Restaurantes contínuos

Conto por Alexandre Piccolo
7 de novembro de 2003

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© apiccolo

Há horas que tentava ler aquele texto. Recebera-o da mão de um amigo, dobrara e guardara aquela única folha de papel na pasta e partira para uma reunião. Falou de metas, objetivos, mostrou gráficos e planilhas. Depois dos apertos de mãos finais, deixou a tralha de trabalho no carro, pegou o texto e foi almoçar. Finalmente tranqüilo e sozinho, ansiava ler o escrito durante uma refeição calma, longe do mundo. Entrou no restaurante de sempre, cumprimentou a moça à portaria com um tradicional aceno dos olhos, escolheu a mesma mesa de canto de sempre, deixou chave, carteira e papel sobre a mesa, lavou as mãos e se serviu despreocupadamente. Sentou-se em paz, melhor se acomodou na cadeira de madeira, deu as duas primeiras garfadas e desdobrou o papel. Um título obscuro. Às primeiras linhas do escrito se viu invadido. Por breves segundos se ocupou dos vizinhos de mesa no restaurante, se sentiu olhado e acabou disfarçando uma pretensa humildade. Enfim esticou os pés sob a mesa para confortavelmente seguir pelas palavras, queria sobrevoar a invasão da curiosidade alheia com o silêncio concentrado da breve leitura. Corria rapidamente um parágrafo e percebia o drama do protagonista, um rebelde injustiçado, rosto retorcido de fome, uma dificuldade para sobreviver no duelo de um mundo atroz, ríspido, e num átimo suspirou um prazer secreto e imenso em sua momentânea regalia, as garfadas cheias e cheirosas, a bebida doce e o mastigar vigoroso, que ditavam uma cadência galopante ao emaranhado daquelas pequenas palavras no papel. Encenava na memória prodigiosa o nervoso andar labiríntico do personagem, uma busca vital de um montante que lhe pagasse uma velha dívida com antigos inimigos, grandalhões que lhe fechavam o cerco, sapatos que no texto soavam tensos e se emaranhavam ao andar dos convivas no salão. Notou os grupos que se levantavam e fugiam com uma triste satisfação de almoço terminado.

Um gole, reparou pacientemente ao redor do restaurante, agora nem cheio nem vazio, e por fim se sentiu ignorado. Retornou ao drama, avançava um parágrafo e, quando se dirigia com o protagonista ao encontro de seu credores, distraiu-se com o murmurar de uma mesa à esquerda, onde almoçavam pai, mãe e filha, uma adolescente de blusa caqui e seios fartos. Fitaram-se mas logo se desviaram, ela se deliciava na sobremesa em que ele devaneou antes de mergulhar novamente no texto. Prosseguia voraz rumo às últimas garfadas e palavras, entrevia o embate entre o personagem e seus algozes, diálogo de uma discussão granulada e amarga. Patrão e capangas miseráveis açoitaram uma dignidade ferida, enfureceram-no ao limite da explosão. Talheres cruzados e uma golada final digeriam a raiva ácida deste protagonista raivoso, homem de uma satisfação vilipendiada que o impulsionava ao embate sedicioso. Não aguentou mais pressões. Perdeu a cabeça, tudo aquilo terminaria mais cedo ou mais tarde, decidiu que era melhor se demitir, culpar e ofender todo o mundo por injustiças sem fim. Ao menos se saciaria naquele breve instante. Bateu forte a mão na mesa de reunião, xingou todos os brutamontes e hipócritas ao redor e saiu dali furioso para um abrigo próximo, um restaurante na esquina. Ofegante, ainda nervoso e atarantado, nem cumprimentou a moça à portaria. Atravessou o corredor, a porta de vidro, parou ao final dos degraus da entrada e contemplou o ambiente, nem cheio nem vazio, e viu um homem sentado sozinho numa mesa de canto, quieto, almoçando e lendo um texto.


Titulo: Restaurantes contínuos

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 7 de novembro de 2003

Resumo:

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8 Comentários

  1. Herbie disse:

    Caraca…Arrepios!! Muitíssimo boa a sacada recurssiva..;) Valeu!

  2. Samira Marzochi disse:

    Escrita de mestre! Que fluidez…

  3. Marilda Piccolo disse:

    Oi Alê, adoro essa sua mistura de ficção e realidade (o q seria da realidade sem a ficção? ou ainda: o q é a realidade senão uma eterna ficção redescoberta…). Muito bom. Um bj, Tia Marilda

  4. PH disse:

    Boa, Alex! Sabendo ainda do contexto geral, do restaurante e das demais linhas de pensamento, o conto vira um curta… e que curta…

  5. Bruno disse:

    Demais! Piccolo, você se mostra uma versão literária em prosa do desenhista Escher.

  6. Mário disse:

    Excelente, Piccolo. A boa escolha das palavras construiu um texto tenso, onde se alternam os olhares desconfiados às demais pessoas do restaurante e o texto que, finalmente, dáo o empurrão ao estouro. Sim… hipócritas. Parabéns.

  7. Marco A. Ribeiro Feitosa disse:

    Muito bom! Fechos não fechados!! A roda?

  8. mina disse:

    Seu texto deixou um vácuo pela quarta vez na minha cabeça!!que coisa…

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