Short Cuts (5)

Conto por Alexandre Piccolo
27 de agosto de 2003

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© Mina

Coisas de qualquer feira

Rádio-relógio

Chinelo

Água quente e sabonete

Toalha, desodorante, pasta e escova de dente

Cueca, calça, meia, camisa preta gola pólo

cinto, sapato

Pente, perfume

Chave

Carteira

Carro



Botão liga-desliga

Teclado

mouse

Monitor



Chave (nem sempre)

Carteira

pia, torneira, água fria, sabonete e toalha de papel

Prato

Garfo e faca em saquinho plástico transparente

Copo (não raro de plástico)

Guardanapo

uma xícara de café e um cigarro

cartão de plástico, ora algumas notas de dinheiro

(uma satisfação triste)



teclado, etc…



controle remoto

Livros…

uma latinha de cerveja

às vezes, um poema

água quente

chinelo

rádio-relógio

___

Reflito, aflito, reordeno a ordem de não mais passar

Deitado no sofá, reflito a vida. A fumaça do cigarro sobe, o lado esquerdo do meu peito aperta, meu coração reclama e eu o entupo com as bobeiras do dia-a-dia que parecem nunca passar. Exalo, o gosto de cinza permanece na língua e, por um breve instante, refaço inúmeras vezes uma teoria da melhor maneira de se pensar, uma possível melhor ordem para os pensamentos, como se tivesse enfim encontrado a perfeita organização desta máquina da vida. Respiro, suspiro profundo, mente que não abranda. A brasa ainda acesa me convida ao fim, me convoca a repensar. Pensar não quero mais, esta é a ordem que vivemos, tudo negar. Grandes babaquices. Reordeno frases, palavras, beiços, olhares, sentimentos. Amanhã é segunda, acordar cedo, São Paulo, lixo de cidade, reunião… Um novo trago, apago o cigarro. Não quero cumprir o dever e o dever me chama, me conclama, como clama o pensamento pedindo novamente nova ordem. Coloco as contas em ordem cronológica, me deito de novo e reflito. Mais uma vez a pensar.

___

1 foto = sacaneia ñ

Mr.Hank: filho da pu….

Mr.Hank: moldura o caralho…..

EU_MESMO: qualé cuzão! só mandei procÊ!!!

EU_MESMO: quer q manda pro mundo afora??

Mr.Hank: hahahahah

EU_MESMO: HAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAAHAHHAHAH

Mr.Hank: nao ne !

EU_MESMO: dei risada pracaralho!!!!!!!!!!!!

Mr.Hank: deleta essa foto…

EU_MESMO: HAAAAAAAAAAAAAAAAAAHAHAHAHAHAHAH

Mr.Hank: coisas digitais..

EU_MESMO: superficiais…

Mr.Hank: verdade…

EU_MESMO: mas a moldura ficou engraçada…

EU_MESMO: viu o detalhe do smack????

Mr.Hank: noooohhhh

Mr.Hank: agora eu vi!

Mr.Hank: putz….

EU_MESMO: ahhahahahahahahahahaha

Mr.Hank: sacanagem…

EU_MESMO: até pensei em mandar pra galera, mas deixa quieto….

EU_MESMO: ficou engraçado pacas!!!!

EU_MESMO: será q rola mandar prela??

Mr.Hank: nem….

Mr.Hank: faz isso nao…

Mr.Hank: deixa quieto mesmo….

EU_MESMO: blz… ;-)

Mr.Hank: hahahahah

Mr.Hank: sacaneia nao…

___

Poema para uma estatística

existe 50% de chance de agradar

38% de chance de ser brega

2,98% de imprecisão sincera das palavras

e um incalculável perfume de suspiro no ar

Deve ser porque me cansei da infinitude dos números

que vim atrás das letras infinitas

de pernas e desenhos precisos,

maiúsculas

caras e

minúsculas

bocas

imperfeitas

perfeitamente normais nas distribuições

do primoroso acaso

Fortuna:

meu espaço não vê amostra

quer mais que uma mísera mostra de beijo e olhar.

Como a linha que não acaba quando a palavra

finge

toda uma vontade de ser e pensar

e não há mais só vontade

há desejo

incomensurável

da mistura incessantemente azul

et irrésistible

de se poetizar.

Meu Deus! pra que tanto símbolo, letra, número,

tanta coisa

no meio de tanta gente.

Quando só fica

entre a gente

o bom sorriso na memória

ou

a vaga má lembrança do que não se fez

73% esquecido, mesmo sem sentido,

pois não se junta mais o que foi perdido.

80ção, 20ver

era o dizer da placa do filme que

refiz questão d'esquecer.

Tudo se mistura no nada, perdeu foco

objetivo e lente

queria mesmo é beijar sem declaração

quente

declaração que não fosse palavra

fosse beijo

perfeitamente escondido na lembrança

que não fica com a gente

voa ar a fora

impreciso como a palavra

certeiro como o número

inexistente como a gente

indefinido

e tendendo a zero.

O percentual restante fica a cargo de uma breve e científica homenagem.


Titulo: Short Cuts (5)

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 27 de agosto de 2003

Resumo:

novas (bobagens) curtas…

4 Comentários

  1. Marilda Piccolo disse:

    Oi Alê, suas “bobagens” curtas são bobagens de todos nós, por mais hedonismo que exista tudo é igual… Marilda

  2. Herbie disse:

    Lixandre…esse foi foda (com todo o perdão da palavra, mas nada exprimiria melhor…)!Parabéns, velho!

  3. Peaga disse:

    O primeiro me lembrou Tom Yorke, com seus plásticos do dia-a-dia. Ficaram legais. O último achei interessante a relação entre os números e as letras, de quem conhece ambos. Combinação infinita. Bacana!

  4. Mário disse:

    Geniais. Parabéns! Gostei especialmente do primeiro e do último. O primeiro usando e abusando dos substantivos, que nos faz enxergar as possíveis ações. E o último brincando com as probabilidades.

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