Short Cuts (3)

Conto por Alexandre Piccolo
12 de março de 2003

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© Mina Leão

Sinestesia

Um aluno ouviu numa aula, sobre o que a professora lera num conto do Cortázar, que um homem mirava um quadro numa exposição de arte. Outrem se aproximava discretamente, olhos atentos e tácitos, e também contemplava a obra na parede. Então o primeiro pergunta:

- Gostou do quadro? O que você achou?

Se olharam e, em silêncio, o outro saiu dali assobiando…

_______

Nietzsche e Sartre também amaram

Eles riam na mesa do bar. Bebericando uma cervejinha, sem compromisso, tranqüilos, ademais de toda filosofia que haviam desenvolvido, um sorri para o outro e diz, com o palavreado que só existe no olhar e sublinhando com um suspiro para o vazio:

- Ah, Simone…

- Que saudade de Maria…

________

O mundo é grande

Lembrei-me daquela vontade de explodir tão grande,

da vontade boa,

da companhia perfeita,

do silêncio delicioso de sua presença,

de seu cheiro gostoso,

de seu gosto bom,

de seu sorriso cativante,

de seus olhos marotos,

de sua voz doce e macia

e pisquei a calma da paz que só você me dá

E me lembrei da vontade de explodir

também grande,

mas rápida,

como a mordida na mandíbula,

os questionamentos que não vão embora,

as fotos tristes,

o choro frio,

aquela vontade ruim,

da saudade que não passa.

A música acaba

em paz comigo.

O suspiro tira

o sossego de mim.

O medo congela

o segundo que urge.

E minha saudade aumenta

e esqueço das cinzas.

Todos iguais por final.


(agosto/2000)

_______

Não sei mais o que pensar

Não sei o que botar no papel, não sei o que teclar, não sei o que escrever, não sei o que pensar. Não sei mais o quê quero, por quê quero, como, onde ou quando quero - não sei nem mais o que quero. Não sei dizer, ler, contar ou ouvir. Não sei se dizem que não sei viver, não sei sentir, não sei cantar, não sei mentir. Não sei quando será ou quando foi, não sei se era bom, se será ruim, não sei se caí, se levantei, se ajoelhado ou de pé, não sei se rezei. Não sei se me olharam ou se olhei, não sei quando foi que ouvi nem sequer se ouvi mesmo dizer. Não sei se entendi, não sei se me compreenderam ou me confundiram, nem sei se entenderam patavinas do que não entenderam. Não sei nem mostrar que não sei, nem falar o que não sei. Não sei dizer tchau nem adeus, nem alô nem olá, não sei o meio, quanto mais o fim ou o início. Não sei das línguas ou dos homens, das bobagens ou das virtudes, do fastio, do tédio, do ânimo, da empolgação ou do impecilho, nada disso sei. Não sei das histórias do Léo nem das minhas sequer. Não sei dos computadores, dos humores, do contar ou do perder a conta, não sei. Não sei do amor e dos amores, não sei do medo ou dos temores, não sei da arte, dos artistas e dos atores, não sei do teatro, da tv, da música, da pintura, da literatura, da filosofia, da matemática, da astrologia, da ciência ou da poesia, da prosa ou da mitologia - não sei, já disse que não sei, não sei nem repetir mas digo de novo, não sei. Não sei dos problemas, quanto mais das soluções. Não sei se hoje é segunda, nem o que farei no domingo, não sei se vivo sorrindo ou se não sei ficar triste, não sei se sou deprimido ou se tomo comprimido praquilo que não sei. Não sei rimar, nem fazer as coisas sem rima. Não sei ouvir uma música sozinho sem chorar, nem chorar quando devia. Não sei beijar, nem se beijo bem, não sei se gosto, desgosto ou gosto demais de alguém. Não sei tocar as notas bonitas ao violão, nem batucar o tambor no ritmo do meu coração, que nem sei se bate ou nem batucará, amanhã mesmo, fevereiro próximo ou janeiro do ano que vem, não sei. Não sei se canso, descanso ou ainda tenho fôlego, não sei mais se pulo ou fico pra pular depois, se enfrento ou aguardo, não sei. Na bifurcação, nossa!, no caminho de três vias, vixe!, não sei. Definitivamente não sei. Não sei nem quanto "não sei". Do presente, do passado ou do futuro, não sei. Não sei dos escritores, dos romancistas, dos poetas, das pessoas e de Pessoa, não sei sequer de mim, como posso querer saber dos outros. Sei que não sei - e é só e tudo que não sei.


Titulo: Short Cuts (3)

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 12 de março de 2003

Resumo:

mais uma coletânea de textos minúsculos

3 Comentários

  1. Marilda Piccolo disse:

    Oi alê,Tenho certeza que se gosta de arte é assim… Tenho certeza que todos eles já amaram… Tenho certeza dessa vontade de explodir: tantas vezes sentida… E tenho certeza que muitas vezes não sei mais o que pensar etc etc etc. será que é mal de família?Um bj,tia Marilda

  2. O Escriba disse:

    Excelente o texto “não sei mais o que pensar”.. Apresenta ao mesmo tempo a consciência de diversas coisas sem o compromisso com qualquer uma delas. Fuga tranquila para a liberdade definitiva… Muito bom!

  3. PH disse:

    Muito massa a conversa de 2 homens comuns. Afinal de contas, morreram como todo mundo…

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