Richard ou Ricardo?

Conto por Claudia Lins
2 de julho de 2004

Sala de bate-papo na net. Vanessa sai à caça. Na verdade ela ainda não sabe direito como partir para o “ataque virtual”. É a primeira vez que se lança à aventura de procurar alguém que de verdade nem vai chegar a conhecer.

Preciso de um nick name”, repete para si mesma mentalizando o conselho de Carla, a amiga internética. Não consegue pensar em nenhum. O som alto da banda de garagem que ensaia na casa da esquina interrompe o fluxo de seus pensamentos.

Abre a janela, despeja meia dúzia de palavrões e volta para a frente do computador. Antes passa pelo mural de fotos ao lado da cama. Estica a mão e lá se vai mais uma foto de Guto para a lata de lixo.

Amanhã queimo todas”, pensa em voz alta.

A conexão com o provedor de internet está uma porcaria. Impossível acessar qualquer página sem perder a paciência.

Conhecer o outro é um processo que permite o cair de máscaras, o que nem sempre ocorre nos relacionamentos virtuais”, aconselhou a terapeuta quando ela decidiu antecipar a premeditada decisão.

Revoltada decide esquecer a analista quarentona. “Psicólogos, psiquiatras, terapeutas, todos uns mal resolvidos querendo solucionar a vida dos outros!”, esbraveja.

A mãe bate na porta do quarto, quer saber com quem ela está falando. Vanessa já não sabe o que diz. É o saldo de seis latinhas de cerveja e um baseado.

Muito doida, experimenta acessar uma nova sala de bate-papo.

- Tem alguém com cérebro aí? – provoca.

A pergunta em tom arrogante não encontra resposta. Pensa em Guto, provavelmente aos beijos com sua namoradinha virtual em algum bar da noite Curitibana.

Em Maceió faz um calor insuportável, desses que só o ‘El Niño’ é capaz de produzir. Seis meses de namoro, planos para uma viagem a dois no ‘reveilon’, até deixar de sair com os amigos para agradar o individualista ela deixou. E tudo isso pra que?

Para ouvir de Guto às vésperas dele partir em viagem para Curitiba, que estava indo encontrar-se com a mulher de sua vida.

Uma “Zinha” que ele conheceu num site de paquera.

Passagem comprada, roupas na mala e o picareta mantendo filial “on line” por mais de quatro meses. Vanessa chorou, fez cena, disse que se ele fosse não tinha volta, depois implorou que ele reconsiderasse, mas nada adiantou.

Duas semanas e o cafajeste nem para mandar um postal. Por isso a decisão de vingar-se a altura. Com sorte arranjaria um namorado virtual naquela mesma noite e em tempo recorde o convidaria para um encontro.

Guto ia provar do próprio veneno ao descobrir o poder da ira de uma mulher traída…

Teclou novamente. Dessa vez, mais calma, e já com o tal nick name em mente, decidiu travestir-se de um ídolo. Janes Joplin, a cantora que preenchia a metade da parede de seu quarto num pôster de Wod Stock.

- Alguém está disposto a desvendar Janes? – teclou de novo.

A resposta veio rápido.

- Sempre, Janes. Te procuro faz um tempão. Porque demorou tanto?

A conversa engrenou num papo cabeça. Raul era um trintão intelectual e divertido. Economista, trabalhava na Fipe, dava aulas numa universidade de São Paulo, tocava sax num night club aos finais de semana e adorava Janes Joplin mais do que tudo na vida.

Os dois passaram horas falando da cantora, dos vinis em comum, bandas, discos e shows que assistiram relançados em vídeo. Reencontraram-se noites e noites seguidas naquele espaço virtual. Guto avisou para os amigos que ia esticar as férias por mais um mês.

Em pouco tempo, Vanessa começou a suspirar pelo amante virtual que dedilhava seu corpo sem sair do cyber espaço. E ainda compunha Blues especialmente para ela.

A vontade de conhecê-lo, tornou-se insuportável, depois de viver um orgasmo múltiplo diante da tela do computador. Decidiu que precisava encontrar Raul de qualquer jeito. Fizeram planos de morar juntos em Sampa, mas antes queria que ele conhecesse sua família, em Maceió.

A fotografia anexada a um e-mail carinhoso revelou um Raul comum e um tanto gordinho, mas Vanessa decidiu que o relacionamento deles ia transcender esse lance de “corpo”.

Raul marcou passagem e embarcou para Maceió. Ansiosos, editaram juntos um diário virtual daquele encontro.

5/10 3h PM

Penso em você 24h. Não agüento a ansiedade dessa espera!

(Janes)

6/10 8h AM

Hoje enquanto arrumava minha mala só pensava na emoção desse encontro.

(Raul)

6/10 12h PM

Sinto que nossas vidas estão pré-destinadas. Não sei se vou suportar até amanhã.

(Janes)

7/10 10h AM

Vou devora-la num abraço!

(Raul)

7/10 11h AM

Então vem!!!!!!

(Janes)

Vanessa estava tão ansiosa que nem dormiu na véspera do encontro. O choque entre realidade e virtual aconteceu logo no saguão do aeroporto.

O homem diante de seus olhos era 20 quilos mais obeso que o previsto, tinha cara de doidão e um defeito que considerava imperdoável: ele acumulava uma gosma de saliva no canto da boca enquanto falava. E céus, como falava!!!

Vanessa sentiu-se invadida por uma sensação de irritação à primeira vista. Desesperada, só conseguia repetir a mesma frase o todo tempo:

Meu Deus, o que eu fiz da minha vida?”

Precisou ter muito jogo de cintura para viver os três dias mais longos de sua existência e tão logo o avião de Raul cruzou o espaço aéreo do Zumbi dos Palmares, de volta a Sampa, correu para o micro escrevendo um e-mail que encerrava o romance.

Janes saiu de cena como numa overdose e a caixa postal de Vanessa quase explodiu nas duas semanas em que seu computador permaneceu desligado.

Por ironia do destino, Guto cruzou seu caminho visivelmente mais magro e arrasado. O chute da “musa virtual” não estava nos planos dele, por isso teve a idéia de recorrer ao amor de Vanessa pedindo arrego.

De volta ao aconchego do quarto, entre fotos de Joplin e o computador desligado, Vanessa ainda curtia a sensação de alívio depois do sonoro “NÃO” pronunciado diante de um Guto perplexo.

Sonha-se com o Richard Guere e o homem ideal não passa de um simples Ricardo”, sentenciou a terapeuta analisando aquela louca história.

Para Vanessa a onda de amores virtuais estava encerrada. E por coincidência ou não, já estava atrasada para um encontro real. Em 15 minutos, Ricardo, o vizinho vocalista da banda de garagem, saradão e um gato, ia passar para levá-la ao show de seu grupo.


Titulo: Richard ou Ricardo?

Autor: Claudia Lins

Gênero: Conto

Data de publicação: 2 de julho de 2004

Resumo:

Sonha-se com o Richard Guere e o homem ideal não passa de um simples Ricardo”,

1 Comentário

  1. Richard Gere disse:

    Eu sou o mais comum dos Ricardos…

Deixe seu Comentário

Spam Protection by WP-SpamFree

Quem é Claudia Lins?

É jornalista, carioca alagoana, seduzida pelo cheiro do sargaço (alga que é a cara de Maceió), e pelo verde-azul dessas praias maravilhosas, por aqui descobrindo um mundo de possibilidades e desafios. Antes de todas as paixões, apenas uma: escrever, escrever e escrever.

Bad Behavior has blocked 39 access attempts in the last 7 days.