Uma questão de braço

Conto por Mário Neto
22 de janeiro de 2004

Braços fortes. Era o requisito básico de Soninha na escolha do namorado. Não importava muito o que ele dissesse, pensasse, sentisse, ou como era o resto do corpo. Um bom braço, grosso, forte, bem definido, firme na hora de abraçar, dizia por si só se o relacionamento iria ou não em frente.

Ela conheceu bons braços na adolescência. O braço do Diogo, o primeiro namorado, era forte, mas não era longo ao ponto de abraçá-la como se devia abraçar uma mulher. Depois namorou o Romualdo, que tinha os cotovelos completamente ralados e duros. Ah, não tinha cabimento. Era um braço lindo de se ver, digno de ser eternizado em uma foto para futuras contemplações. Mas os cotovelos… quando Soninha passou a mão e sentiu aquela aspereza horrorosa… Deixou o Romualdo assim que pôde. Inventou daquelas desculpas: eram muito amigos. Ele acreditou. Sempre acreditam.

Quando conheceu o Alex, não achou os braços dele grande coisa. Eram até bonitos, mas comuns. Não eram grandes ou grossos, nem faziam as mangas da camiseta esticar. Pior: não sabia abraçar! Ela até hoje se pergunta porque namorou o Alex. Talvez porque dissessem que era lindo. Ela discorda.

Namorou o Alex quando tinha dezoito. Depois dele, Soninha amargou um longo tempo sozinha. Ficava incomodada com a falta de bons braços no mundo. Nem a turma do exército, tradicional em formar braços esculturais, conseguia fazer Soninha ter esperança. Não restavam muitas opções: ela teria que abrir mão do que queria para poder ficar com alguém.

Decidiu. A idade já não lhe permitia escolher os braços que quisesse e, ainda mais alarmante, ela sabia que os braços dos seus sonhos eram mesmo impossíveis. Todo aquele bíceps desejado, aquela voltinha bem definida entre o braço e os ombros, o antebraço de um Popeye, as grossas veias, verdes e largamente calibradas, enfim, todas essas características "obrigatórias na seleção de um homem que preste", tiveram que ser revistas. "Braços da realidade, não os braços dos sonhos", Soninha repetia como seu novo mote de vida.

Fagulha

Pouco depois conheceu o Fagulha. O homem era só braço. O braço. Claro, foi amor à primeira vista. Mas ela tinha que encontrar algum defeito. Enquanto se pendurava nos grandes, longos e fortes braços, ela verificava os cotovelos. Incrível, eram macios! Sorriu. Depois o abraço. Que abraço! Aquilo era um abraço decente. Não só estava protegida, como sentia aquela firmeza que se espera de um homem. Era o cara perfeito!

Rindo à toa, ela chegou a pensar, brincando: "como eu podia querer aqueles bracinhos!"

Foram se conhecendo. Primeiro ela descobriu a razão do apelido "Fagulha". O nome verdadeiro dele era Claudete, "completamente incompatível com um braço desses". O apelido vinha de uma pequena tatuagem no bíceps esquerdo. Era o desenho de um revólver no momento de um disparo. Ele fez questão que o tatuador fizesse com perfeição as formas da fagulha no momento do tiro. Os amigos, claro, não tiveram como recusar o novo nome. Fagulha era perfeito.

Passaram a morar juntos. Ela passava horas observando Fagulha trocar as lâmpadas. Aliás, fim de semana juntos era garantia de troca de todas as lâmpadas da casa, mesmo que não estivessem queimadas. E trocavam as lâmpadas da cozinha, do pequeno quarto, do banheiro e da sala de TV. Ela sonhava com filhos, todos braçudinhos como o pai. Ele era o braço da vida dela.

Fim do feitiço

Depois de um tempo, no entanto, o inevitável aconteceu. Era para ela uma imensa tristeza, mas fugia de seu controle. Fagulha tinha mesmo um par de braços de se fazer inveja a qualquer homem, fosse dos esportes ou da construção civil. Eram longos o suficiente para poder abraçar uma mulher como mandava o figurino. Eram firmes, mas macios; fortes, mas carinhosos; volumosos, mas ágeis. Sabiam encher uma manga de camiseta como nenhum outro. Ela sabia disso tudo.

Só que ela percebeu que trocar as lâmpadas não era algo que lhe agradava como antes. Os abraços não tinham a mesma magia. Soninha começou a se preocupar. Aquele bração ali, na sua frente, e ela não sentia nada. Em outros tempos isso nunca estaria acontecendo. Aquelas veias saltadas, verdes, grossamente calibradas, pedindo uma mordida, não despertavam nela o menor interesse.

E assim foi. Passou a evitar Fagulha. Pediu para que ele vestisse camisetas de mangas largas. Implorou para que não trocasse mais lâmpadas. Mas nada adiantou. Terminaram quase um ano depois de sua triste percepção.

Ouvido

Depois disso, Soninha ficou muito tempo só. Muito. Só voltou a perceber que estava viva, que podia amar novamente, quando ficou extasiada ao ver Roberto, um antigo amigo que há muito não via. Ele tinha o ouvido mais atraente e bem torneado que se podia encontrar num homem.

Mário de Souza Neto tem braços comuns e ouvidos pequenos.


Titulo: Uma questão de braço

Autor: Mário Neto

Gênero: Conto

Data de publicação: 22 de janeiro de 2004

Resumo:

Ou será de ouvido?

2 Comentários

  1. PH disse:

    boa, Mário. Gostei do texto inteiro, da sacada, do espírito da coisa e como sempre, do seu estilo delicioso de escrita. Só não gostei de tantos braços fortes…hehehe…

  2. Alexandre Piccolo disse:

    hehe, mulheres… ao menos para Soninha eram os braços (ou os ouvidos?) que importavam… braços…

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Quem é Mário Neto?

Um (eterno) aprendiz.

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