Vida Bandida

Conto por Tiago Russel
15 de abril de 2003

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Ilustração: Aurélio Rauber

Escondo a arma prateada que insiste em reluzir na minha cintura. Já fui bom com ela. E ela, melhor ainda comigo. Nunca me deixou na mão. Até agora.

O ambiente era hostil. Pessoas mal-encaradas analisavam os alvos sob todos os ângulos. Era o tipo de lugar onde deve-se escolher bem para onde olhar: muito para baixo, covarde; muito para cima, arrogante; direto nos olhos, vai querer encarar, mané?

É tudo uma questão de postura. E de ângulo. A escolha é simples. Ou se vê a arma sob o ponto de vista da bala, ou de quem faz a mira. Não gosto das alternativas. Quero entrar e sair sem ser notado. Não desejo mostrar o que está escondido sob minha camisa.

Não é fácil. O canhão de luz me encontra e cega. Estou no centro das atenções mais uma vez. Preciso agir rápido. Os movimentos precisam ser milimetricamente estudados.

Atravesso a escuridão com passos firmes e vou direto ao balcão. O contato visual com o barman garante meu atendimento. Nestes lugares, o simples fato de não precisar chamar o garçom para ser atendido já é símbolo de respeito.

A bebida reluz dourada no fundo do copo. Pelo reflexo, percebo a aproximação do primeiro desafio. Meu corpo treme, e o copo precisa ser levado à boca rapidamente antes que alguém consiga perceber.

Sou denunciado pelo barulho do gelo batendo no vidro. Quem me conhece sabe que isso é normal. Poucos sobreviveram para passar este conhecimento adiante.

Alarme falso. Não precisei me mexer. Não quero nem posso gastar energias à toa. Sou ciente dos meus objetivos. Qualquer distração pode ser fatal. Esta é minha última chance.

Recebo um tapa forte no ombro esquerdo. Com a direita, saco minha arma. Reflexo condicionado. Seu abraço me contém. O perfume me abala. Os olhos, hipnotizam. Ela estaria ali para me ajudar? Logo ela? Impossível. Não posso nem vou acreditar nisso. Preciso fazer tudo sozinho. O plano todo está em primeira pessoa. O roubo perfeito, se tudo realmente funcionar como imagino.

Fito o alvo. Conheço o terreno. Pouca coisa mudou nos últimos anos. Preciso apenas lembrar qual a seqüência certa antes de apertar os botões. Me aproximo, sorridente. Seu olhar me desmascara. Perco a respiração, a fala e, de quebra, a coragem. Esqueço o plano, levo a mão à cintura, e falo baixinho:

- Mãos ao alto! E passa logo este coração se não te queimo.


Titulo: Vida Bandida

Autor: Tiago Russel

Gênero: Conto

Data de publicação: 15 de abril de 2003

Resumo:

O assalto perfeito.

4 Comentários

  1. PH disse:

    Muito valioso! Quebra a expectativa muito bem no final, com a dose certa de rudez e poesia.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Bem legal todo o conjunto, texto e imagem, um jogo de sentidos e imaginação num sugestivo e agradável conflito.

  3. Ronaldo Magalhães Lima disse:

    Bom texto. E a ilustração muito bem feita. Acho que na A patada deveria ter em sua home principal, mas figuras, ilustrações, fotos… isto chama bastante a atenção do leitor. Pricipalmente seria legal uma foto de cada escritor no final de seu texto, conto, poesia e etc… É bom ver a cara de quem escreve.

  4. Mário de Souza Neto disse:

    Muito bom Tiago esse jogo de palavras e metáforas do durão com a mocinha.

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Quem é Tiago Russel?

Escrevo como válvula de escape. Antes que a vida me escape.

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