Conto por Tânia Toffoli
6 de setembro de 2005
Como é terrível o medo! Ele me priva de tudo o que me foge quando quero alcançar. Ele me priva do que me vem. É horrível o modo como ele graceja e zomba dos meus dias. Dias infinitos que me obrigo a repetir incessantemente. Dias que teimosamente continuam a vir, um após o outro. E ele ri. Vê o que eu faço. Ele percebe que só eu mesma nego. Ele me vê profundamente com seus olhos corrosivos. Mesmo assim, eu o desafio tolamente. E nosso infindável duelo persiste. Ele tem sempre a vantagem. Ele me tem nos braços como a um bebê. Eu apenas me resigno a suas vontades ? cada luta é vã e me leva de volta a ele, só que cada vez mais intensamente. Eu o odeio e preciso dele, assim como preciso de todos os meus ódios.
Cada passo me leva para mais perto do nada e me distancia cada vez mais dos meus sonhos. Apenas fantasias inutilmente esboçadas ? minha fuga. É o que me resta fazer, já que não sou capaz de olhar nos olhos a vida da qual me privo ou da qual não me afeiçôo. Queria poder moldá-la, mas só o que tenho a fazer é aceitá-la. Só o que posso é buscar as migalhas que sou capaz de alcançar ? sem perspectiva de perfeição. Há vezes em que me conformo. Há até as vezes em que me agrada. Mas os dias cruelmente se repetem. Os círculos me perseguem. O mundo dá voltas e voltas, mas sempre está no mesmo lugar, dando as mesmas voltas. E, no fundo, sou sempre a mesma também. Não importa o quão profunda foi a metamorfose ou em que me transformou desta vez o tempo - sou sempre a mesma e nada mais. Talvez eu nem gostasse de ser outra. Talvez esse seja mesmo o melhor. Mas só o fato de não poder saber me enlouquece. Saber. Isso já seria o bastante. Só queria ter a certeza. Sentir, nem que fosse por uma última e única vez. Mas eu não sei. Eu não posso. E, talvez, seja exatamente por isso que quero. Tenho a péssima mania de não aceitar, mesmo aceitando. É que o vício dos dias me desespera. Quando a noite vem, me apego a ela. Mas somente para esperar o amanhecer, para que chegue o dia e eu possa aguardar, ansiosa, o pôr do sol. Entre os espetáculos: nada.
Acho que estou enlouquecendo. Tudo isso é tão insano! Que confusão… às vezes acho que isso não é normal. Mas depois me dou conta de que essas coisas passam pelas cabeças das outras pessoas também, mesmo aquelas que me condenam com o olhar. Mas eu não estou lá para ouvir. Só posso ouvir a mim mesma. Mas posso imaginar que todos aqueles que me olham de maneira estranha também tem isso dentro de si. Acho que todos guardam suas loucuras em lugares muito bem fechados. Lugares tão profundamente escondidos que nem conseguem alcançar. Lugares que alguns nem sabem que existem. Essas coisas ficam ali tão bem guardadas, tão intensamente sufocadas, que essas pessoas nem as identificam quando decidem explodir, aflorar espontaneamente. Inconscientes. É absurdo. Quando essas coisas se acumulam e resolvem atormentar quem as aprisionou, é inevitável. Elas simplesmente transbordam e nada faz sentido. Estou propensa a crer que é a isso que chamam loucura.
Titulo: SALA DE ESPERA – PARTE II
Autor: Tânia Toffoli
Gênero: Conto
Data de publicação: 6 de setembro de 2005
Resumo: “Como é terrível o medo!”
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legal, bacana como o texto ao mesmo tempo sufoca e esclarece, angustia e exemplifica, numa lógica clara, a prisão ‘interior’ dessa sala de espera - ainda que “parte II”, não achei o texto tão seqüencial.