Conto por Tiago Russel
12 de setembro de 2003

Era pequeno e já me esgueirava pelos becos sujos, que levavam aos bordéis vagabundos e o uísque nacional. Tinha um ótimo professor: meu pai. Sou um privilegiado. Nenhum amigo meu da época conhecia o seu.
Não demorei em gastar mais dinheiro do que aquele que conseguia ganhar. Então me especializei em pequenos delitos, alguns golpes e a prostituição de menores. Bons tempos aqueles. Tinha 17 anos e era irresistível. Fazia todas as cadelinhas da zona trabalharem para mim.
Conheci a cocaína muito cedo, mas nunca gostei muito dela. Era o ópio que eu curtia. Uma vez passei cinco dias seguidos deitado numa cama com uma mangueira na boca. Fiquei lá até alguém me encontrar. Fui levado direto pro hospital, e acabei passando mais 30 dias com outra mangueira na boca. E um supositório naquele outro lugar.
Fiquei, como todo viciado em alguma coisa no Brasil, num hospital psiquiátrico. Lá conheci um velho louco. Vizinho de cama. Sem dúvida aquele velho era trick-trick-rolimã. "Eu sou o escrotinho que acabou de acordar dentro de cada um de vocês", costumava filosofar. "Me alimento de cerveja, fumaça e pecado. Escrevo torto porque eu quero mais é que as linhas certas se fodam. O que tu tá olhando aqui, idiota, ainda se faz acreditar". Berrava olhando fixo nos meus olhos. Nem preciso dizer que não gostava nada dele.
De qualquer forma, uma noite acordei de sem pulo. O filho-da-puta olhava fixo nos meus olhos, nariz encostado no meu. Disse apenas "você vai morrer… O seis buracos vai matar você". Quando o empurrei, minha mão passou no ar. O desgraçado não estava ali. Olho rápido pro lado e ele sumiu. Minhas calças ficaram ensopadas. Acendi todas as luzes. Ele não estava lá. Na manhã seguinte ele reapareceu no mesmo lugar. Morto. Outro Da Silva que se vai.
Aquilo me impressionou demais. Quase enlouqueci inventando mil teorias para a única e verdadeira Teoria. A maldita que iria me matar. Fiquei obcecado. Alcancei o fundo do poço mais uma vez. Até conseguir sair daquele inferno decidido a mudar meu estilo de vida.
Larguei as drogas e a prostituição e passei a explorar mulheres da high society, coroas ricamente plastificadas. Carentes, ricas e o mais importante: mal-comidas. Passei a ganhar muito dinheiro com isso. Estava feliz depois de um golpe do baú bem sucedido. Mesmo assim, não esquecia. A teoria me perseguia.
Quando já me sentia confortável no novo papel me apaixonei por Lucila. Nesta época já podia ser considerado rico. Tanto que havia um time de pesquisadores para descobrir que diabos de teoria dos seis buracos era aquela. Ninguém achou resposta. A não ser Lucila.
Morena linda, olhos penetrantes e voz rouca. Me convenceu de que conversava com os mortos ao mesmo tempo em que meu coração se convencia de que devia se entregar ao dela. Sabia tudo do velho, do hospital e de cama. E a cada progresso na tarefa, seu cabelo liso escorria por mim. E sem eu perceber, o meu dinheiro por ela.
Acabei arruinado. Ela se foi, provavelmente para enganar outro otário, me deixando apenas um par de calcinhas e uma foto rasgada em cima da cômoda. Iria completar 71 anos naquela semana. Tarde demais para tentar outra reação. Desta vez, não estava drogado, louco ou arruinado. Estava os três. Estava pior. Estava vazio.
Abro o tambor do 38 e escolho uma bala. Olho por ele e finalmente entendo tudo. Finalmente compreendo o que o maldito velho quis dizer. Seis balas, seis buracos no tambor. Tudo parecia bem melhor agora. Finalmente conheci a paz. A felicidade me invade. Dou gargalhadas, sinto febre.
Estufo o peito para, como último pedido, pedir que você preste bem atenção no que digo agora: - "EU SOU O ESCROTINHO QUE ACABOU DE ACORDAR DENTRO DE CADA UM DE VOCÊS. ME ALIMENTO DE CERVEJA, FUMAÇA E PECADO. ESCREVO TORTO PORQUE EU QUERO MAIS QUE QUALQUER COISA CERTA SE FODA! E O QUE TU TÁ OLHANDO AQUI, IDIOTA, AINDA SE FAZ ACREDITAR".
Aliviado, já posso finalmente brincar: seis buracos, apenas uma bala. Quero ficar aqui me divertindo, enquanto o maldito velho não vem.
Titulo: Seis Buracos
Autor: Tiago Russel
Gênero: Conto
Data de publicação: 12 de setembro de 2003
Resumo: Morro minha vida entendendo uma teoria muito simples. E descubro que na verdade deveria ter vivido ela assim.
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Excelente, Tiago.Fazia tempo que não aparecia um desses: underground e filosófico.