Conto por Tiago Russel
13 de novembro de 2003

Mais um dia, e a sensação de que está tudo acabado acorda de novo na minha cabeça. Ela não dura apenas o tempo suficiente para um rápido olhar remelento revelar que as coisas estão exatamente no mesmo lugar. E é isso que incomoda.
Não sei o que é pior. Olhar para as mesmas paredes, escutar o mesmo cachorro latindo, ler as mesmas manchetes nos jornais ou simplesmente não ter mais nenhuma idéia de onde se quer chegar. Imagino quantos de nós ainda vivem escolhendo momentos.
Depois que o despertador berra e a apatia toma conta, os movimentos são automáticos. Por sorte sobram os pensamentos, única perspectiva de mudança. O escape de toda uma geração. De uma gente faminta para ver o que a vida preparou. Educada para sonhar com jantares, castiçais, velas e vinho tinto. Mas que encontram uma realidade de fast-foods coloridos e números combinativos. No final, todos acabamos nos alimentando da carne que separa as unhas dos dedos.
Fomos programados para isso. Nos deixamos viver com pressa, correndo atrás de respeito, dinheiro e o par perfeito. Sem tempo para o resto.
Um resto que é tudo aquilo que não cabe dentro da caixa. Sim, todos temos uma presa nas costas. Por maior ou menor que ela seja, seu tamanho e forma não variam. Mesmo que viesse com as dimensões do infinito, não conseguiria guardar este resto por absoluta falta de espaço. Até porque, hoje em dia, parece que ninguém aprendeu a guardar o que é realmente especial. Sejam momentos, ou gestos. No lugar disso, a maioria de nós ocupa este lugar como uma prateleira iluminada no centro do universo. Do “nosso” universo.
Um lugar onde exibimos o carro novo, um tapinha nas costas, uma porção de elogios e até uma coleção de galanteios. Gente tratada como objeto. Carinhos catalogados e etiquetados num arquivo morto. Palavras inúteis, filhas de momentos impensados com a insegurança instalada. Necessidades momentâneas sem utilidade nenhuma. Como jogar paciência e ganhar dela roubando.
Ainda estou na cama e já acordo cansado. Culpa da maldita caixa, lotada de nadas sem importância. É duro descobrir que passei a vida inteira atolando um arquivo sem tamanho com coisas sem utilidade. Crateras ocupando lugar em um espaço precioso.
Chega. Chega de fingir não saber que ninguém mais tem o direito de perder tempo com bobagens. Há muitas coisas esperando por esta geração. Mesmo que ela ainda não tenha encontrado nenhuma pista de seja lá o que for que esteja procurando. Que esteja acostumada a se perder numa caixa que não é de mais ninguém. Só sua.
Já é hora de jogar tudo isso fora. Ou de pelo menos compactar o conteúdo desta maldita para o futuro. Para que uma próxima geração não precise ficar procurando um significado, nem perder tempo procurando o que é preciso fazer para preencher este vazio.
Preciso levantar. Deixar uma simples herança. Ou um pequeno histórico de uma caixa de nadas, exemplo do que nunca mais precisará existir.
Titulo: Unzip
Autor: Tiago Russel
Gênero: Conto
Data de publicação: 13 de novembro de 2003
Resumo: Um espaço precioso demais.
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É tudo uma caixa de cacarecos. O importante é como significá-los. “Cacarecos”, há muito não ouvia esta palavra… Dá pra dizer ca-ca-re-cos com uma bai-ta liberdade? Adorei!