Conto por Tiago Russel
21 de julho de 2004

Não sabia o que dizer, nem mesmo conseguia se fazer escutar. Seu coração batia tão forte que nada mais fazia sentido. A cada tum-tum seus raciocínios se perdiam, sua vida ia embora e o chão deixava de existir sobre seus pés.
Tudo o que ele tinha ia embora entre lágrimas e arrependimentos. Precisavam amadurecer, os bebês. Era triste mas inevitável. Era fato, mas não podia ser possível. Como ele poderia passar por tudo isso sem sua âncora?
Fugiu. Brigou. Correu. Bebeu. Não morreu. Em vez disso escreveu Te Amo milhares de vezes e encheu uma caixa até a tampa. Precisava deixar um estoque. E se fizesse frio? E se algum chefe brigasse com ela? E se algum familiar adoecesse? E se a máquina de fazer chapinha estragasse? Não era do perfil dele deixar faltar nada…
A cada dia ele imaginava quantos Te Amos já tinham sido usados. Ou quantos estariam esquecidos, substituídos por novos ditos ao vivo. Imaginou aqueles milhares de papéis coloridos em formatos irregulares. E grafias irregulares. E se tivesse usado uma régua? E se tivesse usado Letra Set? Que falta de capricho… tsc, tsc, tsc.
Não podia suportar a idéia de que aquela caixa cheinha de amor pra dar, lotada com tudo o que ele tinha de melhor, poderia estar perdida no fundo de algum armário empoeirado. Servindo de Ninho de Páscoa. Guardando fotos esquecidas. Ou pior…
Final de Copa do Mundo. Pela primeira vez Angola ia entrar para a história pela página da frente, e não pela seção policial. Os malditos rosbifes-metrossexuais-ingleses não tinham a menor chance. Luanda inteira estava em polvorosa, havia festas em todas as esquinas. E ele foi parar justamente lá, na esquina deles, a poucas quadras de um passado que insistia em o atormentar.
46 minutos do segundo tempo, jogo empatado. Centenas de testas suadas disputam espaço em frente ao telão. Bitucas de cigarro e unhas roídas formam pilhas pelo chão. Matakai corre pela esquerda e cruza. A bola desenha uma curva no ar enganando o goleiro Adams. Badula entra como um gnu ensandecido por trás da zaga. Aleluia irmãos. Deus é angolano, e ama todos vocês.
Luanda explode como nunca antes, nem mesmo quando deixou de ser colônia portuguesa. Todos se abraçam e bebem, como se o amanhã não mais importasse. Menos ele.
Olhando para a alegria de todos, mantinha uma fisionomia triste, vazio por Angola entrar para a história sem o destino deixar que a caixa, agora quase esquecida, se materializasse. A vida era injusta, como as reclamações do capitão Smith junto ao árbitro no final do jogo.
Nas ruas, o barulho de tambores retumbava fazendo frente ao fon-fon ensurdecedor das buzinas em carreata. Os carros passavam apinhados de gente, balançando com os pulos e sacudidas da multidão que invadia as ruas. Até que ele a viu.
Surgindo do teto solar, ela ria e se divertia entre a multidão. Ele tentava abrir caminho para chegar mais perto. Sorriso e peito abertos, este último quase jazendo esmagado por um trio elétrico que atravessava o mar de gente lentamente. Naquele momento nada mais importava. Seus olhos eram só dela. Cada trejeito, cada gole de cerveja fazendo glup naquela garganta delicada, cada movimento das mão colorindo o céu com papel picado.
Ele corre até a esquina, mas a perde de vista. Senta desolado na calçada. Olha para o chão, e chora. Chora como um bebê mamute. Chora como um maldito rosbife disfarçado. Chora muito. Chora demais. Chora sem parar. Chora exatas 27.036 lágrimas sobre cada Te Amo colorido encontrado espalhado pelo chão.
Titulo: Te Amo 27.036
Autor: Tiago Russel
Gênero: Conto
Data de publicação: 21 de julho de 2004
Resumo: O papel aceita tudo. Pena que é só o papel.
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oii Tiago
gostei muito do teu texto…achei diferente essa tua relação de amor com futbol!
beijos