Short Cuts (1)

Conto por Alexandre Piccolo
19 de fevereiro de 2003

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© Mina Leão

Texto, segundo Houaiss

texto /ês/ s.m. (s. XIV) 1 conjunto de palavras de uma autor, em livro, folheto, documento etc. (p. opos. a comentários, aditamentos, sumário, tradução etc.); redação original de qualquer obra escrita 2 conjunto de palavras citadas para provar alguma idéia ou doutrina 3 trecho ou fragmento de obra de um autor, 3.1 passagem da Bíblia que se toma para servir de tema ou assunto de um sermão 4 parte principal de livro ou outra publicação, com exclusão dos títulos, subtítulos, epígrafes, gravuras, notas etc. etc. et cetera…

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Um absurdo: O marido de Maria

O marido de Maria não é marido de Maria. Não se sabe como ou por quê, se foram concubinos, amantes ou mesmo irmãos, só se sabe que o marido de Maria não é o marido de Maria. E a lingüística permitia aquilo que para a lógica era um simples absurdo.

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O meu Lar é o deus que protege minha casa e o cultuo, com a chama acesa, em minha lareira. Sincretismos sexuais se dão neste infanticídio doloso que realizo todos os dias, por melhor ou pior que seja a morfologia das palavras. E vou lentamente me recriminando, por tudo aquilo que veio de "mão beijada", sem tirar nem pôr…

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pão da vida

Diante da igreja do Nazareno há uma padaria. O pastor barrigudinho pediu à meia voz ao irmão:

- Eu quero do pão da vida.

- Mas, pastor…

- É logo ali em frente.

Inconformado, um suspiro.

- Ah - emendou - dos mais moreninhos, por favor. E quente.

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O som da noite

O jovem ouvia Bob Dylan em seu apartamento, não muito alto nem muito baixo. Tun, tun, tun, tun no apartamento de cima. Ficou puto. Pegou a vassoura, cutucou o teto. Tun, tun, tun no apartamento de cima. Aumentou a porcaria do volume do som. De nada adiantava. Pensou interfonar. Ah, besteira, concluiu. Aumentou mais um pouquinho e se deitou no sofá, reflexivo: Lay Lady lay…

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Algumas palavras, pela parteira de Moll Flanders

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Joana dizia não saber de quem era filha. "Toda mulher que tem uma criança conhece seu pai" - disse a parteira de Moll Flanders. Joana não sabia de quem era o filho que carregava no bucho.

Festa cheia na rua. Ela, boca grande, blusa branca e bunda boa, bebeu bem e bem bêbada ficou aquele dia. Marcos, Leonardo, Adriano, Carlos, Juliano, Marcelo, Pedro, Sílvio e Zenão aproveitaram a ciranda do abecedário.

Joana acordou num beco. Vomitou um pouco, olhou tudo embaçado e voltou a dormir. "Oxalá todas as mulheres que consentem em se desfazer de suas crianças por decência, como se diz, reflitam no fato de que tal coisa não passa de um assassinato premeditado, quer dizer, uma maneira segura de matar seus filhos." E com o gosto amargo do sonho inseguro, o dia amanheceu, ela ainda jogada na rua…

Eram os novos dias daqueles velhos tempos.

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O furto

Uma voz lhe sussurrou atrás dos ombros: "pega, pega o dinheiro".

Olhou para trás, não viu ninguém. Todos ocupavam-se de seus afazeres. O caixa, distraído catando moedas no chão, nem daria conta.

E num lance de laço, com um empurrão da lancinante mão invisível, voou em cima do dinheiro, sem que ninguém o tivesse visto.

O coração, um acesso de medo. Saiu dali intranqüilo, o sangue fervia, suando frio, mas controlado e comportando todo o horror que sua alma engolia.

Não precisava daquilo mais que ninguém.


Titulo: Short Cuts (1)

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 19 de fevereiro de 2003

Resumo:

Histórias curtíssimas.

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