QUITE

Conto por Tânia Toffoli
8 de junho de 2005

Estava deitada de olhos fechados; flutuava sobre o colchão com a cabeça pousada sobre o travesseiro macio e levemente perfumado. Ouve a porta se abrir vagarosamente, mas finge dormir, calma… passivamente… Sente a proximidade cada vez maior de seu rosto. Um beijo. Sorri. Abre os olhos…

Só mais um devaneio, só mais um entre tantos. Vive a decepção de ter que se conformar em estar perdida no mundo perverso da realidade. Ele ainda podia aparecer… Não acreditava realmente nisso, mas tentava desesperadamente convencer-se de que acreditava. Não podia aceitar ter que tomar uma atitude decisiva. Mas devia isso a si mesma. Ainda podia sonhar, era cedo… muito cedo. Ele não veio.

Chegou a noite e, com ela, a incansável insônia, intempestivamente, insistindo em fazê-la pensar em cada uma daquelas palavras tão doces e sinceras. Sentir novamente tudo aquilo a que as lembranças nos obrigam dia a dia, sem qualquer piedade. Na penumbra do quarto via sombras movendo-se do lado de fora da janela, mas nada, absolutamente nada, podia desviar seus pensamentos daquelas terríveis dúvidas que a atormentavam tão insistentemente. Não era capaz de lembrar-se o que dera errado. Não era capaz de encontrar lógica nessa seqüência tão nefasta de fatos.

Desistindo de experimentar a tranqüilidade genuína que traz o sono, acende a luz e, perdida, procura por algo a sua volta que pudesse distrai-la… Poe. Perfeito. Toma o livro em suas mãos e passa a lê-lo por alguns instantes. Envolve-se com a leitura e relaxa por algum tempo. Pouco tempo. Cada trecho do livro a remetia a uma nova lembrança que a arrastava inexoravelmente a algum daqueles sentimentos absurdamente depressivos que por algumas vezes nos envolvem com suas garras e nos sugam qualquer resquício do que um dia fora um sorriso. Parava. Inerte. Seus olhos opacos fixavam-se num ponto sem importância da parede ou da janela e assim permanecia por alguns minutos sem que qualquer pensamento invadisse sua mente; apenas a dor. Mas as migalhas de “não-sofrer” que lhe permitiam o livro por alguns instantes a fizeram insistir desesperadamente na leitura com a esperança de afastar aquele tormento. Assim, acabara de ler todo o livro. O momento de paz se esvai e volta a tempestade que a levava através da vontade dos ventos.

Passavam-se mais e mais noites e nada mudava; a insuportável situação a sufocava cada vez que o sol se punha e as pessoas voltavam para suas casas deixando-a só, com seus pensamentos a ecoarem em seus ouvidos. Acostumou-se à essa rotina de intenso sofrimento, mas não à falta de respostas plausíveis para suas atormentadoras dúvidas. Ele levava a mais tranqüila das vidas e ali estava ela a debulhar-se em lágrimas que sabia não valerem por aquele motivo. Todos os dias chamava-se tola, mas de nada adiantavam as verdades serem ditas, pois nada havia que seu raciocínio pudesse fazer. Ainda precisava de respostas. Respostas essas que nem se lesse toda a obra de Poe poderia esquecer-se de que precisava delas tanto quanto de ar para que não sufocasse terrivelmente naquele oceano de incertezas.

Os dias passavam. As desesperadoras respostas não vinham. As dúvidas se multiplicavam em progressão geométrica. Não havia nada que pudesse fazer que já não houvesse sido feito. Fingia não se importar. Fingia se conformar. Fingia esquecer. Fingia viver…

Sua inquietação era insustentável. Há dias não dormia e isso transparecia em forma de sórdidas olheiras que cresciam com o passar de mais e mais noites em claro. Estava sentada no sofá, como uma manequim de vitrine, pálida, imóvel, desumana. Toca a campainha. Roboticamente levanta-se e abre a porta. Seus olhos deparam-se com a única imagem que podia acalmá-la. Seu rosto transforma-se lindamente na mulher feliz e completa que sempre fora, com olhos brilhantes e um sorriso gentil.

- Por que?

Assim vieram as respostas e o seu cérebro intermitentemente a funcionar numa seqüência de imagens e lembranças pôde entender perfeitamente o que havia ocorrido, em que momento tudo havia se perdido e se tornado esse deserto que hoje vislumbrava.

Toma uma forma glacial tanto em corpo como em alma; água fazendo-se de rocha. Suas gélidas mãos tocaram a adaga decorativa em cima do pequeno e delicado móvel da sala e, segurando-a resolutamente cravou-a no duro coração dele; aquele homem que a olhava nos olhos com espanto tentando penetrá-los sem sucesso. Ela cruelmente gira a adaga várias vezes vendo-o contorcer-se em infinita dor. Uma expiração de alívio sai pesadamente de sua boca ao vê-lo sofrer tão terrivelmente. Ele desaba no chão com os olhos ainda abertos em uma dúvida dolorosa. Ela sorri angelicamente para ele ensangüentado. A passos leves caminha em direção ao quarto, pousa o corpo suave sobre o colchão e adormece tranqüilamente num sono profundo onde doces sonhos esperavam por ela.


Titulo: QUITE

Autor: Tânia Toffoli

Gênero: Conto

Data de publicação: 8 de junho de 2005

Resumo:

Só mais um devaneio, só mais um entre tantos. Vive a decepção de ter que se conformar em estar perdida no mundo perverso da realidade.”

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Quem é Tânia Toffoli?

Estudante de letras, 19 anos, amante da literatura.

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