Conto por Paulo Henrique
5 de abril de 2003

Joker nem foi convocado para o campo de batalha. Ele era da equipe de comunicação da 10a. brigada. Apesar de seu treinamento árduo, ele não deixou-se endurecer. Continuava o mesmo brincalhão e irônico de sempre. Daí o apelido: Joker.
Seu tipo frágil, branquelo, magro, careca e com "óculos do John", o ajudava a aproximar de pessoas com as mesmas afinidades: literatura, filmes, música e computadores. Por isso foi escolhido para o departamento de comunicação.
Mas ele não estava totalmente seguro. Apesar de não estar na linha de frente - como o seu amigo que morreu na semana passada - ele estava na guerra. E guerra é guerra. Se fosse preciso mataria.
Não tinha sombra nem água fresca, mas tinha sobrevivido bem até aquele instante. Agora tudo tinha mudado. Agachado ali entre as ruínas, acabou de ver seu companheiro de missão ser baleado. Desejava não estar ali. Sabia que não tinha que lutar, matar e morrer por aquilo. Era muita estupidez.
Outro tiro, outra morte. Conseguiu enxergar na fresta do muro um soldado da tropa inimiga sucumbindo, provavelmente um jovem que também estava metido naquela enrascada. Fazer o quê? Ainda não tinha dado um tiro sequer em combate. "Amanda", sua arma, ainda estava zerada e se fosse possível não a usaria.
Explosões ao seu lado. Ouviu choro e lamento. Não sabia mais quem era quem. O calor era insuportável e a tensão do momento não colaborava muito para seu sossego. Ajeitou melhor a perna que já estava doendo. Enquanto estivesse de cócoras entre as ruínas, tudo bem. O problema seria sair dali. Correndo.
Lembrou-se da última aula de karatê em seu país. Lembrou-se dos ensinamentos do Sansei sobre "mãos vazias", concentração e força de caráter. Lembrou-se novamente que estava na guerra e não no dojô. Com todo o respeito, mandou o sansei pro espaço.
Mais uma explosão - "esta foi perto" - e agora era ele que deveria correr. Ouviu o comandante o chamando freneticamente para a outra parede, logo em frente. Apenas dez metros de corrida e estaria seguro novamente. Um, dois, três e foi! Com um só impulso começou a correr muito rápido, sempre procurando desviar dos escombros e de alguns corpos no caminho. Chegou na parede e não viu mais seu comandante. Apenas um estrondo infinitamente forte e muita escuridão. Ouviu gritos. Não sabia mais o que estava acontecendo. Apenas peso e calor. Lembrou da última piada que ouviu no acampamento. Era sobre algum molusco. O pensamento foi na graça. E ali adormeceu.
Titulo: Sangue e sono na madrugada
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Conto
Data de publicação: 5 de abril de 2003
Resumo: Ele tinha que correr. Só não sabia para onde.
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Belo conto! Mesmo muito parecido com esse último que escrevi - “Pequenas guerras”. Enfim, é um tema forte mesmo!