem, uma paciente cancelou a consulta e como eu almocei perto da sua casa estou passando aí para consultá-lo. De qualquer modo, me ligue assim que puder.

Estava dissipada qualquer dúvida de que as aventuras da véspera haviam sido reais, e não um sonho ou delírio como cheguei a pensar. A menos que de fato eu houvesse fantasiado tudo e ainda assim ligado para o Dr. Machado, mas e Aline ? teria ela tido a mesma alucinação? Não, essa hipótese era absurda. O fato é que meu médico se encaminhava para minha casa onde minha esposa e eu desfrutávamos não só uma tarde de serviço matada mas principalmente um furor sexual como há anos não experimentávamos. E eu não poderia sequer provar a ele, ou a meu chefe no escritório, o que tinha me ocorrido ? e corria o risco de passar por louco se insistisse na verdade. A menos que fizesse o teste de DNA com o cabelo que enchia a caixa da TV

Aí eu tive, num estalo, uma idéia genial. O Dr. Machado não sabia de meu restabelecimento, então o cabelo da caixa serviria para pregar-lhe uma peça e me vingar de sua indiferença ante meu drama. Comuniquei a idéia a Aline, que a tacitamente aprovou arregalando os olhos. Levantou-se num salto e correu ao escritório para buscar tinta guache, que lhe pareceu a cola ideal para o fim, e trouxe um pote de uma cor próxima à da minha pele. Ainda exercitou seu sarcasmo lembrando que era a primeira vez que via utilidade no meu casamento anterior. Repreendi sua crueldade gritando da sala que meu filho não merecia seu veneno e voltei carregando a caixa, e emendei que era a primeira vez que via utilidade em trocar de televisor.

Deitei-me seminu como já estava e ajudei-a a lambuzar meu corpo com a tinta, sentindo uma alegria indizível ? inocente e pura ? e concluí que todos deveríamos ter várias infâncias na vida, ou viver uma infância eterna. Findo o primeiro passo, Aline passou a jogar os tufos de pêlo em mim e eu os arranjava de modo a esconder a tinta. E ela ria alto, brilhando, linda, gritando, rindo, minha esposa, vejam só, que orgulho que sentia. Estava prestes a explodir de alegria e só então me lembrei que devia tudo ao inusitado episódio da última tarde.

Pedi-lhe que fosse telefonar ao médico enquanto começava a me concentrar para parecer doente e transtornado ? seria difícil não irromper em riso. Quando ela voltou me disse que ele estava quase chegando e me beijou com volúpia, obrigando-nos a um retoque em minha máscara peluda. Pedi que trouxesse um espelho, e quando me vi confesso que me assustei. E pensar que na adolescência cheguei a sentir complexo por minha compleição delicada, agora me sentia privilegiado!

Em poucos minutos chegou o Dr. Machado, que não demorou a perceber algo de estranho. Obviamente fomos nós que não demoramos a dar deixas da farsa com risinhos mal dissimulados. E era mais que previsível que bastaria um exame superficial, ou antes um puxão nos pêlos, para que ele se descobrisse ludibriado. Dr. Machado tinha excelente senso de humor, desde que o autor da piada fosse ele, e saiu cuspindo marimbondos, sem se preocupar em receber explicações ? que também não oferecemos. Somente gargalhávamos até perder o fôlego.

É uma pena que ele fosse meu médico havia tanto tempo e depois nunca mais me dirigisse a palavra. E também que eu tivesse meu salário descontado por uma falta não justificada. Mas, acreditem, nada paga um dia como aquele.


Titulo: Que dia!

Autor: Leonardo Augusto

Gênero: Conto

Data de publicação: 28 de maio de 2003

Resumo:

Pêlos demais…

3 Comentários

  1. Herbie disse:

    Cara, mandando bem de novo.Que dia!

  2. Alexandre Piccolo disse:

    hehe, viagem “cabeluda”…

  3. PH disse:

    Excelente conto, Léo. Surreal e prende a atenção do início ao fim. Parabéns!

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