Conto por Alexandre Piccolo
4 de julho de 2003
Ando atormentado, perseguido. Não sei ao certo o que é, mas ando perturbado. Não estou doente, já ouvi quem tentasse me impor essa doença, mas sei, tenho certeza e não nego: não estou doente. Estou perturbado, acho que me perseguem e isso me abala.
Vai ver foi o episódio de ontem que mexeu comigo. Quando foi mesmo? Não sei. Também, tudo se deu tão de repente, tudo junto, impossível não suar, não deixar transtornado. Eu e minha velha mania de viradas. Isso tem que parar. Se continuar achando que tudo deve ter uma virada, um ponto de inflexão entre o que era e o que será, elouqueço. Definitivamente enlouqueço. Deve ser esse o ponto que tanto espero. Acordar louco, depois de um relance de luz branca e que me deixe cego, despertar num novo mundo, com as mesmas pessoas mas com olhares e texturas diferentes, como se adornos e detalhes de ourivesaria estivessem levemente fora de lugar, e só eu percebesse a diferença, quieto, calado. Talvez já esteja louco. Não. Estou perturbado, suando, mas não louco.
Confesso que faz já um bom tempo que espero essa mudança, esse dia fatídico. Não sei exatamente pelo que espero, sei que algo acontecerá, me deixará mudado. Todas grandes mentes da Humanidade relatam isso. “Um belo dia, ele acordou diferente”. Parece que esta frase se repete a todos que usam a razão como o pensamento consciente fundamental de sua existência. Foi assim com centenas, não muitos, centenas. Com Dostoiévski foi assim, certamente, um belo dia ele teve uma luz, um grito, um sopetão surdo que o cegou e o fez ser quem ele é, o tranformou por completo. Sócrates também teve isso, talvez tenha sido a esposa megera ou qualquer outro tropeço na praça, mas certamente também teve seu ponto de inflexão. Já há tempos aguardo este dia, não sei o que esperar, mas sei que algo virá, certamente virá.
E fiquei assustado com o acontecido. Será que foi isso? Acho que não, teria mais certeza, estaria abalado como o condenado à morte que retorna, ou mesmo como Lázaro, sem entender nada do que se passa e continuar vivendo normalmente, sem questionar o que se dera. Transformado. Ainda tenho dúvida. Teria sido? Foi estranho, por certo que foi, mas ainda tenho dúvida.
Levantei cedo, empurrado para fora da cama sem vontade, como sempre. Tomei banho, comi um pedaço de pão, vesti meu sobretudo ? refiz a mesma rotina cotidiana já há séculos repetida ? e fui a pé pro trabalho. Bom dia ao porteiro, sorriso falso na cara, remelas ainda importunam a visão que volta a embaçar, parecem querer a cama e me dizer: volte, pra que sair e acordar todo dia e repetir a mesmice da mesmice sem sentido a sua existência! Caminhei a contragosto, indisposto, mas enérgico e já automatizado, rumo ao mesmo escritório de todos os dias. Cruzo a esquina, o movimento de sempre nas ruas, mulheres e homens apressados atravessam a banca de frutas de toldo azul no meio da calçada, pastas, papéis e outros pertences se entrecruzam balançados no ritmo frenético da cidade que não vê para onde vai. E eu ali, mais um, mas de mãos abanando e a cabeça nos pés que pendulavam meu pensamento. Olhar baixo, sem sorriso e ao subir de volta à calçada um esbarrão. De leve, um encontrão em meu ombro direito, tipo raspão, mas que me faz acordar, levantar a cabeça e ter o susto de minha vida.
