Conto por Tânia Toffoli
11 de maio de 2004
A passos largos, porém lentos, ela caminhava pelas ruas do bairro, rotina de todo final de tarde . Cabelos ao vento, pensamento longe e expressão vaga. Deliciando-se com uma barra de chocolate. Tinha recheio líquido. Adorava chocolates, principalmente os que tinham recheios líquidos. Laranja, uva, morango. Este era de morango. Colorido artificialmente. Sim, claro! Que morango teria aquela cor… tão vermelho quanto sangue, mas o cheiro era bom, ainda que não fosse realmente cheiro de morango. Talvez nem o gosto fosse real. Mas era bom.
Por que mesmo havia pensado nisso? Ah, sim. Como era artificial aquela imagem, aquelas palavras. Por que será que ele mentia? Não, ele não mentia, representava. Era um ótimo ator, excepcional! Mas pareceu tão natural. Por isso era um bom ator, óbvio! Até havia chegado a acreditar. Como saberia o que viria depois? Se soubesse teria dito “Eu preferiria que você não dissesse o que não tem certeza de que realmente quer e pretende fazer.”
Na verdade, havia sido melhor assim. As coisas estão sempre melhores exatamente como são. Ela sentia-se feliz. Talvez um pouco só, mas com isso já estava acostumada. Sentir-se só… Você é sempre você, só você e você mesmo, mergulhado no mundo. Que engraçada essa idéia! É como a imagem de uma pessoa, meio boba, ingênua… tapada, mergulhada num líquido viscoso, denso, como nesses filmes de ficção!! Bobagens! Sempre pensava em bobagens, pensamentos absurdos. Quis afastá-los. Foi feliz por alguns minutos, mas depois, naturalmente, sem que notasse, os pensamentos voltaram.
Nesse momento, terminava de comer deliciosamente a eterna barra de chocolate. O papel… o que faria com o papel? Essa calça não tem bolsos…
É óbvio que seguraria até voltar para casa e jogaria na lixeira. Sim, a lixeira da rua, claro. Personalidade metódica, politicamente correta! E daí, pro inferno!
Continuava caminhando… Olhava o chão. Todos os dias caminhava e olhava para o chão, mas nunca o tinha visto. Qual a diferença? A cada dia tem novas folhas, insetos asquerosos, provavelmente alguma cuspida! Como as pessoas são anti-higiênicas… nojentas! Lá vinha mais uma vez a maldita personalidade! “Anti-higiênica”!! Que tipo de pessoa usa esse vocabul… essa palavra, bastava dizer “porcas”! Sem que percebesse, novas expressões de seu vocabulário “formal” ressurgiam por entre as vilosidades de seu cérebro atípico!
Enrolava a embalagem do chocolate terminado nos dedos. Fazia cachos, dobrava, depois voltava a esticar. O papel rasgou numa das pontas. Pegou o pedaço rasgado e guardou dentro da própria embalagem restante. Não poderia sujar as ruas. Eram ruas sujas.
Ainda olhava para o chão. Porque nada de novo acontece? Se o encontrasse na rua! Ele seria grosseiro. Não, grosseiro não, engraçado. Riria. Falaria sobre aquela noite. Ele mentiria. Não, representaria. Era um ator! Brigaria com ele. Ele acharia que era uma tola. Descobriria, na verdade. E realmente era verdade, sabia disso.
Ouviu um barulho, passos. Levantou os olhos e viu uma silhueta, vinha em sua direção. Olhava contra a luz, por isso a sombra escondia a expressão. Hum, alguém passando na rua. Já era alguma coisa. Lembrava de outra vez que pensara que algo diferente podia acontecer: um homem apareceu por causa do barulho que faziam os cachorros das casas vizinhas. Ele pensou que estivesse levando um cachorro para passear. Veio falar sobre cachorros. Depois foi embora. Havia visto o tal homem outras vezes, mas apenas o cumprimentara.
O homem que vinha pela rua se aproximava mais.
Seria alguém conhecido? Talvez alguém desagradável! Alguma daquelas pessoas que não param de falar; suas pernas doem pelo prolongado tempo que a inconveniente figura obriga-lhe a ficar de pé, parado. E, mesmo que se faça menção de continuar seu caminho, o absurdo ser acompanha-lhe os tímidos passos.
Também podia ser alguém muito simpático e agradável, carismático mesmo, que lhe acompanharia por todo o trajeto numa conversa animada, lhe deixaria em casa e se tornaria um amigo. Sentia-se só.
Agora podia ver a face do tal homem.
-Boa noite.
-Oi!
Aquela voz! Conhecia aquela voz. E, por que dissera “oi”, “boa noite” é mais formal, mais adequado quando não se conhece a pessoa! O que importa!!
Claro! Era a voz dele! Também se parecia muito com ele. Quer dizer, podia ser um pouco diferente. Não era boa fisionomista, nem do rosto dele podia se lembrar exatamente. Mas tinha certeza de que era parecido. E a voz… Seria algum parente? Perguntaria para ele mais tarde, quando o encontrasse.
Ouviu um barulho. Água. Olhou em volta e percebeu a torneira aberta. Era um terreno baldio. Que desperdício! Entrou e fechou a torneira. A seu sapato, foram acrescentados alguns centímetros de barro, mas tinha valido a pena, a torneira parara de pingar. Se todas as pessoas fizessem o mesmo…
Olha para trás. O transeunte havia desaparecido numa curva. A noite começava a mostrar suas feições. Algumas poucas estrelas desenhavam o céu, mas a lua não aparecera.
Começa a esfregar e contorcer os dedos e a embalagem do delicioso chocolate. As pernas ficam amolecidas como se fossem feitas de areia macia e suave. Como se tivesse bebido um vinho doce. Num delírio mole, açucarado. Mas as mãos agitam-se e os olhos se movem de um lado para outro rápida e atentamente, como os de um animal predador.
Segue seu caminho original com passos ágeis e firmes. Aquele homem…
CONTINUA
Titulo: SENSAÇÃO – parte I
Autor: Tânia Toffoli
Gênero: Conto
Data de publicação: 11 de maio de 2004
Resumo: Algo sobre a solidão.
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Bacana, solidão que se espelha no externo, nas impressões e sensações vindas de fora de quem sente: na sujeira do papel e da rua, na ausência da lua no céu pouco estrelado, no divagar racional de quem segue seu caminho a passos “ágeis e firmes” - “porém lentos”…