Conto por Alexandre Piccolo
27 de outubro de 2003

O senhor J. entrou tão correndo e apertado em casa que nem percebeu a viatura de polícia parada na frente do prédio. Subiu desconcertado dois lances de escadas até seu apartamento, meio segurando as calças, e, quando abriu a porta, o susto quase lhe fez mijar nas calças. O delegado T. veio logo pra cima, de arma em punho.
_ O senhor se acomode se não te arrebento a cara.
_ Mas o que foi que eu fiz? Não fiz nada… E preciso ir no banheiro…
_ Não vai a lugar nenhum, senta aí se não te estouro essa cara de malandro.
_ Calma, calma, delegado - intervinha o escriturário S., que veio de ajudante.
A pasmaceira da cara do Sr. J. deixaria qualquer um desconcertado. E pior, sendo forçado pelo ombro a se sentar na cadeira, com uma enorme vontade de ir ao banheiro:
_ Gente, antes de qualquer coisa, preciso ir no banheiro…
_ Não vai a lugar nenhum, seu salafrário. Fica comendo a mulher dos outros e acha que vai escapar ileso, né?!
_ Que história é essa? Eu…?!
_ Não se finja de inocente…
_ Eu não sei de nada…
_ Não me venha com essa, o senhor anda saindo com minha mulher e ainda se faz de bobo, é?!
_ Eu não fiz nada, não sei nem quem é sua mulher.
_ E ainda quer negar, seu safado! Come minha mulher e diz que não sabe quem é?! Eu te meto chumbo nessa cara de malandro.
_ Como comi sua mulher?! Eu nem sei quem é sua mulher…!
_ Ah, não sabe, é?! Vai dar uma de otário agora?! Faço você lembrar rapidinho… - e saca a arma já apontada pra cara do Sr. J.
_ Calma, delegado.
E, de novo, o escriturário S. tentava esfriar os ânimos do delegado T. Este, furioso e inflexível, continuava:
_ Não discuta comigo. Quem diz aqui o que é ou não é sou eu. Já estou sabendo de tudo, não me venha com lero-lero. Não vai adiantar. Já pensei muito, podia acabar com um tipinho como você agora. Mas ainda vou te dar uma chance, estou sendo bonzinho: é sair da cidade hoje, agora, agorinha. Ou chumbo. Você escolhe.
J. quase esquecia que estava apertado. No susto, entendeu todo o dilema em que estava metido. Pediu novamente, com uma ênfase mais que solícita, para se aliviar - pedido atendido graças à insistência fraterna do compreensivo olhar do escriturário S.
Enquanto curtia o prazer de tirar água do joelho, J. tentou refletir toda esta loucura. Não via outra saída, teria que atender ao delegado chifrudo e furioso. Entre a bala e a viagem, escolheria a segunda e aproveitaria o inusitado da ocasião para descansar, sair da cidade, visitar Angra. Há dias adiava o passeio dos seus sonhos. Aliviado da bexiga, abriu tranqüilo a porta do banheiro ao que T. lhe veio correndo no pescoço:
_ Escute aqui, seu safado, devia é te mandar pra debaixo da terra mas estou sendo seu amigo. Esta carteira é de estimação e tem trezentos reais. Quero você longe daqui agora. É pegar e sumir, desaparecer, ou… - e batia na arma à cintura, já dentro do coldre.
Com um olhar desconsolado, J. pegou a carteira das mãos de T. Uma carteira bonita, com um grande T discreto e bem bordado por fora. O delegado e o escriturário S. saíram enquanto J. se prepararia para juntar algumas camisetas e outras roupas numa sacola. A viagem era uma certeza em poucos minutos.
T. e S. voltaram à delegacia e quando lá chegaram receberam a notícia para irem correndo à casa do delegado. Algo de urgente acontecera com dona C. O delegado disparou na viatura com seu ajudante. Desceu num vento, abriu correndo o portão, a porta de casa, já chamando por C. Nada. Meio desconcertado, encontrou apenas um bilhete sobre o fogão da cozinha.
"Não consegui mais aguentar. Fui embora com P. e prefiro que você saiba por mim. Me desculpe, não tive intenção de traí-lo com seu melhor amigo, mas a vida arma dessas ciladas inevitáveis. E você mesmo vivia repetindo essa frase. Enfim, adeus. Agora não mais sua, C."
Era T. quem não podia mais suportar o terror da corda lhe sufocando o pescoço. Enquanto tentava desapertar o nó da gravata que não usava, lembrou do dinheiro, da carteira de estimação, do engodo, tinha de salvar aquela economia. Correu de volta ao prédio do senhor J. Lá o porteiro lhe informou que acabara de partir, questão de minutos. Caiu duro no saguão do edifício, sem a carteira de estimação, sem o dinheiro, sem a mulher e sem seu melhor amigo.
Titulo: Questão de minutos
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 27 de outubro de 2003
Resumo: uma dessas histórias literariamente verídicas.
mais um belo “causo”! vc está virando um ótimo contador: tem aquele do barra-chorona, tem o senhor que entrou da casa errada, mais este… ótimos!
Moral da história: o cornudo está sempre vendido, hahaha!Vamos marcar logo esse chopp, então…Abração!
Hehehe! Mais um ponto prá você!Simples, bem sacado e muito bom!Parabéns!
Ótimo conto, Piccolo! O uso das primeiras letras não apenas dá nome aos bois, como também cria o mistério de ser possivelmente real, resguardando o nome dos participantes, ou então uma história tão real e possível que muitos nomes podem se encaixar nas letras. Parabéns!
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Alê, o q será verdade e mentira? O q é mais importante a mulher ou a carteira? No meio do caminho achei que o amante fosse o solícito S. acabei surpreendida. Um bj, Marilda