Roça: fumaça, fogo e cinza

Conto por Alexandre Piccolo
10 de agosto de 2003

Lembro do tempo de criança, o pai juntando aquele povo todo, todo mundo pra fazer roça. O mato era grande naquele tempo, árvore pra tudo quanto é lado, cercava toda a sede, às vezes dava medo à noite, barulhinho do mato, frio, e a gente se escondia debaixo da coberta pra bicho nenhum pegar. Devia ser o mato que o povo derrubava que deixava tudo bicho solto, enfezado, com raiva de todos nós. Aí eles faziam barulho antes de dormir, só pra deixar a gente com mais medo.

Chegava tudo cedinho. Quando eu levantava, todo mundo já tinha tomado leite e ficava na varanda da casa, sentado na bancadinha ou no chão, esperando um ou outro atrasado. Fazia frio de manhã mas eles nem se importavam, às vezes esfregavam a mão num braço e pronto, o frio ia embora. Eu tomava meu leite e via eles irem embora, pra desbastar o mato. Meu pai coordenava tudo, mandava cada peão pro seu lugar e distribuía foice e facão. Mandava por ali, via eles derrubarem mato por mato. Caia tudo, árvore, bambu, folha grande, matinho, tudo, não sobrava nada de pé.

Na hora do almoço eles voltavam pra comer na varanda, tudo sujo, suado, com a respiração ainda quente e de barriga barulhenta, vazia. Comiam tudo. Aí ficavam estendidos na sombra da mangueira mode puxar uma palhinha, pança cheia e prostrada, olhar de peixe morto, suspiro pesado, triste. Aí vinha meu pai com a garrafa de café que tinha acabado de passar e levava o copo pra cada um, ia tomando e se animando, ficava esperto. Levantavam devagar, e todos de pé iam pra roça, terminar de ajustar um cantinho de mato ou outro que sobrou.

Rapidinho terminavam. Aí lá longe, em cima do morro onde perdia a vista, a gente via começar a fumaça, um fiozinho de nada subia. Soprava as nuvens de cinza. Parecia que era de veludo, misturava com o azul, limpo. Numa corrida até a bica, a gente voltava e parecia que tinha chegando mais perto, ia ficando cheio de fumaça escura, nuvem preta. Logo estava já perto o fogo. Era um fogaréu dos diabos, enorme, ia até o céu e queimava tudo. Nem passarinho nem urubu passava. Vinha aquela caloria e aquele fumacê todo pra perto de casa, ficava quente igual inferno, fedido, e a gente na varada com medo do fogo, não aproximava mas ficava lá juntinho pra ver tudo queimar, olhava bem atento, tremendo e meio querendo entrar. Aí as 'muié' vinha buscar os meninos e as meninas pra dentro, não era lugar de criança ficar. Íamos pra dentro e logo chegavam todos, tudo feio, suado e de roupa na cara, feito máscara pra aguentar aquele fumacê.

E anoitecia devagar. O sol ia embora triste, sumia sem a gente ver, e ficava o brilho do mato queimando, empesteando tudo de estalo e cinza. De noitinha o crepitar se acalmava, ficava tranqüilo, parecia uma fogueira fraca. De noite o trilili dos grilos ficava alto, empesteava de valgalume e zunzunzun de besouro, a bicharada ficava louca, tinha perdido as casinhas deles. Todo mundo tinha que ficar dentro de casa, pra não respirar aquela fumaça, cinza grossa. E tinhamos que dormir cedo, lampião não ficava aceso nesses dias. Ficava todo mundo no escuro do quarto meio acordado, quietinho, debaixo da coberta, lembrando das labaredas gigantes daquele fogo dos infernos.

Amanhã era dia de plantar, na cinza daquilo que era mato e galho que o fogo comeu.

da série Histórias 1/2 Alheias


Titulo: Roça: fumaça, fogo e cinza

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 10 de agosto de 2003

Resumo:

outro causo

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3 Comentários

  1. PH disse:

    De fato, interessante esta sua abordagem na visão de uma criança da roça. Vc se saiu muito bem nesta empreitada.

  2. Marilda Piccolo disse:

    Oi Alê, gostei dessa nova “excursão” (ou seria “incursão”?) por este novo mundo e por esta nova maneira de relatar histórias 1/2 dos “outros”… Um beijo, Tia Marilda

  3. Mário disse:

    Muito bom, Piccolo! Gostei da criançola com medo dos bichos e pensando: seria a queimada e o fogo que lhe tiraram as casinhas? Parece que a viagem rendeu… :^)

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