SALA DE ESPERA – PARTE FINAL

Conto por Tânia Toffoli
3 de outubro de 2005

Ninguém jamais poderá me ver tão profundamente, minha loucura é só minha. Às vezes não tenho certeza de que essas coisas estão somente em meus pensamentos, somente dentro de mim. Às vezes tenho a certeza de que alguém as adivinhou, de que alguém as viu por alguma brecha que eu infielmente deixei. Mas… será que eu estava só pensando? Será que não falei nada disso? Nada me escapou? Meu monólogo estava em minha boca e não apenas aqui dentro bem guardado? As palavras são tão traidoras… tão malditas!

Se eu não disse nada disso, por que essas pessoas me olham com esse desprezo, essa indiferença? Elas me odeiam. Só porque não estou lendo essa revista cretina! Só porque penso naquilo que querem afastar de seus pensamentos. Sua desgraça.

Há tempos desconfiava que não fossem o mesmo aquele que aparece e aquele que se esconde dentro de mim. Mas não tinha idéia de que fossem tão diferentes! Sua intensidade… Quando um aparece demais, sufoca a presença do outro. Estar sozinha possibilita que eu veja como é aquele que se esconde de todos e só se mostra aqui neste lugar profundo de minha alma. É tão absurdamente interno… é tão absurdamente intenso… Parece ir além dos limites do meu corpo. É extasiante quando o avisto de longe… É pleno e elevado quando o sinto de perto. Pouco eu mesma consigo alcançá-lo. É incrível. Temo que alguém além de mim consiga. Geralmente, são apenas neuroses infundadas, mas me parece que é possível que uma vez… e apenas esta vez, possa ser diferente. Sem neurose. O medo persiste. Mas há algo mais. Algo que não consigo descobrir o que é. Algo que me faz querer sair daqui ? deste lugar onde escondo essa parte de mim que me torna eu mesma. Que faz com que eu seja alguém quando não há ninguém para me dizer quem. Mas… o que estou dizendo? O que eu estou tentando dizer? Não faço a menor idéia. O que é isso? Parece inatingível. Ininteligível. É confuso!

Que eterna e inigualável guerra civil sempre houve e sempre haverá entre minha racionalidade e essa outra coisa, essa parte que me é tão difícil de entender! Como não a consigo definir com exatidão, continuo a chamá-la “coisa” e contento-me em tentar me aproximar dela o máximo que me é possível. O seu mistério me fascina incrivelmente. Sou incapaz de desvendá-lo. Sou incapaz de fazer com ela o que tenho feito com tudo mais. Essa é a barreira intransponível da humanidade. É irônico que ela esteja dentro de nós mesmos! Bem, esta e muitas outras incapacidades de explicar ou, ao menos, de entender simplesmente. Só o que se faz nesses casos é questionar. A tudo. A si. A nossas próprias convicções. Isso porque são totalmente falsas! E nós sabemos disso. Oh, que desespero saber e, ainda assim, questionar se realmente o sei! Que infelicidade ser o cão que olha o dono falar e, mesmo com esforço sobrenatural, não consegue captar mais do que ruídos desconexos de sua realidade, apenas incongruências. É isso que sou. É a isso que vejo. É isso que não serei jamais capaz de compreender. Apenas ruídos desconexos de minha realidade, incongruências. Essa minha angústia é tão sufocante! E torna-se ainda mais por não saber de onde vem ou porque… Quero gritar! Quero chorar, berrando como uma criança! Quero desesperadamente tentar me livrar, de maneira inconsciente e sem sentido, de tudo isso que me foge da consciência e que não faz o menor sentido.

Quero que o salgado das lágrimas transborde por meus olhos e arranque de dentro de mim este terror… este medo… esta… coisa que me comprime, me esmaga inexoravelmente por dentro. Mas que deixa meu corpo perfeitamente são ? como antes ? para que o sofrimento seja intermitente. Sádico. Terrível vilão! Eles me olham… eu praguejo. Eu choro… não sabem por que choro? Eu os odeio tanto! Crêem que sou louca! Eu os ofendo! Eles se sentem incomodados como antes… como sempre. Eu ofendo seu orgulho! Eles querem que eu seja como eles. Querem que eu pare de chorar. De gritar. Eu simplesmente não posso. Não posso. Está além de minha vontade. Mas por que me olham dessa forma? Por acaso não choram? Por acaso não choram exatamente pelos mesmos motivos que eu choro agora? Com o mesmo desespero que eu choro? Por que essa coisa os sufoca? Por acaso não é sempre esse o motivo de um pranto? E por que me olham assim? Por que se, quando estão em sua própria companhia, eles mesmos fazem o que não posso me privar de fazer nesse momento ? chorar desesperadamente? Por que é válido e usual que se faça isso, mas julgam-me louca quando o faço justo agora, no momento em que o sinto? Por que o momento, a situação é tão importante? Não o é para mim. Jamais fui capaz de escolher o melhor momento. Sempre foi simplesmente o agora. Não posso esconder. Eles vêem. Eles sabem de tudo…

Tinha certeza de que um dia o faria. Sabia que deixaria tudo ainda mais óbvio do que meus olhos e meus gestos sempre deixaram. Sempre temi a impulsividade de minha vulnerabilidade. Sempre foi meu tormento e meu assombro. E agora está aqui, clara e óbvia, como sempre o foi. Explícita. Eles não param de olhar! Como odeio esse olhar. Fingem que sou louca! Perguntam-me por que choro como se não o soubessem! Como se jamais tivessem realmente chorado. Fingem porque percebem que eu sei o quanto choram, sei porque choram. Maus.

Mas não há ninguém aqui. Aliás, não há nada aqui. Nunca houve. Eu espero, mas não é realmente uma sala de espera. É simplesmente o que é. Sem metáforas. E eu nunca havia notado antes. Subitamente me entristeço. Não há nada. E ninguém precisou me dizer, até porque também não há ninguém. E, se houvesse, eu não acreditaria. Um nada vazio.

A chuva fina de outrora havia se transformado numa enorme tempestade. O céu, carregado densamente de grossas nuvens negras, desabava sobre tudo. Inclusive sobre meu nada. Eu estava ali. Parada. Esperei mais alguns instantes, por teimosia, ainda tomada pela tristeza. Mas era uma tempestade. Eu sabia que devia atravessá-la. Teria que fazê-lo. Restava descobrir como o faria…


Titulo: SALA DE ESPERA – PARTE FINAL

Autor: Tânia Toffoli

Gênero: Conto

Data de publicação: 3 de outubro de 2005

Resumo:

Ninguém jamais poderá me ver tão profundamente, minha loucura é só minha.”

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Quem é Tânia Toffoli?

Estudante de letras, 19 anos, amante da literatura.

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