Sonho bom

Conto por Alexandre Piccolo
19 de outubro de 2004

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Em meu princípio está meu fim bem como em meu fim está meu princípio, diz T. S. Eliot no segundo de seus quatro quartetos. Não há assim recomeço no tempo presente, pois não há término ou conclusão ? apenas um infinito e infatigável desenrolar de todas as coisas. Com uma freqüência espantosa, esse desenrolar parece sem sentido algum. Um afã sem fim. Para explicar este fardo, o poeta sapiencial do Eclesiastes diz ter visto a tarefa que Elohim deu aos homens, em cujos corações reside o conceito de eternidade (ou o “eterno-sempre”, na tradução do poeta moderno), sem que jamais consigamos devassar a obra divina do começo ao fim. (Ec. III, 11)

Como sempre, sem entender por que, insisto em beber mais um gole e olhar estupefato para a moeda que teima em girar a minha frente no balcão. Com a cabeça baixa, pendente, ainda tonto balanço na cadeira uma vaga lembrança desta vã embriaguês. No fundo, a memória e o balanço me fazem sorrir. Um arroto e a moeda ainda paira quieta no balcão. Estúpida idiossincrasia: dou-lhe um peteleco voluntarioso, embriagado de vontade, e ela gira, gira, gira incontáveis vezes até cair, quase sempre, do mesmo lado. Mais um gole e percebo o garçom me fitar com impaciência e desgosto. É hora de sair e vagar.

Fogem-me constantemente as últimas recordações de onde estive, quem vi e encontrei nos becos e avendidas por onde passei. Embrulho-me no mantô para afugentar o frio. As ruas estreitas e escuras reforçam a mistura já confusa de lembranças frias das cidades onde estive. Cruzo um bêbado sujo sentado no chão que me balbucia qualquer coisa. Piedoso, atiro-lhe a moeda que ainda me resta, e fujo depressa dali para esquecer na esquina algum resquício infame de falsa misericórdia. A estação de metrô a frente não me diz mais onde estou. No entanto, uma cena se repete insistentemente em minha memória: a imagem nítida d?eu criança, meu balançar num parque de diversões, num destes balanços comuns, ordinários, de correntes e banco de ferro em que, ora os adultos empurram os pequenos para dar-lhes impulso, ora estes já dominam a gravidade e seu equilíbrio e se fazem pendular sozinhos ? contentes com um simples balançar. Desço as escadas rumo à próxima estação, a primeira em que parar me será útil para continuar a caminhada. Os bares fechados me impedem de prolongar este sutil fardo já embriagado ou, de outra maneira, me forçam à caminhada solitária pelas frias avenidas de mais um "lugar-qualquer", a repassar os minutos inclementes de avaliação de uma confusa memória.

As questões relacionadas à memória e ao tempo ocupam a humanidade em dias já incontáveis (como as revoluções de minha moeda) de cada século então passado. Borges diz ter sido o tempo seu Demócrito (orgulhoso “elogio da sombra”), e certamente muito e bem refletiu pinturas e nuances deste correr sem fim. O tempo, para o cego Qvist, de uma história de Per Hallström, nunca lhe era fastidioso, pois tinha o dom abençoado de um sono duradouro e profundo em meio a sua completa e perpétua escuridão. No fim é este o rumo para o qual partimos, um eterno dormir de um sonho bom, cheio de nuvens brancas como algodão num céu azul, um parque de diversões com carrossel, roda-gigante e um pequeno conjunto de balanços no cantinho do parque, pra balançar como criança, sem saber o que é memória nem sentir o que é tempo, com o vento fresco no rosto e o frio na barriga ao subir e descer de cada nova balançada.


Titulo: Sonho bom

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 19 de outubro de 2004

Resumo:

É bom (sem grandes pieguices) voltar a sonhar.

2 Comentários

  1. PH disse:

    sem saber o que é memória nem sentir o que é tempo”… (suspiro). é muito bom lê-lo de volta, irmão.

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