SALA DE ESPERA – PARTE I

Conto por Tânia Toffoli
1 de setembro de 2005

Aproveito-me desse doce castigo sem crime para me fatigar em pensamentos torturantes que continuam a rondar-me apesar de tentar esgotá-los repetindo-os exaustivamente. A espera tediosa a que me submeto é inevitável. As horas lentamente escorrem pelos ponteiros do relógio pendurado na parede suja da sala. A espera se prolonga indefinidamente. Permaneço sentada olhando o nada. Incomodo-me na cadeira. Glúteos dormentes simplesmente conformam-se em permanecer ali parados.

Uma chuva fina, quase imperceptível, lentamente derrama-se do lado de fora. É suave e calma. Incapaz de me perturbar. É somente uma longínqua imagem que ainda me parece favorável. O sol ainda brilha algumas vezes, embora as finas nuvens o encubram delicadamente por alguns instantes. O ar é úmido, mas leve e agradável. Continuo ali inerte mesmo depois de já ter me cansado de olhar a janela. A tola chuva.

Percebo o quanto pareço patética ali imóvel como a própria cadeira. As pessoas, incomodadas, parecem olhar-me pelos cantos dos olhos, depois voltá-los para as páginas das revistas para que em sua mente suja e perfeita possam concluir o quanto sou medíocre e que, felizmente, não estão em meu lugar. Hesito ao pensar em levantar e pegar uma revista para que possa, eu também, julgá-los por olhares superiores e arrogantes. Condeno minha tolice e, um tanto falsamente, minha crueldade e implicância. Resoluta, levanto e apanho a maldita revista. Os olhares intimidantes me seguem enquanto faço isso. Mostro-me segura e decidida, mas minhas mãos tremem ligeiramente e minha face cora indisfarsavelmente. Indefesa, volto a sentar-me, mas não antes de ter em minhas trêmulas mãos, vitoriosa, a revista.

Folheio aquelas páginas sem lê-las. O tédio ao fazê-lo é ainda mais sufocante. Ao menos, agora, não me sentia ridícula olhando o nada. Agora, o que era o nada para mim, não o era para os meus observadores ou talvez mesmo fingissem que não era. Tudo estava bem assim. Os olhares cessaram finalmente. O incômodo não. Nunca.

Daria tudo para ter aqui algo que pudesse realmente me divertir, ou mesmo distrair-me para que não voltasse para esses terríveis pensamentos que me assolam e implacavelmente me destroem. Mas, só tenho uma revista velha que não diz nada, pessoas que me olham e não me vêem e esses meus pensamentos que vão e vêm perturbadamente sem o menor sentido. Eles me torturam e não me levam a nada. Preciso deles mais do que qualquer coisa nesse estranho lugar. Não consigo pará-los nem por um segundo, eles só param quando querem… e eles tem seu plano macabro, eu sei.

É difícil saber que não tenho o controle. Não sobre tudo envolta, simplesmente sobre mim mesma. Temo que vejam através dos meus olhos aquilo que se passa aqui dentro. Parece tão exposto… tão óbvio aos olhares maldosos dos que observam! Mas tenho a sorte de não me enxergarem realmente, nem de longe. Temo me trair com palavras que não pretendia dizer, que não queria que ouvissem e que a partir delas tirem suas malignas conclusões. Temo que elas me entreguem impiedosamente com sua crueldade infinita. Riem de mim. Sabem o quanto é ridículo. Sabem de tudo!


Titulo: SALA DE ESPERA – PARTE I

Autor: Tânia Toffoli

Gênero: Conto

Data de publicação: 1 de setembro de 2005

Resumo:

A espera tediosa a que me submeto é inevitável.”

2 Comentários

  1. ansiosos pela parte II disse:

    (in)felizmente, ainda não faço parte dos que conhecem a parte II - aguardemos pois a parte II

  2. Samira disse:

    Uma cárie, uma espinha, uma dor, um amor? Nunca revele o que a público se transfigura e escreva sempre. Mas, se acaso for necessário, divirta-se, porque também é bom. Foi divertido ler esse conto. A propósito, você sempre terá 19 anos? Abraços, Samira

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Quem é Tânia Toffoli?

Estudante de letras, 19 anos, amante da literatura.

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