Conto por Marco Giannelli
26 de fevereiro de 2003
A luz mal tinha sido desligada, desvanecendo os últimos raios cintilantes que aqueciam o ambiente, e os dois ali já se encontravam. Um olhava para o outro, embora sem nenhuma constatação. Ele, postado ao lado da mesa do contador-chefe, sr. Brandão, homem de notável conhecimento e pequena capacidade de expressão, e que com muito custo conseguia dizer bom dia aos seus subordinados. Ela (difícil ter chegado a conclusão de que se tratava dela e não dele, dado que ambos eram em tudo semelhantes, o que dificultava até saber de que sexo eram…), mais receosa, ficava espiando com prudência e garbo, pela porta semi-aberta do banheiro do escritório. Espertados para o fato de que ali não havia mais ninguém, resolveram vasculhar o ambiente em busca de novidades. Mal se notavam agora, que corriam a vontade especulando, andando de lá pra cá, de cá pra lá. Ele circundava a mesa do computador, onde diariamente se sentava a secretária encarregada de digitar milhares de números e dados, e entre papéis e carbonos jogados ao lixo, descobria um pedaço infeliz de maçã, comida pela faminta secretária no intervalo entre uma cifra e outra. Ele deslizou pela amputada maçã um olhar de desprezo, talvez pela degenerescência em que a mesma se encontrava, talvez por quedar-se entre papéis e carbonos no lixo. Ela, mais aguerrida e menos bisbilhoteira, fora direto ao armário do contínuo, onde sabia estar repousando tranquilamente, muitos pacotes de bolachas e guloseimas, armazenadas pelo contínuo durante a semana. Ao notar que seu faro não tinha sido à toa, comunicou ao parceiro, que insistira em vasculhar o cesto de lixo para entender melhor a amputação da maçã. Ele, desistindo então do achado, foi correndo ao encontro dela, que a esta altura, já invadira o armário e descobrira um pacote de bolacha de chocolate (seu sabor preferido) completamente aberto e indefeso…Os dois deram início então à uma verdadeira saturnia no lugar ocupado pelo contínuo, mancebo de 15 anos, pretinho e muito mal-humorado, talvez por ser adolescente e imberbe, talvez por ser preto num mundo em que a bondade sempre teve a cor branca…Bem, mas deixemos o pretinho de lado que de preconceitos é feito o mundo. Ele, faminto e guloso, pulava sobre ela que, a despeito de sua façanha, abria mão de deter a primazia da bolacha, em benefício dele. Ao final da primeira carreira de bolachas, que eles não comiam inteiramente, mas somente o recheio, decidiram, entre gestos e o prazer de saboreá-las, que deveriam voltar à tranquilidade de seus lares e abandonar o frio ambiente daquele escritório contábil, pródigo em papéis, cercado de números e cheirando a carbono velho. Então, recolheram o que mais lhes apetecia da bolacha, o recheio, e juntos e satisfeitos foram saindo do recinto conturbado por cifras e laudas, documentos e monitores, balanços e fraudes. E ao sair, ele experimentou a triste sensação de não ter compreendido o que levava a secretária a amputar o que havia de melhor na maçã. E lamentou não poder esperar a segunda-feira para perguntar à secretária, visto que no mundo das baratas, a segunda-feira é sempre a mais perigosa das jornadas…
Titulo: Um encontro no escritório contábil
Autor: Marco Giannelli
Gênero: Conto
Data de publicação: 26 de fevereiro de 2003
Resumo: As vicissitudes de um encontro
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