Conto por Emerson Penha
28 de abril de 2006
A vida andava um pandemônio. Foi essa a conclusão a que Salustiano chegou quando olhou com atenção para as coisas que fazia, o jeito cabisbaixo com que caminhava, a dificuldade de entender os caminhos pelos quais a mente se enveredava, quase a toda hora. Sinal de que era tempo de uma atitude qualquer.
"O problema" pensou Salu - como era conhecido pelos amigos - "é que eu dou corda para meus próprios dilemas amorosos, romanceio tudo, coloco o sucesso das paixões como uma condicionante para o sucesso do resto das coisas da vida, e aí…". E aí, tudo desandava. Era mesmo assim. Salu vinha de um recente desastre relacional, um novelo que ele não percebeu que enrolava em torno de si mesmo, mais uma vez.
Foi num tempo sem amores, ele vivia calmamente, na medida do possível, cumpria com louvor as suas obrigações no trabalho, era elogiado por chefes e colegas, lembrado sempre para uma certa promoção que estava eternamente por chegar. Até que… zupt! Um tiro fulminante na alma; uma daquelas paixões que ele achava que nem teria mais. Passou como uma onda furiosa na ressaca, quando veio tirou tudo do lugar. Quando o vagalhão se foi, no cósmico movimento das marés, não deixou nada de pé: virou tudo poeira nas entranhas de Salustiano.
Ele tentou e tentou não pensar mais naquilo: "desta vez será diferente." Salu quis mudar a rotina, passou a ir para casa por outro itinerário, mudou horários de trabalho, buscou a opinião de amigos com quem não falava há muito, telefonava, mandava e-mails, velhos assuntos, novos desejos, quem sabe? Não adiantou. Invariavelmente, no fim da noite, o rapaz encontrava seu desalento, sozinho na poltrona de casa, atrelando sua felicidade ao comportamento de alguém que já não estava ali. Não poderia mesmo dar certo.
Salustiano vivia há algum tempo longe de sua terra natal, mas havia se adaptado muito bem, feito amigos, cidade de praia, os programas eram quase sempre divertidos, o trabalho leve e bem pago. No entanto, ele estava irremediavelmente triste. Um dia, Salu juntou o que coube no carro, esvaziou o apartamento em que vivia e de cujas janelas avistava o mar. Passou no escritório, pediu demissão, assim, sem mais nem menos. Ouviu palavras desabridas do chefe, que ele era um traidor, que num momento delicado, ele - justo ele, tão sério e competente - abandonava a empresa. Fez que não ouviu: entrou no automóvel, enfrentou dois dias dirigindo sozinho, sem dormir, até chegar em casa, perto da serrania onde nascera. E foi ali, no silencio das montanhas, que ele finalmente encontrou paz.
Salu logo arranjou novo emprego. Homem erudito, de meia idade, era um bom papo, em poucos dias refez seus hábitos, reencontrou antigas rodas de amigos, intelectuais, poetas, artistas, gente com quem sempre se identificou. Claro, não faltavam as companhias femininas, de que ele fazia questão. "Só não me envolvo. Sem envolvimento, mulher é o que há de melhor no mundo", costumava dizer. Desse modo, a vida foi tomando um aspecto rotineiro, as coisas entraram em ordem, o pandemônio parecia ter tido fim.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
A mãe dera-lhe o nome sem pensar no significado, apenas pela beleza, pela sonoridade da palavra. Alegria era uma menina muito inteligente. Criança, impressionava a todos pela esperteza. Aprendeu a ler cedo, devorava livros, revistas, jornais, conhecia um grande número de músicas. Os pais, professores, deram-lhe todas as condições para que ela desenvolvesse os dons que trazia. Adolescente, entrou com louvor na universidade. No entanto, nessa época em que todos costumam fazer amizades que duram para o resto da vida, ela era uma moça de poucos - ou nenhum - amigo verdadeiro. Estranhamente, as amizades que teve se esvaíram.
Alegria era linda. De pele branca, rosada aqui e ali, olhos penetrantes, cabelos negros, um andar estiloso, fala confiante e incisiva, atraía a atenção de muitos homens. Em silêncio, ela aproveitou essa facilidade de conquista e devorou inúmeros deles. Colegas de turma, gente que trabalhava na firma onde estagiava, adolescentes do bairro, homens casados, pais de família. Experimentou de tudo, sorveu essas pessoas até a última gota. Não tinha limites no sexo, o que levava os parceiros à loucura. Nesse roldão de amantes, ficou de vez sem amigos: as mulheres não lhe suportavam a arrogância, que demonstrava de forma inconsciente, certamente por causa do sucesso entre os rapazes. Além disso, ela volta e meia roubava o marido, noivo, namorado, amante, roubava os homens das amigas. Divertia-se com eles, dizia-lhes coisas que nunca tinham ouvido de uma mulher, dava-lhes orgasmos incríveis. Quando tinha a certeza de que eles estavam envolvidos ao extremo, o 'gran finale': abandonava-os firmemente, botava da porta para fora, ficava de longe a observar-lhes a reação. No momento em que se assegurava de que estavam arrasados, em dor lancinante, ela tinha, com a ponta dos dedos, o maior orgasmo que se possa imaginar. Sim, era assim que Alegria gozava: observando o sofrimento alheio. E nessa gangorra das emoções, ela superava a solidão.
