Conto por Alexandre Piccolo
15 de janeiro de 2004
O consolo não viria com a palavra. Não viria de lugar algum. Era difícil conter o vazio que insistia desaguar. A carta lhe devolvia minúcias, além da estimada correntinha, e anunciava o adeus definitivo, o exterior sem volta, novo trabalho, nova casa, novo amor. Por longos intervalos duvidou existir, duvidou ler tudo aquilo, duvidou viver e ser assim, como Abigail. Os bons votos de despedida vilipendiaram-na. Se seu ex aparecesse por ali, é possível que o enxotasse, lhe cuspisse, o engolisse vivo, no mais puro desatino. Para que tanta mágua, tanto aperto, tanta dor? Mesmo distante, mesmo tendo mastigado este choro tempos atrás, agora regurgitá-lo renovava-a e a enfurecia de uma só vez. Dilacerou-se num simples esticar de corpo. Respirou quente e quase adormeceu, olhos úmidos, inchados. Desejou ter feito uma promessa quando começou este caso amoroso, jurar subir alguma escada infindável para esfolar-lhe os joelhos e macerar-lhe a memória doída de agora, mas não acreditava nestas coisas, jamais achou possível um juramento, seu preço ou sua paga se concretizarem - afinal, eram coisas forçadas, impostas, não significavam nada, não eram naturais e espontâneas, se justificava. Depois chorou mais, quis ter uma cabeça de papelão, pois se dava conta de que ainda continuava com esta mania estúpida de justificar para si mesmo as besteiras em que acreditava, estúpida.
Estúpida. Fora assim que ele a xingara quando brigaram pela última vez. Uma amiga repetiu-lhe o conselho materno - "não se entregue assim" - e acrescentou: homens são todos iguais, detalhe de que a mãe não ousou alertá-la, mesmo segurando-a nos lábios. Desceu rápido demais uma ladeira em que a gente costuma escorregar. Escorregou. Esfolava-se com a própria dúvida da troca, da incerteza e dos porquês. Como e quando Abigail ainda hesitava em relembrar, os telefonemas não atendidos, as desculpas imprecisas, a mordida de cachorro cujas circustâncias nunca conheceu, mesmo odiando o cachorro e lamentando a marca da mordida. Por fim, depois de tanto chorar, decidiu-se pela mordida, como se a ferida espontânea lhe trouxesse melhores benefícios que o medo da mordida. Trancou-se à chave no próprio quarto e voltou ainda chorosa à cama, esfacelada.
(O desfecho deste drama fica aberto à vida em si, seja ela justa, injusta, parcial ou não, vil e nobre ao mesmo tempo - ou apelidada como quiseres. Resta a confirmação de que, onde quer que estejamos, observá-la por si só é intrometer-lhe seus inúmeros e misteriosos caminho.) Entre soluços fortes e espaçados, numa respiração pesada, Abigail adormeceu. Olhos fechados, opressos, pesaram-lhe a imaginação conturbada. No meio de uma névoa branca, encontrou-se num vazio esfumaçado, sem paredes, portas ou horizontes. Uma só neblina fina, branca, ampla, rodeava-a. Quis se mover e perdeu fôlego, bambeou e agachou-se mas não achou chão. Zonza, esquilibrava-se no nada e pressentia que se balançasse um pouquinho, bem pouquinho, cairia. Tentou olhar ao redor, pouco mais de um braço de distância, teve medo, abraçou-se e quis chorar. Não lembrava como se chora em sonho, e isso a oprimiu, e num relance se enxergou de fora, de cima, contemplando o próprio drama, regressou, suspirou, gritou alto e caiu. Acordou no susto do desequilíbrio da cama e levantou decidida. Era preciso acabar com o pesadelo.
Titulo: Três por 4
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 15 de janeiro de 2004
Resumo: História em quatro partes, terceira parte.
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Vc caracterizou Abigail muito bem, Alex. Meio patética, um tanto convarde e acomodada, romântica e, (por que não?), cômica. O que podemos esperar dela?