Que Domingo!

Conto por Márcio Sampa
10 de fevereiro de 2003

Leonardo, este era o seu nome. Lhe caía bem, sempre pensava consigo. Afinal, era o nome de um grande gênio. Mas para os amigos, que não eram poucos, era Léo mesmo.

Naquele Domingo, Léo levantara disposto a dar uma bela caminhada pelo parque da cidade. Não, ele não iria à missa, apesar do hábito semanal. Léo queria caminhar.

Vestindo sua bermuda cáqui, tênis, meias e camisão, Léo foi de encontro ao belo dia de sol. Que Domingo, não cansava de repetir a si mesmo.

Léo queria apenas caminhar, nada de pensar no bolo que levara da namorada na Sexta ou da demissão do bom emprego, já há três semanas. Que nada, o rapaz tinha a cabeça muito boa. Logo arrumaria outra garota e outro emprego. Este era o comentário geral.

Caminhando despretensiosamente, Léo chegou ao parque, que até não estava muito cheio. Devia ser em função do horário. Sentado à beira do lago, ele lhe atirava pedras como se fosse fazê-lo para sempre. Às vezes, as atirava de lado, enviesado, para que elas tocassem o espelho d?água, três ou quatro vezes, antes de afundarem. Desde criança ele sempre gostou de fazer isto.

Desde criança Léo também sempre quis entrar na casinha velha, enfiada no meio do magnífico bosque que dominava o parque, era de acesso proibido. Diziam que muito antes de a cidade crescer até ali, havia ocorrido um crime em seu interior.

Talvez por superstição, por falta de vontade ou sabe-se lá o quê, a prefeitura não permitia o acesso às dependências da casinha. Mas era um Domingo tão bonito, tão de bem com a vida. Não, nada poderia ser proibido hoje, pensou Léo. Muito menos saciar uma curiosidade de infância.

Tomado de um impulso, ele se levantou e caminhou, agora resoluto, para o interior do pequeno bosque. Que mal poderia haver naquilo tudo? E depois, os últimos dias lhe haviam sido duros. Não, não, hoje o dia era dele. Que Domingo!

Léo se aproximou da cabana, é, porque aquilo estava mais pra cabana do que para casa. Circundou-a e, bingo, era mais fácil do que parecia. Era só forçar um pouco a janela e, pronto, mais uma frustração infantil que se ia.

Olhando atentamente para os velhos móveis e quinquilharias que enchiam a casa, Léo não se apercebeu da chegada do guarda municipal. Será que este rapaz não sabe ler? Só poderia ser isto. Somando ação aos pensamentos, o guarda chegou a assustá-lo, fazendo esta mesma pergunta, só que agora em alto e bom som.

Léo seria autuado. Era o que dizia a placa. E o guarda estava lá para cumprir a lei. O mundo parecia girar agora, tudo parecia rodopiar com uma velocidade incrível. Da mesma maneira que ocorrera quando o Vítor falou que não daria pra segurar, a ordem tinha vindo de cima, contenção de despesas. A mesma tortura de Sexta à noite, quando Bárbara lhe disse que estava saindo com outro alguém. Parece que já fazia algum tempo. Ela só não queria ferir seus sentimentos. Não queria ferir… O quê? Identidade? Ah, sim, anote aí, 13.666.666 e ponha na conta dele. Rápido, muito rápido, Léo puxou a Glock 9mm que estava por baixo do camisão e deu dois tiros na cabeça do guarda. Ele só se lembrou de prestar atenção nos olhos do homem, pulando pra cima e pra baixo, num movimento mais veloz do que aquele que ele fizera pra sacar a arma. A mesma arma que ele comprara há menos de 24 horas, a mesma arma que Léo levou ao ouvido e que estourou seus miolos.


Titulo: Que Domingo!

Autor: Márcio Sampa

Gênero: Conto

Data de publicação: 10 de fevereiro de 2003

Resumo:

um conto dominical

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Quem é Márcio Sampa?

Jornalista, por vocação. Idealista, por opção

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