Conto por Bruno Santos
23 de março de 2004

Enfim eu chegava mais uma vez em casa, depois de semanas longe, ocupado com o trabalho e as pequenas obrigações cotidianas. Como de costume, meu pai trocara apenas algumas poucas palavras comigo no caminho da rodoviária ao lar. Minha mãe, como de praxe, esperava-me com um sorriso cheio de dentes e os braços abertos para me apertar bem forte contra o peito. Mais gostoso que o abraço em si era saber o quanto ela ficava feliz por saber o quão contente eu ficava em seu colo. E mais gostoso ainda era o pão-de-queijo que ela fazia.
Lá estavam ainda minhas irmãs, afagadas também com muito carinho. Além delas, estavam na casa um rapaz pouco mais velho que eu, de traços conhecidos, e uma bela moça, mais ou menos da idade de minha irmã caçula. Cumprimentei-os amavelmente, aproveitando a concentração de afeto que pairava no ambiente, apesar de não me terem sido apresentados.
Conversei um pouco com meus pais sobre tudo o que sempre falávamos ao telefone. A família ia muito bem, aquelas dores no estômago iam passando aos poucos, as meninas continuavam dando dor-de-cabeça. Tudo perfeitamente normal. Eu só não compreendia ainda o que aqueles dois jovens faziam na casa como se fossem de casa. Talvez fossem amigos das meninas. Pelo menos a garota, que se arrumava para sair com elas. O sujeito poderia até ser namorado de alguma, mas ia e voltava da sala para o quarto com tanto desdém da situação, que eu não conseguia aceitar essa hipótese.
Quando as meninas saíram, aproveitei para perguntar a meu pai:
- Pai, quem são esses dois aí?
- Quem?
- Esse cara e essa moça bonitinha que tá com as meninas.
Ele fez uma expressão de repentino desânimo, olhou para o lado e fitou-me novamente:
- Bom, acho que vou ter que te explicar de novo. Filho, você sofre de um distúrbio de carência de reconhecimento da identidade de seus dois irmãos. Esses aí são o Carlos e a Marina. São seus irmãos.
Minha noção de existência dissipou-se como poeira ao vento.
- Como assim? Eu tenho mais irmãos, além da Fernanda e da Daniela?
- É, só que você nunca lembra que eles existem.
- Peraí, quer dizer que eu sempre quis ter um irmão, mas nem precisava querer, porque já tinha? Mas essa menina é loira, não faz sentido! Por que eles não conversam comigo direito?
- Justamente porque você nunca sabe quem eles são. Antigamente eles ainda tinham paciência de te explicar tudo outra vez, mas com o tempo se cansaram e resolveram desistir. Às vezes eles só falam que são só colegas de faculdade pra não precisar ficar repetindo a história toda. E qual o problema da Marina ser loira? A Fernanda também é branquinha.
- Isso é, mas… Pai, isso não faz o menor sentido! Como é que eu vivo a vida inteira com dois irmãos e não consigo reconhecer eles? E porque eu nunca vejo eles nas fotos?
- Você vê, filho, mas seu cérebro não processa direito a imagem deles, não consegue conectar com ninguém que você já conhece e acabam passando despercebidos. O médico já cansou de explicar o caso.
- Nossa! Então deixa eu aproveitar e pedir desculpas pro Carlos, é esse mesmo o nome dele? Que louco, eu tenho um irmão! Putz, pena que eu não consigo me lembrar de nada que a gente tenha feito junto… Vou lá bater um papo com ele.
- É, você sabe… Quer dizer, não sabe, mas você já fez isso das outras vezes. Talvez ele fique um pouco irritado, sabe como é…
Um turbilhão de coisas passou pela minha cabeça. Fiz muita força para tentar compreender a situação ou resgatar alguma memória de meus novos irmãos, mas não consegui.
Naturalmente, passei mais um tempo entendendo e desentendendo a situação até me despertar na minha cama em São Paulo. De imediato veio o alívio de saber que era mais um desses recorrentes sonhos malucos que povoam nossos sonos.
À hora do almoço, liguei para minha mãe a fim de contar a história bizarra.
- Oi, Mãe! Bença, tudo jóia? Você não sabe o que eu sonhei hoje. Eu voltei pra casa, daí quando eu cheguei descobri que tinha dois irmãos, um homem e uma mulher!
- Não acredito! Você se lembrou da Marina e do Carlos?
Caí para trás, bati a cabeça na quina da mesa de centro e hoje, no leito do hospital, não faço a menor idéia de quem são aquela jovem e bela senhora morena, aquele senhor careca e barrigudo, nem aquelas duas mocinhas bonitas que acompanham o Carlos e a Marina.
Titulo: Velhos desconhecidos
Autor: Bruno Santos
Gênero: Conto
Data de publicação: 23 de março de 2004
Resumo: Um texto tão auto-explicativo quanto um quadro de Miró.
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Brunão! Só me diz q essa história é ficção senão vou ficar com mais medo de vc ainda!!!!! Hahahaha….mas foi muito boa!! É muito gostoso ler seus textos…