Utopista

Conto por Alexandre Piccolo
7 de junho de 2004

Um homem lia e não acreditava no que lia. Lia de tudo: jornais, revistas, gibis, livros e mais livros e nada o convencia de que havia uma verdade por trás do que lia.

Os escritos por fim pareciam só desenhos, rabiscos ordenados e convencionados para evocar uma parábola que muitas vezes sequer existia. "Liberdade, Igualdade, palavras soltas, entropia…" ? tudo símbolo que ia e vinha como água escorrendo na pia. Lia branco e não via branco. Lia verde, e verde não havia. Lia palavras, frases, parágrafos, páginas e mais páginas de histórias de gente que nem existia e nada o comovia a crer numa só letra de tudo aquilo que lia.

As imagens nos jornais eram tinta colorida no papel, paisagens e cenas congeladas numa folha que, com a chuva, se dissolvia. As revistas levavam fotos e sorrisos de capa à contra-capa que se rasgavam no tempo sem deixar uma única página de papel que, seca, se esvaía. Os livros juntavam mais páginas e poeira, na estante ou na prateleira, não importava a língua ou a grafia: em hebraico, grego ou latim, somavam gramas e mais gramas de verbos e letras que sumiam na ventania. Contemplava folhas e nada via. Não se sabe se por hábito ou loucura, às vezes ele conduzia uma folha à orelha, bem junto ao ouvido, e - como sempre - nada ouvia. A página era muda e vazia.

Enfastiado e descrente, resolveu escrever. Dizia a gente que bem levava os dias a traçar aqueles infindáveis desenhos e curvas que tanto e tão lentamente lera - e agora escrevia. Marcava meticulosamente todos os sinais em pardas páginas que aos poucos amarrava e costurava, uns após os outros, como quem tece um infinito tapete. E, por incrível que pareça, gostou do que fazia. Achava passar melhor o tempo assim do que quando apenas lia. Em meio aos contornos e traços que tanto repetia, começou a ver cores, cobras, cavalos e cavaleiros entre dragões e enguias. Soltou a pena num susto e olhou para o papel, com medo e desconfiado. Afinal, de onde vieram os dragões e os cavaleiros que há pouco vira? Olhou ao redor ressabiado, caiu em si e, resignado, voltou a fazer o que fazia, desta vez com mais afinco, denodo e simpatia.

Baixou a vista e, quando começou seus escritos, não mais parou, nada mais via. Viu torres, castelos, vislumbrou rei e rainha, pintou mágico e pronunciou magia, palrou príncipes e princesas, dragões e gigantes e toda a cavalaria em batalhas tão nítidas cujo próprio sonhar reluzia. De tão claro e inesquecível sonho não mais aguentou a fantasia e, ao peso da pena, a cabeça de seu pescoço já pendia. Caiu exausto sobre seus papéis e dormiu ali onde escrevia.

Quando acordou, não se lembrava do que lá acontecido havia. Olhou sobre a mesa e viu epístolas, papéis, palavras e rabiscos, como era costume tudo ver quando lia. Sentou-se triste sobre a mesa e, mais uma vez, leu tudo o que ali existia. O homem lia mas não mais acreditava no que lia.


Titulo: Utopista

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Conto

Data de publicação: 7 de junho de 2004

Resumo:

O homem lia e não acreditava no que lia.

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6 Comentários

  1. Gustavo Gontijo disse:

    Boa poesia esta prosa sua tem.

  2. Marilda Piccolo disse:

    Alê, a utopia possível: registrar nossos pensamentos?

  3. Mário disse:

    Excelente, Piccolo. Ritmo cadenciado de leitura, rimas estratégicas, fantasia. Gostei particularmente do jogo de palavras do terceiro parágrafo…

  4. leo disse:

    muito bom, mas não entendi o título!

  5. PH disse:

    beleza de prosa, Alex! Lúdica, fantástica, poética. Muito inspirada, obra-prima pro seu acervo.

  6. Eduardo disse:

    ótima prosapoesia, de bela simetria!

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