Conto por Alexandre Piccolo
5 de janeiro de 2004
Abigail, 35, morava com os pais. Seus irmão e irmã, ambos mais velhos, saíram de casa jovens, para estudar fora, como se dizia na família, e não mais voltaram. Voltaram sim, mas para ocasiões singulares ou especiais, festas de fim de ano, um feriado esporádico, algum velório indesejado, mas não voltaram a morar com os pais como Abigail. E não exatamente como Abigail. Ela mesma nunca saíra para morar fora, para descobrir a vida que por vezes tremia e ansiava haver lá fora. Fora da casa de seus pais havia um mistério ainda não explorado que seguramente temia porém desejava como uma sobremesa desconhecida. Sentia seu coração realmente pulsar mais forte quando se imaginava trocando uma lâmpada ou uma resistência de chuveiro, quando queimassem num sábado à noite, como contagiada ouvira seu irmão contar, mas por fim se acalmava, suspirava frio, resfriava os impulsos de fugir correndo para longe e sair ao Deus dará e se ensimesmava. Era questão de pedirem um copo d?água após a sobremesa, ao que ela servia a visita sorridente e já desencantada.
Terminara um relacionamento de anos há sete meses e hoje vivia uma espécie de vazio sentimental. Desde então colocou na cabeça que era impossível encontrar o par perfeito, leu numa revista feminina o desencontro de signos entre ela e seu ex-amado e concluiu: nunca vou ser feliz. No começo houve choro, muitos gritos, banhos frios pra acalmar não só o espírito mas a carne ainda quente e acabou se controlando. Afinal, “todos passam por isso”, dizia sua mãe, “você não é a única do mundo”, e, por mais que tivesse ouvido esse palavreado um milhão de vezes e toda a ladainha mais lhe importunasse os ouvidos do que ajudasse, acabou ajudando. Nestes relances se sentia só. Às vezes percebia como ela se parecia com seus pais, quietos, atentos à televisão ? em especial na hora do jornal, em silêncio e concentrados, para não perturbar as notícias do pai ?, meio pasmos diante do mundo, mas sempre esperançosos, altivos, e no fundo um pouco orgulhosos. Nem todos passavam assim tão bem pela vida. Deste orgulho também tinha, mas mais lá no fundo. Quando reconheceu que o falatório da mãe já se instalara e se introjetara sem que percebesse em seu dia-a-dia, em suas atitudes, no regar das plantas de manhã, se surpreendeu consigo iluminada, como se admirasse o voar de uma borboleta selvagem domada, e se deixou escapar janela à fora, com a mãe lhe chamando para o costumeiro almoço de domingo.
Trabalhava há doze anos na seção de achados e perdidos, no terceiro andar de um prédio administrativo da secretaria do governo estadual, como auxiliar de gabinete ou, como dizia, secretária-recepcionista. Em sua repartição chegavam pessoas reclamando objetos perdidos ou informando achados menores. Ela os atendia, sempre com um sorriso automático e autêntico, fazia-os preencher uma ficha sobre o ocorrido e prosseguia com o procedimento. Sem burocracia, comigo não tem burocracia, repetia para qualquer um que lhe perguntasse sobre seu trabalho. Entrava pontualmente às oito e quinze, oito e dezesseis, até oito e vinte, disso não passava ? mesmo que seu horário oficial fosse às oito, reconhecia. Então economizava quinze minutos de sua uma hora e trinta minutos do horário de almoço numa corrida acelerada para casa de seus pais, para ficar esbaforida e de prontidão ao balcão em frente ao ventilador ? para qualquer imprevisto. Ninguém aparecia. Saía sempre às seis, tivesse ou não pendências inadiáveis para amanhã. Queixo erguido e olhar firme, era como deixava o trabalho de segunda à sexta; sou funcionária pública, era a resposta que mantinha na ponta da língua, caso precisasse. Voltava ouvindo o corriqueiro programa de música para namorados na rádio jovem da cidade, mas não se achava nem mais jovem, nem mais capaz de ser feliz no amor. E isso a deixava melancólica nos últimos dias.
Titulo: Um por 4
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Conto
Data de publicação: 5 de janeiro de 2004
Resumo: História em quatro partes
Alê, depois de 2 meio textos (os dois anteriores) nada melhor que um bom texto da sua lavra. Estou louca pra ir pro próximo… Beijos, Marilda
Primeira parte desenhou muitíssimo bem a personagem. primeira parte deixou o gostinho de “quero mais”…espero que venha logo.
Abigail está muito bem caracterizada. Aguardo a continuação…
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Alex, devido as férias, não deu pra ler esta série em tempo real. Agora estou recaptulando. E já curtindo muito…