Até que um dia, as coisas mudaram. Alegria encontrou alguém, do nada, e resolveu assumir um relacionamento. Não o amava, longe disso, mas decidiu ficar ao lado dele. O rapaz era quase um analfabeto perto dela, era feioso, mas vinha de uma família tradicional, morava na charmosa cidade de San Sebastian, numa outra província. Ela se interessou por esse conjunto de qualidades e, para espanto dos que a conheciam, pôs no dedo uma aliança e foi com ele viver. Quer dizer, morava com ele nos finais de semana, porque ela não se mudou da cidade de origem. Não conseguiu ser transferida pela companhia. Como já havia deixado de ser estagiária para ter a carteira assinada, desistiu de abandonar o emprego, "pelo menos por enquanto, vamos ver como fica daqui a um tempo", justificou.
Longe dos olhos de Alboroque, agora seu noivo, Alegria continuava a ter aventuras sexuais com outros homens. Só que agora sem o envolvimento que em outros tempos ela fazia questão de provocar. Gozava com sexo mesmo, sem que artifícios de maldade lhe facilitassem alcançar o ápice. E assim foi levando a vida.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Salustiano vivia bem, depois das agruras passadas. Morava na Grande Capital, não muito longe de Pentecostes, sua terra natal. Podia, com pouco mais de duas horas ao volante, visitar pai e mãe, rever as ruas de sua infância, lugares de que gostava. Sim, era boa a vida naqueles dias. O emprego era bom, o salário razoável, ele tinha algum prestígio com os chefes, conquistado não com adulações, mas com trabalho duro e competente. Tinha uma namoradinha aqui, outra ali, sem se comprometer com nada nem ninguém.
Num certo mês de agosto fez frio além do comum. Foi quando Salu foi mandado para uma missão em um lugar onde as temperaturas são sempre baixas, mais ainda nesse ano atípico. Foi informado pela chefia que ficaria uns quatro dias fora, não mais do que isso, para resolver problemas de interesse da companhia. E que, experiente na profissão, ensinaria a uma jovem executiva, recém-contratada pela fábrica, alguns passos de negociações complexas como as que se anunciavam naquela viagem. Para isso, ele levaria consigo a mocinha, que tinha, naqueles dias, metade de sua idade.
Salustiano não estava muito entusiasmado com a tarefa. Era uma negociação como as outras, poderiam ter mandado alguém mais jovem, ainda mais que teria de suportar a jovem executiva, que tinha fama de chata, arrogante. Na sala de espera do aeroporto, de pé, carregando inúmeras malas, a moça esperava sua chegada. De olhos fixos nos dele, apresentou-se:
_Alegria. Eu me chamo Alegria. Prazer em conhecê-lo.
Viajaram lado a lado sem trocar uma só palavra. O avião subiu e desceu em suas escalas, aeromoças serviram refeições, até que chegaram a seu destino. A cidade de San José era velha, calçada com enormes pedras que dificultavam andar a pé, mas com um charme que só a América Espanhola possui.
No primeiro dia de trabalho, reuniões e mais reuniões. Mal se falaram, jantaram nos respectivos apartamentos, no hotel. No dia seguinte, a chuva não deu trégua um instante. Os encontros de trabalho terminaram à noite, Salu e Alegria não conseguiam arranjar um táxi que os levasse ao hotel, "dia de chuva é assim mesmo", disse um guarda de trânsito que viu os dois, ensopados, sinalizando em vão para os carros de praça que passavam ocupados. A fome, o cansaço, o frio cortante, a visão de uma luz acesa em uma bodega que parecia ter calefação. Entraram. Sentaram-se. Com o calor, sentiram-se acolhidos, relaxaram. Foi quando Salustiano pôs reparo pela primeira vez em Alegria. Detrás daquela máscara de arrogância e inflexibilidade, uma menina frágil se revelava, aos poucos, entre goles de vinho tinto e nacos de um filé que estava longe de agradar àqueles paladares exigentes.