Ergui os olhos e me vi. Faltou ar ao meu peito. Esbarrei comigo andando na calçada, voltado do nada ao lugar nenhum. O mesmo eu, cabisbaixo, ensimesmado, casmurro, nos passos ondulantes e vazios tropeçando em mim mesmo! E só tive certeza que era eu pois meu outro eu agiu como eu agi. Um leve e controlado susto nos acometeu por um instante incalculável, durou-lhe a imensidão de medo que relampejou para mim. Sincronizadamente, já baixando os olhares, dissemo-nos “desculpa”, fria e polida segundo pedia a ocasião. E passamo-nos sem perceber. Ele acelerou o passo como eu, com um calafrio na barriga que me fazia andar mais rápido. Olhei para trás sem parar. Ele andava e olhou sem pestanejar também. Mirávamo-nos ao longe. Reflexo involuntário. Virei o rosto e voltei a caminhar, novos passos velozes, acredito que como ele queria também fugir dali, evitar o incompreensível. Suei. Certamente ele também suava. Ele não. Eu, passei por ali e esbarrei comigo mesmo, indo e voltando do trabalho. Mas era manhã, como poderia estar voltando? Que horas eram mesmo? Fim de tarde? Como estava indo para o trabalho uma hora destas? E pior, como esbarrar comigo mesmo, indo ao escritório? A esquina continuava cheia, frenética, pernas indo e voltando, como de manhã, como de tarde.
Cheguei em casa e tranquei a porta com furor. Tirei o sobretudo, estava quente do caminhar e do esbarrão. Não consegui dar calma a minhas pernas, perambulavam minha consciência pra lá e pra cá num frenesi sem igual, incansáveis. Tomei um copo d?água, escorreu pela camisa e talvez tenha começado a me acalmar. Lavei o rosto, tirei remelas do olho e resolvi me deitar no sofá da sala. Quem sabe assim durmo um pouco… Ainda estava tonto, o que tinha acontecido? Como pode? Preciso da explicação lógico-racional para respirar em paz novamente, mas não a encontro. Arfando, apago a luz. Não vi luz, nada me cegou. Fecho os olhos e aguardo. Quem sabe quando abri-los esteja já em outro lugar, em outro planeta, sonhando que vivi tudo o que vivi. Talvez acorde de um sonho. Não, não é sonho. Abro os olhos e não há luz. Só estou perplexo, preciso de calma. Tomo um remédio, mais água, quem sabe assim durmo um pouco…
Quando acordei estava mais tranqüilo. Lembrei-me do ocorrido e a lembrança contraiu meu abdômen, trouxe uma dor no peito inigualável, apertou-me algo por dentro como não sentira ainda. Respirei. O que acontecera? Era melhor não pensar nisso. Talvez esquecesse. Será que esqueceria. Levantei tonto, zonzo do sono e do medicamento. Seria o remédio? Quanto tempo dormi? Não sei. Sei que preciso de calma. O que aconteceu? Não sei. Talvez alguém esteja me perseguindo. Mas quem me persegue? Por que me persegue? Onde isso vai parar? Foi esta a virada? Mas não vi luz, não fiquei cego, estou o mesmo. Não, não estou o mesmo. Mas não sou o outro. Ou sou? Não sei. Sei que algo me persegue, mas não sei o quê, nem por quê, nem como me perseque. E se sequer me persegue. Será eu? Serei eu?
Titulo: Réplica
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 4 de julho de 2003
Resumo: alguma coisa me persegue…
Acho “surreal” modesto para esse conto…Excelente Lixandre!
Alê, a pessoa q vc vai se tornar está sempre olhando a pessoa q vc é agora. Podemos enganar e esconder coisas de qse todo mundo, mas a pessoa q vamos ser amanhã, nós mesmos, estamos sempre olhando. Esse alguém q nos olha pode causar nossa desgraça e ruína ou realizar nossos maiores sonhos. Tbem passei por isso sem ter um insight ou isso é o próprio insight? Bjs, Tia Marilda
Muito bom, Piccolo. Fluência nesse pesado fluxo de dúvidas remoendo esses homem “perseguido”. E a pergunta: quando virão nossas inflexões?
Boa Alexandre. Reflexão profunda sobre a realidade, com os tormentos e as dúvidas de sempre. Será que vc sente a dor daquele seu outro eu e vice-e-versa? Vc gostaria de estar na pele dele ou ele na sua? As coisas boas e as enrascadas seriam as mesmas? Muitas questões… Parabéns pelo texto.
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Estou sempre lendo os textos deste site; e confesso que me sinto cheio de espectativa para lê-los, neste último texto do Alexandre, pude sentir dentro do texto o “fato” ocorrido. Parabéns, pois tenho aprendido muito através da escrita dos textos.