Conto por Márcio Sampa
27 de janeiro de 2004
Tommy está feliz. Vestindo seu uniforme novinho, aguarda em meio a formação seu momento de embarcar. Ele aprendeu no treinamento a manter a feição sisuda. Mas por dentro sorri como uma criança. São muitas as razões para sorrir. Está vendo o mar pela primeira vez. Não imaginava o quão grande era o porto, o quão grande poderia ser um navio, o quão grande pode ser o mundo.
Tommy está feliz porque vai defender a América. Disseram que nunca deixariam os chocolate soldiers vestir um uniforme e muito menos embarcar num daqueles gigantes de aço para combater os japs ou os nazis. Tommy e seus amigos estavam lá para provar o contrário. Pra falar a verdade, ele não gostava muito do sargento, quer dizer, não gostava que lhe dessem ordens, e nos últimos meses aquele sujeito mal encarado não fazia outra coisa a não ser lhe dar ordens. Mas valia a pena passar por aquilo. Afinal, de que outra maneira ele poderia conhecer outros países, outras pessoas? Se tornar um homem de verdade? E, principalmente, provar que era tão capaz como qualquer outro jovem de sua geração? O mundo inteiro estava se unindo para combater o Eixo. Não, não, ele não perderia esta farra por nada.
Tommy está feliz. No coração do gigante de aço, atravessa os mares. Com seus camaradas canta, joga, conta e ouve histórias. É gente de todo o canto do país. Quando voltar pra casa vai ter tanta coisa pra contar. Mommy vai ficar orgulhosa dele. As garotas vão disputar sua companhia como loucas. Não há limites para suas previsões e seus sonhos. Embalado por eles, dorme com um sorriso no rosto. Enquanto isso, o gigante se move pela noite.
Um alarme soa, uma gritaria, um estrondo. Tommy acorda. As luzes piscam. O gigante de aço balança e aderna como se fosse uma insignificante canoa. Outro estrondo, mais gritos. O aço se contorce como papel. Uma viga se desloca com a velocidade do pensamento. Atinge o pescoço de Tommy. Tudo fica vermelho. Ele só tem tempo de lembrar de sua idade. Vinte e três anos. Só tem tempo de pensar que é muito jovem pra morrer assim. O vermelho dá lugar ao negro. Tudo fica escuro. Não há mais dor, nem gritos, nem aço. No silêncio, tudo agora fica acinzentado. Não há mais Tommy. Apenas uma consciência que flutua, ascende. Tudo agora é branco, uma luz única, onde há paz e uma indescritível sensação de plenitude. Aquilo, que um dia foi Tommy, está feliz.
Titulo: Tommy
Autor: Márcio Sampa
Gênero: Conto
Data de publicação: 27 de janeiro de 2004
Resumo: Um conto baseado em uma experiência xamânica.
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