Principiava a madrugada quando a chuva parou. Os dois caminharam até o hotel, quinze ou vinte minutos distante. Salu não pensava em nada, só em dormir, exausto. Foi quando, de passagem pela porta do quarto de Alegria, assim que girou a chave, ele não teve tempo sequer para um "até amanhã": ela o agarrou e, num gesto súbito, deu-lhe um beijo. Quando deram por si, estavam despidos e excitados. Salustiano se impressionou com essa visão: uma pela muito branca, com tons de rosa aqui e ali. No peito nu, os bicos dos seios eram de um vermelho escuro, contrastavam belamente com o colar de águas-marinhas. Os pelos pubianos, negros, nem tão vastos que encobrissem o sexo, nem tão raspados que desvelassem a aura de mistério da concha.
Há muito tempo nenhum dos dois fazia sexo tão intensamente. Ela encantou-se com a delicadeza e a virilidade daquele homem; ele deixou-se levar pelo cheiro doido de fêmea, que invadia as narinas, e pelo sem-limite que ela demonstrava. Amanheceu e a luxúria não parava, desmarcaram compromissos da manhã, só saíram do quarto lá pelas duas da tarde, com aquela cara de abestados que só os amantes que se entregam plenamente têm.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
De volta à vida normal, Alegria não desfez a relação com Alboroque, seu noivo. Foi levando os dois amores como quem vai do emprego pra casa: rotineiramente. Com o noivo - que de nada desconfiava - vivia a segurança de ter um lar, uma estabilidade, construindo com ele patrimônio emocional e financeiro. Ainda que eles só se vissem e só morassem juntos de verdade nos finais de semana. Nos dias comuns de trabalho, a moça se livrava das tensões do quotidiano com os orgasmos violentos que tinha com Salustiano. E nem era só isso: Salu, culto e refinado, era um interlocutor à altura de Alegria. Passaram-se meses. A moça combinava os dois caminhos com desenvoltura, e nem pensava em mais nada. Para ela, estava bom assim. Alegria só não contava com um deslize seu: apaixonar-se por Salustiano.
Quando concluiu que estava envolvida com Salu, Alegria reagiu violentamente, num claro cisma entre mente e coração. Naquele dia, fez o combinado: foi à casa do amante, nem bem havia escurecido. E decidiu provocá-lo: quando ele abriu a porta, ela arrancou subitamente a blusa. Entrou no apartamento, jogou longe os tamancos, levantou as saias. Num empurrão com um dos pés, derrubou o amante no sofá e praticamente sentou-se sobre ele, com o sexo colocado exatamente sobre sua boca. Com as carícias da língua de Salu, teve um dos orgasmos explosivos de sempre. Na vez dele, no entanto, ela pulou para o outro lado da sala, enquanto voltava a se vestir, e disse: "foi a última vez que você me tocou." E sem que ele se recuperasse do espanto, desferiu-lhe o golpe mortal: "você teve a ousadia de me provocar algo imprevisível: paixão. Seu canalha, como você pode?" E caminhou porta afora, vigorosamente, sem dar a ele a chance de responder.
No dia seguinte, Alegria pediu demissão do emprego. Aos gritos de "mas como?" do chefe, saiu da empresa sem olhar pra trás. Ela, uma executiva brilhante e jovem, decidira abandonar tudo. E pensava: "tudo, menos apaixonar-me. Não sou mulher de paixões. Imagine!" E foi-se embora para a casa do noivo, a quem não amava e por isso conseguia manter sempre sob absoluto controle. Arranjou um emprego modesto em San Sebastián e lá passou a viver, com Alboroque. Não deu mais notícias.
Salustiano, a seu modo, aceitou o acontecido. "Desta vez", pensou, "a coisa foi diferente. Muito diferente. Mas o resultado foi o mesmo." E tinha razão. Ele, que há muito já havia se apaixonado por Alegria e a quem aprendia aos poucos a amar, havia tolerado dividi-la com o noivo, em nome da felicidade. Salu havia pensado que assim escaparia do flagelo de seus relacionamentos que sempre terminavam quando ele achava que estavam no melhor momento. Mas se enganou. Ainda hoje, vive sozinho em seu apartamento na Grande Capital. Salustiano, poeta, sensível, culto e sempre apaixonado… desistiu de amar.
Titulo: Salustiano e Alegria
Autor: Emerson Penha
Gênero: Conto
Data de publicação: 28 de abril de 2006
Resumo: Um conto que poderia ser uma história de muitos de nós - aliás, uma das características de um conto é essa. História de sentimentos complicados, que tendem à felicidade e terminam por dar o resultado contrário…
Bad Behavior has blocked 12 access attempts in the last 7 days.